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| » » » 26.03.08 |
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Eu não acredito que a Ferrari esteja sobrando no Mundial de 2008, tendo como demonstração de força apenas o GP da Malásia. Uma semana antes, em Melbourne, vi o time italiano afundar na lama de motores estourados e de pilotos tresloucados, saindo da Austrália quase no zero. Empacotou as tralhas rumo a Sepang com o saldo de dois abandonos, algumas rodadas, um acidente, fora os motores de clientes, como Toro Rosso e Force India, de bico (s) aberto (s). Como sorte é para quem merece, Kimi Raikkonen ainda conseguiu catar a migalha do pontinho relativo ao oitavo lugar, graças à desclassificação de Barrichello. Mas não acredito que o amplo domínio na Malásia vá se repetir inapelavelmente em todas as outras pistas.
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| A McLaren, de Hamilton, sobrou na Austrália e faltou na Malásia. Não está morta, no entanto. |
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Eu não acredito que a McLaren tenha perdido o rumo, depois de dominar com Lewis Hamilton, sobrando, o GP da Austrália. Seu terceiro e seu quarto lugares no treino classificatório da Malásia transformaram-se, nas mãos dos dirigentes, em um oitavo e um nono no grid. Acabaram a prova malaia com um terceiro e com um quinto. É certo que não se tem notícia de que esse terceiro poderia ter se tornado segundo, pois Heikki Kovalainen jamais chegou perto de Robert Kubica. Mas também não se nega que o quinto lugar de Hamilton esteve perto de se tornar quarto, pois o inglês acossou o italiano Jarno Truli com persistência até o final. Tivessem largado em terceiro e quarto, suas posições originais no grid, teriam feito sombra à dupla ferrarista postada à frente? Como saber? De qualquer forma, estariam nas posições lógicas, demonstradas com regularidade nos testes de inverno, na pré-temporada. Não acredito que a McLaren esteja morta, ainda que o carro tenha evidenciado algum desequilíbrio na Malásia, com o desgaste pronunciado dos pneus dianteiros esquerdos.
Eu não acredito que a Renault possa oferecer a Fernando Alonso e Nelson Piquet um sonho mais colorido que o da perspectiva de pontos. E não acredito na lenga-lenga briatoriana de que, na fase européia, o carro vai evoluir, vai tirar a diferença para o pelotão da frente, vai voltar no tempo e ser o R-25 que levou o espanhol a seu primeiro título em 2005. E não quero acreditar, embora seja verdade, que um dirigente venha a público falar em “fase européia”, como se as provas da Ásia fossem uma espécie de Torneio Início, diversão amadora de outrora que não serve para nada. Como se, ao voltar para o Primeiro Mundo, só então a Fórmula 1 passasse a levar as corridas a sério. Como se o campeonato não fosse por pontos corridos, mas um torneio de verão no qual o oitavo colocado pode, por força da circunstância, ser guindado à condição de campeão em um mata-mata final. Papo furado de Briatore, para não jogar a toalha e admitir que este ano, mais uma vez, não é da Renault.
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| Flavio Briatore, esperando a 'fase européia': enquanto isso, os outros somam pontos |
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Eu não acredito que Fernando Alonso viva totalmente em paz com sua consciência. Vendo o espanhol pilotar, enchem-se os olhos de um entusiasmo juvenil. Como pilota! No entanto, tem seu brilho empanado pela mediocridade do carro. Ver Alonso no meio do pelotão, catando as sobras de uma corrida maluca, como foi Austrália, ou lutando bravamente para encaixar-se na zona de pontos, como na Malásia, entristece os que enxergam nele o grande piloto, talvez o melhor do grid atual. Em que desvão de sua memória ela deve guardar seu arrependimento? No momento em que decidiu dedurar sua própria equipe, no auge do escândalo da espionagem de 2007? No instante em que se sentou com Ron Dennis para assinar seu contrato e não exigiu garantias de tratamento exclusivo de primeiro piloto? No dia em que resolveu acertar-se com a McLaren, sem esperar a provável/possível/plausível aposentadoria de Schumacher, descortinando-se a ele uma vaga dos sonhos, na Ferrari? No já longínquo início deste século, quando rompeu com Jean Todt para se comprometer com Flavio Briatore? Eu não acredito que Alonso não sinta algum arrependimento, e que não pense que pode ter posto a carreira a perder, mas acredito que ele vai voltar a disputar títulos na Fórmula 1.
Eu não acredito que a BMW estivesse tão perdida na pré-temporada. Colecionamos frases desalentadas tanto de Nick Heidfeld quando de Kubica naquele período. Enquanto a Williams parecia a fênix dos testes de inverno, a fábrica alemã dava mostras de iniciar outro ano como pálida coadjuvante. Duas corridas, dois pódios, Heidfeld em segundo na Austrália, Kubica na mesma posição, na Malásia. O chefão Mario Theisen já não esconde que vislumbra uma vitória em 2008. O ex-dono do time, Peter Sauber, esteve presente como convidado na prova malaia. Sempre me pego surpresa, vendo a BMW subindo e imaginando que aquele time, ao fim e ao cabo, é a antiga Sauber, modesta Sauber. Eu acredito em Theiser e chego a torcer por uma vitória do time bávaro. Kubica tem se credenciado para levar a honra, mas quem lê o GPTotal há alguns anos sabe da minha simpatia por Heidfeld. Começou na antiga Fórmula 3000, quando me encantei com seu nome – Nick Heidfeld, nome de campeão! Acho que me enganei, mas ainda acredito.
