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Eu não sou cachorro, não 13.08.08


13.143 metros. Ou 13,143 km. Em linha reta, como ir do Centro de São Paulo ao Morumbi. À média de quase 190 km/h, percorre-se o trecho em menos de quatro minutos. Três voltas no circuito de Hungaroring.

262.860 metros. Ou 262,860 km. Um pouco mais do que ir de São Paulo à mineira Poços de Caldas. Em um carro de Fórmula 1, cobre-se tal distância em pouco mais de uma hora e meia. Sessenta voltas no circuito de Hungaroring.

Faltou pouco mais de 13 quilômetros para Felipe Massa consolidar o que seria a maior de suas vitórias na Fórmula 1. Foram 60 voltas na liderança, de um total de 70, 262,860 km. Só não esteve na ponta durante as janelas de pit stop.

E não é que tenha simplesmente liderado uma corrida. Assumiu a liderança de uma corrida que parecia talhada para a McLaren desde os treinos de sexta. Conseguiu reverter o favoritismo inglês por graça de uma das mais belas ultrapassagens dos últimos tempos. De todos os tempos. Manobra de determinação e ousadia. Manobra de tentar por aqui – não dá?, não tem problema – tento por lá. Manobra de retardar a freada, de fritar pneus, de sair meio de lado, meio kart, meio Boeing fazendo um looping.

Massa frita os pneus na Hungria - Clique para ampliar
O combinado, desde a véspera, parecia óbvio. Hamilton, na pole, largaria forte, deixando o escudeiro Kovalainen segurando o pelotão. Não combinaram com Massa. Impossível ver a ultrapassagem do brasileiro e não se lembrar de Piquet, passando por Senna, na mesma Budapeste, 22 anos antes. Uma diferença fundamental nas duas manobras: Senna já havia segurado Piquet uma vez, que o acossava no final da corrida, enquanto Hamilton pareceu surpreso ao ver a Ferrari indômita ir de um retrovisor ao outro, tentando primeiro por dentro, depois por fora, e depois lá na frente, tchau!

Tudo seguia como uma realidade que se revela melhor que o sonho. Massa liderava sem sofrer séria ameaça de Hamilton, até que o inglês teve um pneu furado. Ou furou-o, em alguma subida na zebra, agressivo que é. Melhor ainda. De dentro do cockpit, talvez o brasileiro fizesse contas e já se soubesse líder do campeonato. Não bastasse o pneu furado de Hamilton, o companheiro ferrarista penava, como um time na zona de rebaixamento, atrás da modesta, porém evoluída, Renault de Fernando Alonso. À frente de Hamilton, muito à frente de Raikkonen, Massa já saboreava o gosto da champanhe. Três voltas, 13 quilômetros, pouco mais, e o sonho fez puf.



A lembrança de Piquet ultrapassando Senna de repente se transmutou na má sorte de Nigel Mansell, em 1987, traído por uma porca de roda, a seis voltas do final, na mesma Budapeste. Peste de pista essa, diria Damon Hill, superado por Jacques Villeneuve dez anos depois, na última volta!, depois de liderar a maioria absoluta da prova, de ostentar cerca de trinta segundos de vantagem e de ir perdendo rendimento de sua Arrows-Yamaha, na base de nove segundos por volta, até terminar com um melancólico segundo lugar.



O sentimento que persistiu depois do motor estourado foi o inconformismo. Um vazio resignado no peito, a certeza de que o automobilismo nutre essa crueldade desde que a primeira corrida foi disputada. Desenvolvam-se tecnologias, ampliem-se inovações, sempre haverá um motor para estourar, uma porca de roda a se desprender, ou um ser humano a falhar na hora em que não poderia.

Durante a transmissão, pelo sistema Bandeirantes de rádio, o colega Cacá Bueno, que além de piloto e comentarista é amigo pessoal de Felipe Massa, disse que o GP da Hungria seria miseravelmente lembrado pela má sorte do brasileiro, não pela espetacular ultrapassagem na largada. Bem, o tempo dirá se Cacá estava certo, mas ainda confio na nossa vocação para a preservação da memória do automobilismo, quixotescamente achando que, se depender do GPTotal, a manobra magistral de Massa não ficará em nenhum desvão da história. Ao fim e ao cabo, só vamos mesmo conhecer a relevância dessa corrida quando terminar o campeonato e pudermos saber se esse resultado foi ou não fundamental para a conquista ou a perda do título.

