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| » » » 06.06.08 |
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O mais famoso gângster de todos os tempos não foi preso por controlar negócios ilícitos, como a venda de bebidas alcoólicas durante a Lei Seca norte-americana, o funcionamento de cassinos ilegais ou por explorar a prostituição. Al Capone foi condenado por sonegação de impostos. Diante de uma extensa folha corrida, com crimes tão mais visíveis do que burlar o fisco, chega a parecer que Al Capone foi preso pelo motivo errado.
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| Mosley: absolvido, pelo motivo errado |
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Foi mais ou menos isso que quase aconteceu nesta semana com o “julgamento” de Max Mosley pela Assembléia Geral Extraordinária da Federação Internacional de Automobilismo. Se Mosley não tivesse vencido por uma maioria musculosa, apoiado pela gratidão dos presidentes de federações de todo o mundo e pela conveniência do voto secreto, seria adequado falar, nesta altura, que Mosley fora apeado do poder pelo motivo errado.
Afinal, Mosley teria caído em decorrência da divulgação de sua farrinha com cinco prostitutas, estampada nas páginas do tablóide sensacionalista inglês “News of the World”. Motivos para mandar Mosley para bem longe do automobilismo não faltariam a quem se dispusesse a ler a história recente da modalidade, em vez de perder tempo com mexericos de um jornal de quinta.
Motivos como a falta de competitividade da Fórmula 1, acentuada a cada nova invencionice promovida pela FIA no regulamento. Ou a escalada crescente dos custos da categoria, tornando-a proibitiva a equipes que não tivessem o lastro de alguma grande corporação do mundo capitalista globalizado. Entre muitos etcéteras, entraria como atenuante no julgamento a busca bem sucedida por maior segurança nas pistas. E Mosley terminaria condenado à proscrição do automobilismo, talvez pelos motivos certos, enchendo de alegria várias equipes da Fórmula 1 e muitos clubes representativos de vários países.
A oposição declarada das montadoras à gestão Mosley parece incoerente. Pois não foi em sua gestão que elas ganharam maior espaço na Fórmula 1? Por que estariam virando as costas a seu padrinho nesta altura? O sentido a essas indagações parece atender pelo nome de Bernie Ecclestone. Houve um tempo em que Bernie, já senhor e dono da Fórmula 1, começou a se estranhar com a Fisa, o braço esportivo da FIA, controlado por Jean Marie Balestre. Depois de muita briga, Bernie resolveu o problema colocando Mosley no lugar do velho francês.
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| Ecclestone, o marido poderoso |
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Até as curvas desativadas de Interlagos sabiam que Mosley era homem de Bernie e assim tudo funcionou como um casamento bem azeitado pelo menos nos primeiros quinze anos. Mas Mosley, feito madame cujo status sobe à cabeça, parece ter se sentido auto-suficiente. Com autonomia para agradar dirigentes do mundo inteiro, deve ter percebido que o poder, no varejo, compensava mais que as negociações no atacado. Valeu-se do prestígio junto aos inúmeros pequenos clubes e federações que lhe devem gratidão e fechou a cara para o marido rico e suas relações valiosas com as montadoras, talvez por não receber sua parte nesse negócio que já foi um casamento. Hoje, Mosley mantém-se como pedra no sapato de Bernie e dos interesses das montadoras, e não parece preocupado com isso. Agarrou-se aos pequenos e deles vai sorvendo sua ração de sobrevivência.
Pelo menos até novembro, Mosley deve continuar à frente da FIA. Tempo suficiente para ele impor novas mudanças no regulamento da Fórmula 1 para o ano que vem, como as que limitam a liberdade na aerodinâmica dos carros e a obrigatoriedade de utilização de um sistema de reaproveitamento de energia no processo de frenagem. As equipes, agora controladas em sua maioria por grandes empresas, sentem-se tolhidas e preferem viver no mundo livre do capitalismo selvagem, fazendo o que quiser e gastando mais quem mais puder. Vozes rebeldes começam a ser ouvidas aqui e ali. O divórcio entre a Fórmula 1 a e FIA, como nos tempos finais de Balestre, volta a ser plausível.
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| Piquet, depois da nova decepção, desta vez em Mônaco |
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Existe algo de muito perverso na carreira de Nelson Ângelo Piquet – a síndrome da comparação.
Medi-lo contra Piquet, o pai, é ação injusta em sua essência. Piquet, o pai, é tricampeão de Fórmula 1. Não importa que, depois de seis corridas disputadas, em sua estréia, trinta anos atrás, ele tivesse um desempenho tão discreto quanto o do filho.
Para os registros: o pai estreou no GP da Alemanha de 1978, a bordo de um Ensign, largando em 21º e abandonando com problema no motor. Nas duas corridas seguintes, Áustria e Holanda, já de McLaren, dois abandonos, o primeiro, por acidente, o segundo, com problema na transmissão. Só em sua quarta corrida Piquet conseguiu terminar uma prova, em nono, fora da zona de pontuação. No Canadá, primeira corrida pela Brabham, terminou em 11º. A sexta corrida, abertura do campeonato de 1979, não reservou melhor sorte ao futuro tricampeão, abandonando depois de um acidente coletivo na primeira volta. Resumindo: quatro abandonos, um nono lugar e um décimo-primeiro, nenhum ponto.
