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Feliz campeonato novo 14.03.08


Massa, 3o melhor tempo na sexta, em Melbourne
É a capacidade de aprender que nos separa, bichos-homens, dos demais animais. Talvez eu conteste esta teoria, porque vou me atirar, de novo, no movediço terreno dos palpites. Comentaristas devem alistar-se nessa tarefa, está na descrição de nossos cargos. E ainda que eu tenha feito isso há exatamente um ano, risivelmente quebrando a cara em quase todas as minhas previsões, não renuncio ao risco.

No início desta semana, no meu blog, lancei algumas questões para o debate dos leitores, comunicando que meus palpites seriam divulgados aqui, no GPTotal. Questão por questão, vamos às perspectivas da temporada 2008.





Que equipes(s) começa(m) o ano como favorita(s)?

Kimi foi o mais rápido nos treinos da sexta
Em 58 anos de história, a Fórmula 1 tem nos ensinado algumas lições: carros que nascem ruins jamais se tornam vencedores, nunca chove no GP da Itália, quando realizado em Monza, a categoria vive sempre de ciclos. Pilotos e/ou equipes dominam certos períodos, intercalando-se e sucedendo-se ao longo da história. Para ficar no passado recente: o ciclo Schumacher/Benetton (1994 e 1995), o ciclo Williams (1996 e 1997), o ciclo McLaren (1998 e 1999), o longo ciclo Schumacher/Ferrari (2000 a 2004), o ciclo Alonso/Renault (2005 e 2006).

Por esta lógica, é natural apostar na Ferrari em 2008, consolidando o ciclo iniciado no ano passado. Porém, cabe uma breve análise sobre o suposto novo ciclo iniciado pela equipe italiana em 2007. Ao vencer o campeonato, por apenas um ponto de vantagem em relação aos dois pilotos da McLaren, Raikkonen saiu de Interlagos como o verdadeiro azarão que venceu o páreo mais importante. Mesmo tendo ganho os dois Mundiais em 2007 – Pilotos e Construtores – é fato que a Ferrari conquistou-os por detalhes. Não fosse a punição à McLaren, após o caso de espionagem, teria perdido o de Construtores. E o de Pilotos, não fossem três falhas grotescas associadas a Hamilton, nos dois últimos GPs, também penderia para a McLaren.

Hamilton ficou em 2o
Justos os títulos da Ferrari? Não se contesta, até pelo aspecto moral evidenciado no caso. Mas tal superioridade parece insuficiente para sustentar um inquestionável ciclo vencedor da equipe italiana. O ciclo iniciado em 2007 talvez fosse da McLaren, que mereceu, sim, sair da temporada como a grande perdedora. Mas seus erros estratégicos e de comportamento não anulam suas possibilidades para 2008. Ferrari e McLaren, em pé de igualdade, começam a atual temporada como favoritas incontestes do campeonato.





Quais pilotos vão brigar pelo título? Qual o papel de Felipe Massa na Ferrari?

Raikkonen, Massa, Hamilton e Kovalainen, por uma questão lógica. O finlandês, atual campeão, parece otimista com as possibilidades da Ferrari, após os testes da pré-temporada. Antes de iniciada a disputa, Raikkonen não dá mostras de estar pressionado, pelo contrário, parece mais à vontade no papel de favorito do que em outros anos. Na Ferrari, o discurso do novo chefe da equipe, Stefano Domenicalli, é de igualdade de tratamento para os dois pilotos, pelo menos até a metade da temporada.

Kovalainen, o 4o
Felipe Massa tem sido quase ignorado pela imprensa internacional. Nas capas de revistas especializadas, todo destaque vai para Raikkonen, Hamilton e Alonso. O brasileiro, em que pese estar na equipe campeã, parece correr por fora, na ótica estrangeira. O que pode não ser mau negócio, desde que ele aproveite todas as oportunidades de bater o companheiro de equipe. E de ganhar dos outros, também. Há pilotos que passam uma vida inteira fixados em vencer o companheiro, esquecendo que o grid não se limita ao carro ao lado, no mesmo box. A Massa, a missão: provar-se melhor que o atual campeão e duelar com os desafiantes. Que ele esteja imbuído daquela mística de ser brasileiro e não desistir nunca.

Webber, o 5o
Pelo lado da McLaren, a perspectiva de um cenário interessante. O outrora estreante Hamilton entra em 2008 como atual vice-campeão. Belo rótulo, e excelente experiência. Acha-se agora no papel de veterano da equipe, com a possibilidade de enfrentar um duplo desafio – ser melhor que o recém-chegado Kovalainen e provar que o desempenho notável do ano de estréia não foi um acaso. A vida pode ficar mais dura para Hamilton ao longo do ano, se confirmada a saída de Ron Dennis, seu tutor, da alta direção da McLaren. Pode ser, também, a grande chance de Kovalainen, de apagar o desempenho claudicante na Renault e de mostrar que as críticas públicas do ex-patrão, Flavio Briatore, eram injustas. Hora, portanto, de os meninos virarem homens.





