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| » » » 29.08.07 |
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| Phil Hill 1927-2008 |
29.08.07 |
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“O carro dele está pegando fogo!” Esta é, a rigor, a fala mais importante do piloto Tim Randolph, referindo-se a seu companheiro de equipe, Pete Aron, durante o GP da Inglaterra. A cena e os personagens são do mítico filme “Grand Prix”, que completou quarenta anos em 2006. Pete Aron é o nome do ator James Gardner na película, aclamada por quase toda a comunidade automobilística mundial como o melhor filme de corrida de todos os tempos. Tim Randolph é o personagem timidamente vivido pelo piloto Phil Hill.
Piloto, vírgula. Pelo campeão mundial de Fórmula 1 de 1961, o norte-americano Phil Hill. Ao lado de outros pilotos “de verdade” que participaram do filme, Hill talvez tenha sido o de maior destaque, ainda que discreto na comparação com os pilotos fictícios, vividos pelos atores Yves Montand, Brian Bedford, Antonio Sabato, além de Gardner, os epicentros da trama. Além de ter algumas falas na história, Hill foi o piloto do carro que capturou imagens on board para várias cenas de “Grand Prix”.
As ondas de nostalgia e culto eterno a “Grand Prix” invariavelmente batem à porta de Phil Hill e a resposta é sempre a mesma. Mr. Hill não gosta de falar daquela época, o que pode soar como heresia para os milhares de admiradores do filme e de Fórmula 1 em todo o mundo. No entanto, é compreensível que Hill tenha certa antipatia por “Grand Prix” ou pelo menos à época de sua produção. Aos fatos:
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| No GP da Bélgica, com uma enorme câmera on board |
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Phil Hill, nascido em Miami, ostentou uma cintilante carreira no automobilismo europeu entre o final dos anos 1950 e o começo da década seguinte. Em um tempo no qual os pilotos passeavam livremente entre as fronteiras dos monopostos, dos carros de turismo e dos protótipos, Hill virou uma estrela a bordo da Ferrari. O sucesso começou nas competições de endurance e, sob a benção do Commendatore, venceu por três vezes as 24 Horas de Le Mans, sempre em dupla com o belga Olivier Gendebien. A façanha começou em 1958 e se consolidou com o bi em 1961 e 1962. Estava com a corda toda o homem nessa época, que em 1961 venceu também o Mundial de Fórmula 1, pela mesma Ferrari. Hill ganhou ainda as 12 Horas de Sebring e os 1.000 km da Argentina, demonstrando especial aptidão para as corridas de longa duração.
A boa fase na Fórmula 1 começou a se dissolver em 1962, quando Hill decidiu deixar a Ferrari. A saída da escuderia italiana foi o último capítulo de uma briga generalizada que opôs Enzo Ferrari, de um lado, e vários membros da equipe, de outro. Carlo Chiti e Romolo Tavoni, entre os demitidos, formaram a natimorta equipe ATS e Hill, em um erro de cálculo fatal, decidiu seguir os antigos companheiros na nova empreitada. Um desastre completo, marcando irreversivelmente a fase de ladeira abaixo de Hill na Fórmula 1.
Nessa situação claudicante, não é difícil que ele tenha aceitado desempenhar papel de relativo destaque no filme de John Frankenheimer menos por simpatia ao compatriota e pelo roteiro de “Grand Prix” e mais pela perspectiva de ganhar um razoável cachê. Visto de hoje, à luz do tilintar de milhões de dólares da Fórmula 1, na qual até pilotos menos cotados ganham rios de dinheiro, tal conjectura pode parecer absurda, em se tratando de um campeão mundial, mas não vamos nos esquecer de que, naqueles anos 1960, os pilotos arriscavam sua integridade física nas pistas muito mais pela glória que pela grana, que era substancialmente mais curta que hoje.