Na comparação, observando-se as seis primeiras corridas, o filho começou largando em 20º na Austrália, abandonando depois que um acidente com Giancarlo Fisichella danificou irremediavelmente seu carro. Depois, largou em 13º na Malásia, terminando em 11º. Conseguiu o 14º tempo no Bahrein, abandonando, desta vez com problema na transmissão. Seu melhor lugar no grid até agora foi a décima posição na Espanha, quando o companheiro Alonso largou em segundo. Na corrida, um erro fez com ele que caísse para 18º lugar, culminando com novo acidente, desta vez com Sebastian Bourdais, e novo abandono. Corrida discreta na Turquia, largando em 17º e terminando em 15º. Em Mônaco, mais um abandono, depois do erro estratégico da Renault em colocar pneus de pista seca enquanto ainda havia muita água no percurso. Resumindo: quatro abandonos, um 11º e um 15º, nenhum ponto.
No final de 1978, depois de disputar cinco corridas, Piquet, aos 26 anos, tornava-se titular da Brabham com o status de jovem talento, promessa de futuro campeão. Bem antes da metade da temporada, o jovem Piquet, de 22 anos (faz 23 em julho), já é instado em público a mostrar serviço, vendo a espada pender-lhe sobre a cabeça. Por que a Fórmula 1 teria tratado de formas tão diferentes esses valentes do mesmo sangue?
Uma explicação óbvia é a de que a Fórmula 1 mudou muito nesses 30 anos. Bernie Ecclestone, que era patrão de Piquet há época, tomou as rédeas da categoria e transformou-a em um espetáculo globalizado, profissional e altamente rentável, sem lugar para amadores. Estar na Fórmula 1 é fazer parte da elite mundial do automobilismo. Há que merecer tal glória. O jovem Piquet seria vítima desse rigor.
Mas como explicar a complacência da categoria com personagens como Felipe Massa ou Nick Heidfeld, que têm se mantido em equipes competitivas nos últimos anos apesar de um início marcado por desempenhos instáveis? Isso antes de mencionar pilotos como Jarno Trulli ou Jenson Button, ex-futuras promessas que nunca vingaram para além de uma vitória no currículo, mas que continuam conseguindo um cockpit ao sol.
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| Fernando Alonso, outra comparação dura para Piquet |
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A decepção com o jovem Piquet está dimensionada pela expectativa em torno de sua estréia. Piquet, o filho, chegou à Fórmula 1 pelas credenciais do pai, não há como negar. Venceu o que pôde, nas categorias de acesso, por contar sempre com a melhor e$trutura, paitrocino assumido. Teve braço para fazer sua parte e desembarcar, inconteste, como titular de uma equipe que, há três anos, venceu dois campeonatos seguidos. Não estreou humilde em uma equipe de fundo de quintal. Chegou top. A performance? Top-top.
Não bastasse ser medido, a todo o tempo, contra os feitos do pai tricampeão, o jovem Piquet já arrasta um histórico de comparativos com pilotos no mínimo marcantes na Fórmula 1. Em seu tempo de GP2, o concorrente direto era o inglês Lewis Hamilton, que acabou vencendo o título e emendando um ano de estréia fabuloso na Fórmula 1, tornando-se o novato mais arrasador de todos os tempos, ainda que terminasse com o vice-campeonato a custa de dois erros primários. Hamilton chegou top, em uma equipe muito melhor que a de Piquet hoje, não se contesta. Perdeu o campeonato por um ponto, mas fez história.
Na Renault, Piquet tem como comparação direta o bicampeão Alonso, o mais jovem campeão da história da Fórmula 1, de quem tem levado sovas incontestáveis. Difícil imaginar que o espanhol tenha carros melhores que os de Piquet, como sempre podem especular os ufanistas habituais. Difícil porque, ao que parece, a opção por Piquet foi muito sólida na equipe comandada por Flavio Briatore. Desde meados de 2007, era certo que Piquet estaria entre os pilotos titulares na atual temporada, sinalizando que a presença dele na equipe seria de grande importância para os interesses da Renault. Passa de perversa a idéia de que a equipe reservaria um de seus carros ao brasileiro para expô-lo ao escárnio público. O sadismo, pelo que consta, é predileção do presidente da FIA, não dos dirigentes da Renault.
Mas então é caso de se perguntar: a perversidade que ronda Piquet não seria uma escolha dele mesmo? Filhos que seguem a profissão dos pais multiplicam-se em todas as áreas. Nem todo cirurgião júnior é tão bom quanto o cirurgião sênior, o pai juiz nem sempre pode garantir um filho desembargador, ainda que as gerações jovens possam superar as anteriores. Valentino Rossi, por exemplo, é filho de um ex-piloto de moto, Graziano Rossi, absolutamente inferior ao filho em seus resultados. Mas, quando além da tradição na profissão o jovem ainda deve medir-se contra a celebridade mundial alcançada por seu pai, há de saber do risco inerente. A Nelson Ângelo não bastaria ser razoável, como o próprio pai foi em seu início. A expectativa vinha carregada de três títulos mundiais. Pode ser covardia, mas é história. Ter pena da comparação a que se submete Nelson Ângelo é como lastimar pela sorte dos big brothers. Ninguém obrigou nenhum deles a estar lá.
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