Como será o desempenho da Renault, com Alonso de volta?

Alonso ficou em 9o
Com sorte, será a terceira força do campeonato. A Renault perdeu o norte em 2007 ao lançar mão de um carro meio frankenstein, em que a frente não conversava com a traseira. Reconduzir Alonso ao time não será o caminho de volta às vitórias, se o projeto de 2008 mantiver os mesmos problemas. O espanhol tem sido cético – ou apenas realista – em relação às chances da equipe, mas se trata de Alonso, um piloto experiente e que sabe jogar com as palavras. E se trata do time de Flavio Briatore. Pelos resultados dos primeiros treinos livres em Melbourne (Alonso em 9º, Piquet em 20º), não parece que a Renault esteja escondendo o jogo.





O que esperar do ano de estréia de Nelson Ângelo Piquet?

Kubica foi o 11o
Talvez pódio, nenhuma vitória. E isso foram palavras dele. Sua promoção na Renault era certa desde a metade da temporada passada. Tem a confiança do time, carrega interesses vultosos de patrocinadores ávidos pelo mercado latino-americano, disputou palmo a palmo o título da GP2 vencido por Hamilton em 2006. Foi piloto de testes, conhece o carro e os meandros do time. Não vai peitar Alonso, mas talvez tenha de explicar isso lá em casa. Um ano de aprendizado, OK. Mas se abaixar muito a cabeça para o bicampeão, certamente vai ouvir poucas e boas de um certo tri.





Será que a BMW é tão ruim quanto seus próprios pilotos têm falado?

A BMW parece mesmo ter decaído muito em relação a 2007. Praticamente inatacável como terceira força no ano passado, teve sua ascensão transformada em estagnação, a ponto de ser ameaçada pela Renault e até pela Williams no final da temporada de 2007. O carro novo, talvez apenas por ser novo, tem instalado pulgas atrás das orelhas dos membros da equipe, agora preocupados com sua resistência. Talvez seja apenas por ser novo, mas feeling de piloto raramente falha. E carro mal nascido nunca vira a carruagem da Cinderela.





E a Williams, melhorou mesmo?

Rubinho, o 15o
Nos testes de inverno, a Williams foi destaque positivo. O problema é que teste de inverno é como jogo amistoso. Como não vale nada, vale tudo: andar com pouco combustível, usar pneu mole etc. Testes de inverno não servem como medida de velocidade. No máximo de confiabilidade. Nos primeiros treinos livres em Albert Park, a Williams conquistou um modesto oitavo lugar, com Rosberg, e um sofrível 17º, com Nakajima, ambos na segunda sessão, ambos parados na primeira, com falhas mecânicas. Pelo jeito, até de falta de confiabilidade os Williams carecem. O que é uma pena, porque a Williams carrega em si a última bandeira dos tempos dos garagistas, aqueles donos de equipe corajosos, ex-pilotos ou ex-mecânicos empreendedores, que se tornaram vencedores. Depois vieram as grandes montadoras, e as corporações engoliram os homens.





Nakajima, o 17o
No blog, um dos leitores perguntou: nenhuma questão sobre Barrichello? Devolvo a pergunta: o que questionar sobre Rubens, a essa altura de sua longa carreira? No GP da Turquia, em maio, o brasileiro vai bater o recorde de Ricardo Patrese, como o piloto que disputou mais GPs na história da categoria. Independente do desempenho deste ano, é certo que Barrichello já entrou para a história da Fórmula 1. Feito monumental para qualquer esportista. Começam os primeiros testes e – surpresa! – o desempenho pífio da pré-temporada transmuta-se em fio de esperança para os carros da Honda. Depois de um ano vexatório, terminar em 13º (Button) e 15º (Barrichello) no acumulado dos primeiros treinos livres é uma significativa melhora. Pudera: a Honda despachou para a Super Aguri o desastroso modelo de 2007. Pobres Sato e Davidson. Respiram Jenson e Rubens.





Nelsinho marcou o 20o tempo
Daqui sete meses e dezoito dias, a Fórmula 1 terá um novo campeão. O que espero ver, até lá, sinceramente não sei. Sei o que espero não ver: notícias sobre espionagem, falta de ética, racismo, xenofobia. A Fórmula 1, apesar de ser espetáculo, não é diferente do mundo que a cerca. Se vivemos um 2007 de falcatruas e intolerâncias na categoria foi porque o ser humano ainda é pequeno, rasteiro, mesquinho e se preza a tais mazelas. Ter esperança por uma Fórmula 1 renovada é acreditar em um novo tempo, em um mundo que evolui. Feliz campeonato novo, que tenhamos aprendido algo, desta vez!

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