No ano de produção do filme, 1966, Hill inscreveu-se em apenas três corridas no campeonato “real” da Fórmula 1. Em duas delas, Mônaco e Bélgica, suas participações resumiam-se à função de piloto-cinegrafista, ou seja, Hill entrou na pista com carros equipados com câmeras acopladas, bem maiores que os minúsculos equipamentos de hoje, apenas para fazer imagens destinadas ao filme. A terceira participação do antigo campeão na competição daquele ano foi no GP da Itália, para o qual se inscreveu com um Eagle-Climax e não conseguiu se classificar. A tentativa frustrada em Monza foi sua última aparição como piloto de Fórmula 1. Hill abandonou as pistas um ano depois, vencendo sua corrida de despedida, uma prova de longa duração em Brands Hatch, na Inglaterra.
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| Hill, agachado, conversa com Gardner, a bordo do carro. Eram os companheiros de equipe da fictícia Yamura. |
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Como se não bastasse o inferno astral real que havia se instalado na carreira do piloto naquela época, a ficção deu sua contribuição. Em determinado trecho do filme, o fictício piloto Jean-Pierre Sarti, interpretado pelo francês Yves Montand, é apontado como antigo campeão da categoria. Mais exatamente, do ano de 1961, ou seja, o ano do único título conquistado por Hill na Fórmula 1. Cá entre nós, não era para Hill ter mesmo grandes recordações desse filme.
Depois de aposentado, Phil Hill voltou para a Flórida e se tornou comentarista de programas esportivos na rede ABC de televisão e passou a escrever colunas para publicações especializadas, além de montar uma empresa de restauração de carros antigos. Ele mesmo tem uma reluzente coleção de modelos do passado, inclusive um Pierce-Arrow de 1917, que pertence à sua família desde que era novo.
Um grande vencedor esse Phil Hill, a começar pelo fato de que nunca sofreu nenhum acidente sério em mais de vinte anos de carreira nas pistas. O fato de ter sido campeão de Fórmula 1 deve ter impressionado menos seus compatriotas que suas vitórias caseiras, como em Sebring. Sabe-se que o público dos Estados Unidos não costuma dar muita atenção ao automobilismo europeu, daí o fato de Hill ser bem menos célebre no próprio país que, por exemplo, Richard Petty, rei da Nascar, A.J. Foyt ou Al Unser, multivencedores em certames circunscritos aos Estados Unidos. Ao contrário de outro Hill campeão da Fórmula 1, o Graham, cujo filho Damon se tornaria também campeão mundial na categoria, Phil Hill não deixou uma linhagem vencedora no automobilismo. Seu filho Derek tentou a carreira nas pistas, mas sem sucesso.
Mágoas à parte, o aparente desprezo de Phil Hill por “Grand Prix” talvez traduza apenas o gosto do norte-americano médio em relação à Fórmula 1. É de fato um país que não gosta da categoria. Durante mais de cinqüenta anos, isso pareceu não incomodar os dirigentes do outro lado do oceano. No entanto, de uns anos para cá, as alterações no regulamento da Fórmula 1 têm sido acintosas no objetivo de promover aquilo que nos habituamos a chamar de “nascarização” da categoria, promovendo uma paridade forçada de equipamentos e tornando cada evento da Fórmula 1 mais um espetáculo televisivo que propriamente uma disputa esportiva.
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| O ex-piloto em foto recente |
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Da mesma forma que a Fifa parece empenhada em fazer os Estados Unidos se encantarem pelo futebol, a Fórmula 1 mostra-se debruçada no mesmo intento. É compreensível quando se enxerga o mercado daquele país como o de maior potencial consumidor do mundo. No entanto, há uma espessa barreira cultural a ser vencida. Um país tão afeito a cultuar seus heróis, e que parece indiferente a seu único campeão na categoria (vamos deixar o italiano Mario Andretti fora disso), não se mostra muito inclinado a venerar a Fórmula 1 de uma hora para a outra, só porque ela alterou seu regulamento.
Morreu ontem, aos 81 anos, o piloto americano Phil Hill, Campeão Mundial de
1961. Em sua memória, republicamos coluna de Alessandra Alves, original de
29/1/2007.
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