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| » » » 22.06.08 |
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| Pelo amor e pela dor |
22.06.08 |
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Sempre que começo a escrever uma coluna para o GPTotal, tenho de lembrar que isto não é um relato frio da corrida que acabo de assistir. Que não se trata de uma notícia de jornal, daquelas cuja missão prescreve em poucas horas, tornando-se logo depois mero papel para embrulhar peixe. Não, o GPTotal é, sem trocadilhos, um sítio histórico, um site desde seu nascedouro voltado para a história. E como seu veículo, a internet, presta-se a ser este arquivo virtual para muitos anos, não posso jamais perder a dimensão de que isso não é só notícia, mas, principalmente, história.
Por isso, caro leitor, se você está lendo esta coluna no dia 22 de junho de 2008 – ou no dia seguinte, vá lá – sabe que acabamos de assistir a uma vitória de Felipe Massa, a primeira de um brasileiro na pista francesa de Magny Cours, e que o resultado deu a liderança do atual campeonato a ele, coisa que não acontecia desde 1993, quando Ayrton Senna liderou um campeonato pela última vez. Mas permita-me, por favor, falar àquele outro jovem ali, que chegou até nós por meio de algum sistema de busca na internet, que está vivendo, neste exato instante, o ano da graça de 2038. Você aí, você mesmo, que gosta de corrida de carros e que se interessa pela história do esporte e que quer saber o que há de tão importante neste GP da França de 2008, de trinta anos atrás.
Você aí, de 2038, nasceu por volta de 2023, já bem distante de todo esse presente que me envolve. Seu pai tinha 30 anos quando você nasceu e talvez não tenha tido oportunidade de lhe contar que ele mesmo, nascido em 1993, só pôde ver um brasileiro liderando o campeonato de Fórmula 1 quando já tinha a sua idade, ou seja, 15 anos. Pois foi justamente nessa corrida, de trinta anos atrás, que seu velho saiu da fila, assistindo a Felipe Massa virar líder do campeonato. Aconteceu na oitava corrida da temporada, depois de um início de ano complicado para o brasileiro.
Felipe Massa começou muito mal a temporada de 2008. Zerou nas duas primeiras provas, depois de dois erros quase indesculpáveis. Enquanto isso, o companheiro de equipe, Kimi Raikkonen, que também errara na prova de abertura, começava a se firmar. Os dois erros de Massa tiveram o valor de uma sentença inapelável, esboçada pelo ex-companheiro Michael Schumacher e gritada em coro pela imprensa mundial, especialmente a italiana. “Massa não pode errar mais”. Schumacher usou uma figura conhecida das mesas de carteado para definir o desempenho do brasileiro até então: ele usou seus dois coringas. Resumindo: para o brasileiro só restava a alternativa de pensar exclusivamente no campeonato, somando pontos e buscando o erro-zero.
Depois da Malásia, a segunda prova, a atitude de Massa se transformou, mantendo-se consistentemente na zona de pontuação nas seis corridas seguintes. Venceu três delas (Bahrein, Turquia e essa da França), subiu ao pódio em outras duas (segundo na Espanha e terceiro em Mônaco) e, no Canadá, a única prova em que esteve fora do grupo dos três primeiros, por um erro da Ferrari em seu pit stop, ainda assim conseguiu somar quatro pontos. Massa assimilou os dois revezes do início e transformou a situação a seu favor. Recolheu a pressão da imprensa, da equipe e dele mesmo, suponho, transmutando a desconfiança em estímulo. Fortaleceu-se psicologicamente mantendo o foco no campeonato.
Não se viu, desde a Malásia, o Felipe Massa afobado das duas primeiras provas nem dos anos de 2006 e 2007. Afobação que lhe valeu, com certa justificativa, a comparação recorrente a Nigel Mansell, outro pé pesado, mas bastante estabanado. Massa manteve a velocidade que sempre encantou a platéia, mas parece ter deixado a ansiedade no passado. Massa aprendeu, pela dor de pontos preciosos perdidos, que vence mais não necessariamente aquele que anda mais rápido, mas o que anda menos lento e comete menos erros. A lição, até óbvia, não é minha, quem me dera, mas do pentacampeão Juan Manuel Fangio.
