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Homens de Gelo 28.04.08
Kovalainen
Na 22ª volta do GP da Espanha de 2008, o finlandês Heikki Kovalainen não conseguiu fazer a curva Campsa, passou direto pela caixa de brita e mergulhou seu McLaren na proteção de pneus. Estima-se que a batida tenha acontecido a 220 km/h. O piloto chegou a ficar inconsciente nos minutos que permaneceu dentro do carro, até ser retirado de maca, com o pescoço imobilizado. Kovalainen foi transferido para o centro médico do circuito de Barcelona e, de lá, seguiu de helicóptero para um hospital da cidade catalã.

Isso tudo aconteceu antes da metade da prova. Quando, 44 voltas depois, o compatriota de Kovalainen, Kimi Raikkonen, cruzou a linha de chegada em primeiro,
Raikkonen
houve quem dissesse que o GP da Espanha foi uma corrida monótona, previsível, sem emoção.

Ainda que Sra. Kovalainen, mãe de Heikki, em algum lugar de Helsinque, tenha vivido os piores momentos de sua vida, preferindo nunca ter experimentado essa tremenda emoção, como contestar os analistas que classificaram a corrida de Barcelona como uma prova chata?

Talvez lembrando a eles que o GP da Espanha deste ano teve duas entradas de safety car, nove abandonos, três acidentes, sendo um logo na largada, entre Sutil e Vettel, motivador da primeira bandeira amarela, outro envolvendo Piquet e Bourdais, dois entreveros meio risíveis, um entre Coulthard e Glock, outro entre Barrichello e Fisichella e até – veja só! – uma ultrapassagem, de Heidfeld sobre Fisichella. Considerando que, naturalmente, não seria necessário lembrar do impressionante acidente de Kovalainen.

Pode ser até que os críticos concordassem que, vá lá, tivemos alguma movimentação na prova de Barcelona. Mas é também muito provável que eles balançassem a cabeça amigavelmente, depositassem uma das mãos sobre meus ombros e dissessem: “Tudo verdade mas, lá na frente, a corrida foi de uma chatice de dar sono.”

Hamilton
Lá na frente, a única esperança de alguma emoção era a natimorta disputa pelo terceiro lugar, entre Alonso e Hamilton. O espanhol, que surpreendentemente classificou seu Renault em segundo lugar no grid, poderia ter protagonizado uma boa briga com o antigo companheiro e desafeto da McLaren, o que, de fato, nunca chegou a acontecer. Alonso, com pouco combustível no tanque, foi o primeiro a fazer um pit stop e logo se distanciou dos líderes. Com pouco mais de metade da prova, viu o motor do carro explodir bem diante da torcida. Que se registre, para a história: no GP da Espanha de 2008, Alonso correu mais que o carro.

Assim, Hamilton garantiu fácil o terceiro lugar na corrida, voltando ao pódio depois de duas provas. Hamilton, a sensação de 2007, o inglês que tem duelado com o próprio carro na atual temporada, o jovem que cometeu erros capitais em três das últimas seis provas de Fórmula 1. Hamilton, o vice-líder do campeonato.

Com sua McLaren cheirando a incógnita, Hamilton nunca foi ameaçado pelo quarto colocado, Robert Kubica, o polonês que, mais uma vez, não teve uma boa largada. Kubica, o pole na corrida do Bahrein, o terceiro colocado daquela prova, o segundo da Malásia, o piloto que era apontado, três semanas atrás, como um potencial incômodo aos planos do bicampeonato de Raikkonen. Hamilton e Kubica, jovens pilotos de enorme potencial, têm ambos um belo futuro pela frente. Nenhum dos dois, no entanto, tem uma Ferrari hoje nas mãos.

Lá na frente, bem na frente, não houve corrida no domingo. As duas Ferrari dominaram a prova da largada à bandeirada. Kimi, na pole, marchou sereno para uma liderança de ponta a ponta que só não o é, de fato, por conta da necessidade de reabastecimentos. Sereno como o homem de gelo que parece ser. Massa fez uma ótima largada, roubando o segundo lugar de Alonso nos primeiros metros da prova e ali ficando até o final. Na entrevista coletiva, após a corrida, uma frase do brasileiro parece dar a senha da vitória de Raikkonen. “A corrida de hoje foi definida ontem, no treino de classificação.”

Uma frase banal, cuja interpretação direta só poderia ser: quem largasse na pole dificilmente perderia a prova, pela habitual dificuldade de se ultrapassar em Barcelona. Raikkonen conseguiu a pole, venceu a corrida. Ou...

