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Questão de estrela 25.05.08
Hamilton
A Fórmula 1 pode ser definida como um esporte em que vence aquele que erra menos. O GP de Mônaco de 2008 mostrou uma outra face desta lógica – o vencedor pode até errar, mas no momento certo, quando ainda é possível consertar. A vitória de Lewis Hamilton emprestou um requinte ainda maior a tal definição: é possível que seu erro, no início da prova, tenha facilitado sua vitória.

Na sexta volta, quando vinha em segundo, tentando alcançar um suposto inalcançável Felipe Massa, Hamilton errou no piso molhado. Ralou no guard rail e acabou perdendo o pneu traseiro direito. Primeiro lance de sorte – estava perto dos boxes. Entrou, repôs o pneu e encheu o tanque, subvertendo a estratégia que a McLaren havia traçado anteriormente. Segundo sinal de sua boa estrela – pouco depois da volta à pista, um acidente entre David “sempre ele” Coulthard e Sébastien Bourdais obrigou à primeira entrada do safety car. A desvantagem de Hamilton para os ponteiros desmanchou-se no ar como o spray da pista molhada.

Do limão, Hamilton e a McLaren fizeram uma energética limonada. Com combustível suficiente para ficar muito mais voltas que os demais na pista, o inglês foi se beneficiando das paradas dos líderes. Enquanto Felipe Massa e Robert Kubica entravam para trocar pneus e abastecer, Hamilton seguia impávido pelas ruas de Monte Carlo. Assumiu a liderança na 33ª volta para não perdê-la mais, nem mesmo na 54ª, quando fez seu segundo e último pit stop. Seguiu soberano até que o GP de Mônaco de 2008 morresse de velho, duas horas e 76 voltas depois de apagadas as luzes vermelhas, vencido pelo relógio, sem tempo para cumprir as 78 previstas.

Se a lógica da Fórmula 1 fosse apenas não errar, o vencedor moral da corrida deste domingo seria o polonês Robert Kubica, o segundo colocado. Quarto lugar no grid, Kubica foi galgando posições a bordo de uma condução espantosamente segura mesmo nas caóticas condições do circuito. Atento e rápido, soube se aproveitar do erro de Felipe Massa quando o brasileiro rodou, na 15ª passagem. Assumiu a liderança e por lá permaneceu durante dez voltas, quando foi obrigado, pela estratégia da BMW, a fazer sua primeira parada nos boxes. Voltou em terceiro, atrás de Hamilton e de Massa e por lá deveria permanecer, pela lógica, não fosse um problemático segundo pit stop do brasileiro, que acabou entregando a segunda colocação para o polonês.

Kubica
Kubica fez tudo certo, terminou em segundo. Hamilton, um erro no início da prova, ganhou. Mas esta, nem de longe, foi a maior injustiça da corrida. Voltemos a ela depois.

Massa, depois de uma pole memorável e de um início de prova consistente na liderança, deve reputar a derrota aos erros da Ferrari. Após a corrida, o brasileiro assumiu ter discutido asperamente com a equipe pelo rádio, contestando a necessidade do segundo pit. Olhando de fora, e tendo o final de semana em retrospectiva, é possível concluir que o bate-boca com Massa talvez tenha sido o menor dos problemas ferraristas em Monte Carlo.

A McLaren de Hamilton mostrou-se seguidamente melhor que os carros vermelhos nos treinos livres, lembrando a sova que o time inglês impôs aos adversários no ano passado. A dobradinha italiana no treino classificatório, ao que parece, mascarou sua inferioridade. Deviam, mesmo, estar mais leves, o que acabou não fazendo diferença em uma corrida com pista molhada e duas entradas de safety car. Durante a corrida, as evidências apareceram – a Ferrari ainda não tem o acerto ideal para pistas travadas como Mônaco. Más notícias: a próxima prova, no Canadá, não desanuvia o céu ferrarista. Lá, em 2007, a McLaren foi muito bem. E Hamilton, agora, é líder do campeonato.

Com o pomodoro totalmente azedado, a Ferrari pisou no tomate indistintamente. Cometeu o erro vexatório de não colocar os pneus do carro de Kimi Raikkonen, ainda no grid, no tempo limite exigido pelo regulamento. Impingiu ao finlandês, com isso, um drive through no início da corrida. O final de semana, que tinha começado torto para o atual campeão, terminou em ópera bufa quando, na 67ª volta, Kimi perdeu o controle do carro e estampou a traseira da improvável Force India de Adrian Sutil, que vinha em um surpreendente quarto lugar. Respingado pelo molho quente da Ferrari, o alemãozinho caiu no choro, protagonizando a maior injustiça de toda a prova.