Então, o leitor – do presente ou do futuro – poderá contestar que a vitória de Massa deu-se, sobretudo, pela má sorte de Kimi, colhido por uma improvável perda de escapamento enquanto liderava soberano o GP da França. E eu vos direi, presente e futuro, que a zica de Raikkonen não cairia à toa no colo de Massa. Estivesse o brasileiro correndo como se precisasse livrar o pai da forca, em misto de pressa e desatino, e a vitória poderia parar em volante alheio. A sorte sorri para quem se acerca dela, e afastar-se do erro é medida recomendável para quem precisa chegar à frente.
Que o diga o inglês Lewis Hamilton, rapidíssimo e hábil prodígio, que chegou à França na vice-liderança do campeonato e saiu em quarto lugar. O vexame de Hamilton começou quinze dias antes, quando bateu em Kimi na saída do box de Montreal, sem enxergar o sinal vermelho que os prendia ao pit Lane. Punido em dez posições no grid seguinte, Hamilton largou em décimo-terceiro e tentou reverter a desvantagem nas primeiras voltas.
Na ânsia de ultrapassar Sebastian Vettel logo na largada, cortou caminho pela chicane. Enquanto tentava, sem sucesso, ultrapassar o brasileiro Nelson Piquet, recebeu a notícia de mais uma punição. A manobra atrapalhada para cima de Vettel rendeu-lhe um drive through. Hamilton jogou sua corrida no lixo por pura impetuosidade. Tivesse corrido com a cabeça, devolveria a posição a Vettel e continuaria sua até então bem sucedida busca por posições.
Deve estar doendo na consciência de Hamilton a certeza de um desempenho razoável da McLaren, embora os carros prateados de Ron Dennis não fossem assim nenhuma Ferrari nesta Magny Cours de tempo incerto. Mas também não estavam de se jogar fora, ou Heikki Kovalainen não terminaria a prova em um satisfatório quarto lugar, brigando de igual para igual com a Toyota de Jarno Trulli.
Hamilton, o adorado piloto de Ron Dennis, o queridinho da mídia inglesa, o amado da torcida britânica ainda não foi capaz de aprender pelo amor. Talvez seja cedo para cobrar-lhe o amadurecimento que Massa, na F1 desde 2002, afinal já deveria mesmo demonstrar. Hamilton talvez precise aprender mais pela dor de outros pontos preciosos perdidos. E, para quem já perdeu um campeonato praticamente ganho, perder a vice-liderança antes da metade da temporada pode não ser tão trágico assim.
O GP da França de 2008 entra para a história do automobilismo brasileiro, também, por registrar os primeiros pontos marcados pelo jovem Nelson Ângelo Piquet, outro que corria em Magny Cours com a espada a pender-lhe sobre a cabeça. O pessimista diria que Piquet estava intensamente pressionado, pelos maus resultados até agora e por correr “em casa”, precisando mostrar ainda mais serviço no lar da Renault. O otimista – e talvez Piquet seja um deles – diria que era a oportunidade de ouro para reverter o quadro.
E o fez: no início da prova, suportou a pressão do afoito Hamilton sem cometer nenhum erro. Manteve-se sempre em torno da zona de pontuação e, para surpresa geral, conseguiu uma ultrapassagem sobre o companheiro Fernando Alonso na volta final da corrida, chegando em sétimo lugar. O caminho é longo para os que buscam a felicidade, e Piquet está apenas em sua oitava prova de F1, a bordo de um carro pouco competitivo.
No entanto, deu provas de seguir na trilha da maturidade. Nas últimas semanas, foi apoiado em público pela equipe e pelo próprio Alonso. Chamou para si a responsabilidade de começar a andar bem nas pistas européias, nas quais tem mais experiência. Fez treinos consistentes durante todo o final de semana francês, chegando a marcar o melhor tempo no terceiro treino livre. Graças às punições a Hamilton e Kovalainen, obteve sua melhor colocação em um grid, largando em nono lugar. Piquet aproveitou a confiança da equipe e de si mesmo e superou o quadro imediato de pressão em que se encontrava. Tomara aprenda pelo amor, e não pela dor, como se tornar um piloto vencedor na Fórmula 1.
E você, garoto de 2038, perdoe esta velha escriba por traçar tantas conjecturas sobre o que você já sabe. Afinal, você já sabe se Massa foi ou não o campeão de 2008, se Hamilton soube amadurecer ou se tornou outro aspirante a ídolo deixado no caminho, se Piquet firmou-se como um piloto vencedor. Mas talvez você não soubesse que foi neste dia, trinta anos atrás, que o Brasil voltou a liderar um campeonato de Fórmula 1 depois de quinze anos. Para mim e para o seu pai, pode ter certeza, essa vitória significou muito.
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