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Brakes on 30.01.08


O GP do Canadá de 2007, apesar de ocorrido há menos de um ano, já entrou para o rol de corridas legendárias da Fórmula 1. Menos pelo impressionante acidente com o polonês Robert Kubica, que teve seu BMW despedaçado após uma seqüência de choques na 26ª volta, mais pela primeira vitória de um piloto negro na categoria.

Em Montreal, 2007, Alonso terminou em sétimo com problemas nos freios
A proporção, quase a mesma: tanto quanto foi memorável o desempenho de Lewis Hamilton na condução de seu McLaren à vitória, a performance de Fernando Alonso mostrou-se muito abaixo de sua capacidade comprovada de bicampeão. Chegou a servir de motivo de chacota, terminando atrás do japonês Takuma Sato, a bordo de uma humilde Super Aguri. Com um detalhe quase humilhante – Sato não herdou a posição de Alonso, conquistou-a na pista, graças a uma daquelas ultrapassagens que ninguém vê, por estarem distantes dos primeiros lugares. O feito de Sato foi ganhar a sexta posição do espanhol, quando faltavam menos de três voltas para o final da corrida.

Depois do estranho resultado, Alonso não tardou a se justificar perante a mídia. “Tive problemas nos freios”. Lá em casa, com sua lógica de sete anos de idade, Gabriel protestou, embora falasse de seu grande ídolo. “Isso não é desculpa! Se não conseguia parar o carro, deveria era ter chegado na frente!”

Sato, da humilde Super Aguri, ultrapassou o bicampeão no final da corrida
Lembrei desse fato recentemente, quando me foi relatado outro. O professor de educação física e treinador José Eduardo Pompeo, ex-campeão paulista de triatlo, competição que reúne natação, ciclismo e corrida, relatou-me uma experiência de seus tempos como competidor. Diante da possibilidade de competir debaixo de chuva, lançou mão de uma espécie de pára-lamas em sua bicicleta. A pequena peça curvada, colocada em cima das rodas, fazia com que a água movimentada pela própria bicicleta não fosse jogada em cima do ciclista, diminuindo a sensação de desconforto.

Na teoria, a idéia era perfeita. E, na prática, seria também, se o objetivo fosse apenas dar um passeio de bicicleta. O pára-lama cumpria à risca sua tarefa, mas jogava a água de volta para a roda, dificultando a ação do freio. Resultado: com o freio funcionando de forma deficiente, ele precisava frear antes dos demais adversários, perdendo um tempo precioso nas curvas e comprometendo decisivamente seu resultado.

Ao relato de Zé Eduardo, meu colega Nilton lembrou-se de uma palestra, dada por um engenheiro. Nela, o especialista perguntava à platéia: “Para que serve o freio de um carro?” À resposta dos presentes – para pará-lo – o engenheiro contestou. “Não, para fazer o carro andar mais rápido.”

O recordista Lance Armstrong, maior vencedor da Volta da França: no ciclismo, falta de freio também arruina o resultado
É o tipo de afirmação que ganha contornos de obviedade depois de uma breve análise. Claro, se você for pilotar um carro de rua em Interlagos a 20 km/h, provavelmente vai conseguir percorrer toda a extensão da pista, de pouco mais de quatro quilômetros, sem precisar frear nenhuma vez, e eventualmente poderá fazê-lo o tempo inteiro em segunda marcha. Vai gastar uns doze minutos para cumprir todo o trajeto.

Não precisa transportar a cena para um autódromo para chegar à mesma conclusão. No trânsito, quantas vezes você já não se viu em uma avenida longa, quase sem carros, com um semáforo no vermelho algumas centenas de metros à sua frente? O que você faz? Duas alternativas: ou continua acelerando e freia ao chegar ao sinal, ou vem diminuindo a velocidade, reduzindo as marchas, até ganhar o sinal verde de novo. Na primeira, você chega antes, porque tem um freio a lhe garantir a parada.

Na Fórmula 1 contemporânea, a eficiência dos freios é espantosa. Um carro da categoria é capaz de chegar ao final de uma reta a 300 km/h, contornar uma curva ao final dela a 60 km/h, como acontece no circuito canadense de Montreal, fazendo esta substancial redução em apenas dois segundos e meio.

Com a certeza de que o carro vai parar, e em um intervalo tão pequeno, é possível retardar a freada ao máximo, diminuindo tanto quanto possível as chances de ser surpreendido por uma ultrapassagem. Cenas clássicas do automobilismo no passado, com os pilotos mais destemidos retardando as freadas nas curvas, são cada vez mais raras.

Hamilton, testando o McLaren sem controle de tração: teremos mais derrapagens, rodadas, corrigidas?
Além da altíssima eficiência dos freios, os pilotos contavam, nos últimos anos, com um instrumento fidelíssimo na tarefa de domar os ímpetos de seus carros – o controle de tração, que foi banido a partir desta temporada que se inicia em 16 de março. Sem o controle de tração, caberá aos pilotos dosar por conta própria a pressão sobre os pedais de acelerador e freio, evitando rodadas vexatórias e rodas patinando. Cenas que, cá entre nós, tornaram-se cada vez mais raras na Fórmula 1 de videogame dos últimos tempos.

Após os primeiros testes sem controle de tração, Hamilton deu seu testemunho: "Há muito menos freio motor, o que faz uma diferença na maneira com que você freia e entra na curva. Acredito que os tempos serão mais similares, mas é traiçoeiro e mais fácil de cometer erros."

Sim, acende-se em meu coração a velha esperança de ver uma categoria mais disputada na pista, com escapadas, trajetórias corrigidas, rodadas inofensivas, ultrapassagens. Para que não seja preciso um freio deficiente a fim de que, finalmente, veja-se um humilde Super Aguri ultrapassar o campeão do mundo.

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