Eu não acredito que o fim do controle de tração tenha trazido a emoção de volta à Fórmula 1. O que trouxe equilíbrio à primeira etapa não foi o equipamento banido, mas a entrada, por três vezes, do safety car na prova. Na Malásia, sem justificativas para juntar o bolo de pilotos atrás do carro madrinha, instalou-se novamente a modorrenta rotina. Torça por quem quiser, mas se você quiser mesmo ver outra corrida maluca, torça por chuva. Mas não faça isso na próxima prova. É no Bahrein.
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| A chance de Alonso, em 2008, é bem pequenininha. E seu arrependimento, que tamanho tem? |
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Eu não acredito que um piloto possa zerar nas duas corridas do ano e, ainda assim, ser campeão. Não que seja impossível. No site Grande Prêmio, um excelente levantamento mostrou que, por três vezes, isso aconteceu. A mais recente – Jochen Rindt, em 1970. As anteriores: Jack Brabham, em 1960, e Alberto Ascari, em 1952. Em 58 anos de história, três vezes. Não acredito que Felipe Massa protagonizará a quarta. Não acredito porque a disputa avizinha-se feroz entre Ferrari e McLaren, e porque um dos adversários de Massa, na hipotética luta pelo título, está em sua própria equipe, por enquanto ganhando dele pelo placar de 11 a 0. E se a disputa for realmente renhida, a Ferrari não vai entregar à concorrência dois farrapos de pilotos, arranhados mutuamente em seus próprios domínios.
Acredito que um piloto, qualquer piloto, possa cometer seus erros, ter seu mau dia. Qualquer um: Senna, Schumacher, Fangio. Acorda torto, o café da manhã lhe cai indigesto, sai fazendo um monte de bobagens. Depois toma um banho frio, ou um porre, ou enche de socos um saco de areia, pronto, passou. Não acredito que um grande piloto cometa bobagens em seqüência, duas corridas seguidas. Acertar com regularidade, como fazia de forma quase irritante o francês Alain Prost, pode até não ser a marca dos gênios. Errar regularmente, menos ainda.
Eu não acredito que tenhamos que viver neste eterno sebastianismo de encontrar um novo Senna. Chego a pensar que essa obsessão tem turvado a mente das gerações de pilotos brasileiros que se seguiram a ele. Vestem a pele do herói morto e, diante do fracasso, apontam dedos débeis para causas ocultas. O carro falha, a equipe erra, o mundo me sacaneia, eu sou imune, sou o novo Senna. Felipe Massa, após a rodada, acusou uma sensação estranha. Repetem-se as imagens, a falha parece evidente – o carro saiu de traseira, a velocidade era demasiada, não conseguiu corrigir. Diante da dificuldade maior do piloto – a de assumir o erro – a própria equipe esmera-se na explicação do óbvio. Em comunicado oficial, a Ferrari disse (abre aspas): “Pelo que vimos, Felipe tocou na zebra saindo da curva seis. O carro perdeu pressão aerodinâmica, apoiou-se nas rodas traseiras e isto o deixou desequilibrado na entrada da curva seguinte. A traseira escapou e ele rodou.” Ora, isto é como se o médico explicasse, no dia seguinte à bebedeira, porque o paciente com ressaca padece com náuseas e dor de cabeça. Vomitou porque bebeu demais. Rodou porque entrou errado na curva. Foi quase isso que a Ferrari disse, ao fazer a legenda da foto que todos vimos, ao vivo. E, afinal, melhor que tenha feito assim. Não cabe ao time entregar o piloto às feras. Ele errou, nós apoiamos, pelo menos em público, nem que tenhamos de lhe puxar a orelha no terreno privado.
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| Para se recuperar, Massa conta agora com três pistas nas quais ele já venceu - Bahrein, Barcelona e Turquia |
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Eu não acredito que Massa terá desempenhos tão ruins nas três próximas corridas: Bahrein, Barcelona, Turquia, três pistas nas quais ele já venceu. Não acredito porque qualquer coisa aquém de uma recuperação vigorosa significará um desprestígio incalculável para o brasileiro. A boataria em torno da contratação de Sebastian Vettel para seu lugar pode ter raízes sólidas. Neutralizar esta ameaça de desestabilização é a única chance de Massa para cumprir um campeonato digno. Mas não acredito em Massa para vencer o título deste ano. Ainda que ele se acerte sem o controle de tração, tem dado mostras de fragilidade psicológica nos momentos de pressão, como estar atrás do companheiro de equipe. E esta foi apenas a segunda corrida do ano. Dá para acreditar em Massa em uma prova decisiva, na qual se jogue a sorte do campeonato? Por enquanto, eu não acredito.
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