Mas eis que a fumaça vai se dissipando, as lágrimas de Massa secando e a especulação aumenta. Da mesma forma que o automobilismo cultua escondido sua crueldade ancestral, parte da platéia parece nutrir em suas veias a paranóia. Para estes, nenhum motor de nenhum brasileiro explode por acaso, nenhum mecânico falha contra nossos compatriotas sem ser de caso pensado. É tudo armado, tudo engendrado meticulosamente para prejudicar nossos pobres Davis contra um permanente exército de Golias.

Mansell com seu Williams de 87, aqui em Paul Ricard
A teoria mais recente mistura dinheiro, traição e cobiça. Nos papéis principais, Massa, Kimi, Alonso, Ferrari e o Banco Santander. A trama seria a seguinte: a instituição bancária teria interesse em se transferir da McLaren para a Ferrari já em 2009, levando muito dinheiro em troca de um lugar no time para o espanhol Fernando Alonso. A Ferrari, como eu ou você, teria salivado pelas cifras, mas emperrado na equação humana do caso. Como conjugar Alonso e Kimi, os dois únicos campeões mundiais em atividade, no mesmo box?

A solução seria livrar-se do finlandês, que aqui e ali costuma dar declarações de fastio com a categoria, deixando circular a notícia de que poderia se aposentar depois de conquistar mais um título. Por essa longa divagação, a quebra do motor de Massa na Hungria teria sido armada pela própria Ferrari. Sabotariam o brasileiro, favoreceriam Kimi para que este fosse campeão, deixasse a Fórmula 1 e abrisse espaço para Alonso e para os euros do Santander.

Elucubrações desse tipo – que até fazem sentido, como alguns enredos de novela – costumam esquecer detalhes. Um deles: Massa correu em Budapeste com um motor “velho”, ao contrário de Kimi. E não o fez porque a Ferrari gosta mais dos belos olhos azuis do nórdico, mas respeitando a questionável regra da Fórmula 1 que obriga a utilização do mesmo motor por duas corridas. Outro aspecto que parece ter passado despercebido por parte da audiência: em 2008, a Ferrari tem cometido erros de estratégia e tropeçando em procedimentos primários com os dois pilotos. Para quem não se lembra: a corrida de Kimi em Mônaco foi comprometida por um drive through logo no início da prova, motivado por um erro da Ferrari, que não “calçou” o carro do finlandês no tempo exigido pelo regulamento, ainda no grid. Kimi, ao que parece, não saiu dizendo que era “um finlandezinho lutando contra esse mundo todo”.

Massa, aliás, também não saiu. Massa, por sinal, parece estar criando calos em 2008. Começou o ano cometendo erros nas duas primeiras provas, foi recuperando a segurança e os bons resultados, oscilou para novo desempenho ruim na Inglaterra. A despeito da montanha russa em que parece viver na atual temporada, nunca deixou de ser rápido nas classificações, ousado (às vezes além da medida) nas provas e não caiu na armadilha de se auto-proclamar um injustiçado dos céus.

Massa é um piloto experiente, presente na Fórmula 1 desde 2002. Já não pode alegar desconhecimento de nada na categoria. Nem dentro da pista, nem fora dela, nos becos às vezes sinistros das relações humanas. É um jovem de 26 anos, não é mais um menino, mas também não tem os cabelos brancos, ou os poucos cabelos, que daqui algum tempo vão denunciar-lhe as marcas da vida. Está ganhando-as agora, e está reagindo com serenidade.

Massa durante os treinos de sexta feira, na Hungria
Não sucumbiu ao complexo de vira lata que costuma perseguir alguns esportistas brasileiros, quando batidos no cenário internacional. Rápido e equilibrado, Massa começa a ganhar consistência. Não tem, é certo, o mesmo status de Kimi, Alonso e Hamilton junto à imprensa internacional. Não tem tido, até agora, a tal “sorte de campeão” a que muitos se referem. Se ela vai lhe sorrir, como finalmente sorriu um dia para o inglês Nigel Mansell, com quem muitos o comparam, só o tempo dirá. De qualquer forma, é reconfortante ver Massa portando-se como um piloto combativo, que eventualmente paga por seus excessos, e não como um cão sem dono, ou como um cão de guarda.

(O título desta coluna é uma referência/homenagem ao excelente livro “Eu não sou cachorro, não”, do pesquisador Paulo César de Araújo, profunda análise da música brasileira dita “cafona” dos anos 1970, leitura altamente recomendável para quem se interessa pelo tema.)

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