Massa
A colocação de Massa pode ter embutida uma estratégia de equipe. Desde o início da atual temporada, a direção da Ferrari tem repetido que não dá tratamento privilegiado a nenhum de seus dois pilotos, o mesmo discurso de 2007. No entanto, a história mostra que a Ferrari não tolera lutas fratricidas em seus domínios. Com o campeonato ainda em seu início, é possível acreditar que a equipe italiana esteja mesmo oferecendo as mesmas condições a Raikkonen e Massa.

Mas é também lógico concluir que exista uma regra a disciplinar essa disputa interna: quem larga na frente beneficia-se da estratégia de ficar mais tempo na pista antes do pit stop, aumentando a diferença para o segundo colocado. Quando disse que a corrida foi decidida no sábado, é bem provável que Massa estivesse se referindo à dupla vantagem de Raikkonen – por largar na frente e por se locupletar da estratégia da equipe.

A dobradinha da Ferrari foi o resultado perfeito para o time e também para o finlandês. A equipe agora lidera o Mundial de Construtores, com doze pontos de vantagem sobre a BMW (lembrando que, ao sair do Bahrein, a equipe alemã ocupava a ponta da tabela). E Raikkonen, escoltado por Massa, viu neutralizados os dois pilotos dessa mesma BMW, que o seguiam na classificação.

Enquanto vai somando pontos e vitórias, Raikkonen está vendo a concorrência dividir as sobras. Massa, em quarto no campeonato, a onze pontos do companheiro, foi o escudeiro perfeito. Não estaria relegado a tal posto se não tivesse cometido dois erros fundamentais nas duas primeiras provas. Deve ser por isso que ele adotou o discurso da cautela e a própria cautela na pista. Decidiu arriscar menos, para errar menos e somar pontos. Resta saber se isso será suficiente para alcançar – e superar – o companheiro de equipe.





Quando os fiscais começaram a gesticular freneticamente, tentando puxar o McLaren de Kovailainen da barreira de pneus, o acidente pareceu ainda mais grave do que sugeriam as primeiras imagens. Quando a transmissão da TV deixou de mostrar o local do acidente, a sensação se acentuou. Quando a equipe médica fez estender uma lona azul por sobre o carro, impedindo o acesso às imagens, reforçou-se a certeza. Quando Kovalainen foi retirado de maca do carro destruído, um membro da equipe de resgate tocou seu peito e lhe disse alguma coisa. O piloto, imediatamente, fez um positivo com a mão. Fez um positivo para a câmera de TV que transmitia a cena. A cena foi rápida, mas transmitiu a idéia de calma. Como o compatriota Raikkonen, Kovalainen também deve ser um homem de gelo.

Nos minutos que separaram a batida de Kovalainen da única imagem de seu resgate, o mundo especulou o que teria acontecido. Lembramos de acidentes que nos pareceram semelhantes – Schumacher na Inglaterra, Burti na Bélgica, Senna em Ímola. Falamos sobre a força da desaceleração no cérebro do piloto, sobre o impacto nas pernas, sobre a utilidade do hans, aquele apoio para o pescoço. Ficamos esperando imagens, querendo imagens, ansiando por imagens. Há até quem reclame da falta delas, talvez até Sra. Kovalainen, lá em Helsinque, tenha se desesperado pela demora.

Heikki saiu, ao que parece, ileso da forte batida. Não deve ter problemas para correr na Turquia, afinal, a prova acontece só daqui duas semanas. Teria sido melhor ver o piloto eventualmente desacordado em seu cockpit? Teria tido alguma serventia ver seu corpo em processo de imobilização pela equipe de socorro? Teria nos feito algum bem presenciar o eventual desespero dos profissionais que o atenderam? E ainda: se ele tivesse se machucado com gravidade, teria nos sido de alguma utilidade vê-lo inerte sobre a maca, sem sinal de positivo para as câmeras, eventualmente manchado de sangue?

Louvo o padrão da Fórmula 1 em poupar-nos de aberrações. Louvo o respeito pela integridade física e moral do piloto, pelo respeito à sua família. Não assisto aos GPs de Fórmula 1, há quase vinte e cinco anos, para ver acidentes. Assisto para ver demonstrações de perícia ao volante, para me encantar com a alta tecnologia. O risco faz parte desse esporte, mas não é para morrer em uma barreira de pneus que nenhum piloto está lá. Também eu, do lado de cá, não me sento em frente à TV para ver sangue. Quero ligar a televisão para ver esporte, não para ver acidentes, feridos, desespero, choro, grades de proteção cortadas, bonecas atiradas pela janela. Nada disso me serve para nada. A Fórmula 1 nos poupa. Quisera o resto das instituições também nos poupasse da repetição exaustiva de fatos tão terríveis que não nos servem, a rigor, para nada.

Uma boa semana a todos

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