O campeonato, que havia começado sob o signo de Hamilton, com uma vitória em outra corrida caótica, retoma outra lógica, esta cunhada pelo nosso Eduardo Correa em colunas anteriores, aqui mesmo no GPTotal. A prova é difícil e confusa? Chame Hamilton que ele resolve. Somada aos desempenhos na Austrália neste ano e no arqui-caótico GP do Japão de 2007, a performance de Hamilton neste GP de Mônaco encerra inúmeros significados.

Foi sua primeira vitória em Mônaco pela Fórmula 1, mas a terceira na carreira, tendo triunfos anteriores tanto na Fórmula 3 quanto na GP2. Além de marcar a primeira conquista pela Fórmula 1 no principado, a vitória deu a Hamilton a liderança no campeonato. A competição segue embolada, o retorno às pistas rápidas deve recolocar a Ferrari na condição de favorita, mas o momento psicológico favorável é de Hamilton. Por último, mas não menos importante, um nome – Ayrton Senna.

Depois do triunfo, Hamilton disse ter pensado muito no tricampeão brasileiro durante as voltas finais. Nos últimos dias, muito se falou sobre o GP de Mônaco de 1993, última vitória de Senna em Mônaco. Muito se falou do que Senna fez naquela corrida, mas é curioso imaginar o que teria feito Hamilton, o vencedor de hoje, naquele mesmo dia. Arrisco a resposta: estava grudado na TV, assistindo à vitória de Senna. Os pilotos vencedores da atualidade, em grande medida, inspiraram-se durante a infância na carreira de Ayrton Senna. Igualar-lhe os feitos deve ser significativo e motivador. Hamilton, hoje, recebeu esta injeção de confiança, a ponto de dizer que este era o ponto mais alto de sua carreira. Como amante das corridas, confesso certa preocupação com a frase de Hamilton. Que este seja o auge de sua carreira, mas só até agora. Vencer em Mônaco é grandioso, mas não é tudo. Hamilton certamente quer mais. E quem tem uma estrela dessa, pode mesmo querer...





E para os outros brasileiros, nada? Vivas a Rubens Barrichello, honroso sexto lugar, prêmio a um sobrevivente. Manter-se na pista, na Monte Carlo encharcada, é atestado de competência. O jovem Nelson Piquet, desta vez, foi vítima dos erros da Renault. Só não me arrisco a dizer se a estratégia ruim da equipe foi seu algoz ou seu salvo conduto.

Danica - Indy500




Nas 500 Milhas de Indianápolis, uma cena e tanto. Na saída do pit, Ryan Briscoe acerta Danica Patrick e tira a musa de todos vocês da prova. A moça é empurrada de volta, solta o cinto e parte célere em direção ao causador do incidente. Um segurança da categoria, talhe gigantesco, segue Danica, com seu físico de jóquei. Por um instante, achei que não era Danica, mas Mônica, a baixinha invocada das histórias em quadrinhos. Ryan Cebolinha Briscoe se deu bem. O segurança interceptou a fúria de Danica e a mandou de volta para seu pit, salvando o rival de terríveis coelhadas.





Na minha opinião, a cena mais tocante do esporte a motor, nos últimos dias, aconteceu na etapa de Le Mans da MotoGP, no domingo passado. O “velho” Valentino Rossi perpetrou uma daquelas suas performances desconcertantes, para deixar sem fala aqueles que o julgam decadente depois de sete títulos consecutivos no Mundial. Largou em quarto, veio superando um a um os adversários e assumiu a ponta, abrindo vantagem até com certa facilidade. Tocante não foi o que Valentino fez até a bandeira quadriculada, mas o espetáculo que protagonizou depois dela.

Como é de hábito, parou sua Yamaha para fazer alguma graça diante da torcida e das câmeras. A graça, desta vez, atendia pelo nome de Angel Nieto, o espanhol treze vezes campeão no Mundial de Motovelocidade, atuando entre os anos 1960 e 1980. Nieto, de 61 anos, usava o macacão preto e o capacete branco de seus tempos de piloto. Em vez de levar o veterano na garupa, Rossi cedeu-lhe o guidão e foi para a posição de passageiro, empunhando uma bandeira onde se lia apenas a inscrição “90-90”. Com sua vitória em Le Mans, Rossi alcançou o feito de Nieto, que também venceu 90 vezes no Mundial.

Rossi Nieto
A marca de Rossi ainda o deixa longe do recorde majestoso de seu compatriota Giacomo Agostini, com 122 vitórias no Mundial de Moto. De qualquer maneira, Rossi deve manter-se, soberano, como o segundo maior vencedor da história por muito tempo. Aos 29 anos, já é apontado por alguns críticos como um piloto em declínio. Bobagens do mundo que cultua o efêmero. Mas, ainda que não faça mais nada no Mundial de Moto e que encare o desafio de correr no Mundial de Rali, como se especula ultimamente, The Doctor estará para sempre na memória de quem o viu correr. Pela maestria na condução das duas rodas, pelo bom humor, pelo carisma e por manifestações simpáticas e de respeito ao passado, como fez com Nieto.
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