Schumacher correu de kart no Brasil e fez picadinho da concorrência Aqui, ele aparece à frente de Massa, em Floripa
Ele não precisava ter ido correr de kart em um evento promocional e feito picadinho da concorrência para todo mundo saber o óbvio. Quinze anos, sete títulos, 91 vitórias depois, Michael Schumacher já era uma categoria à parte. Idolatrado e detestado, gênio e mau-caráter, para o bem e para o mal, Schumacher fez história na Fórmula 1.
Talvez fosse mais adequado dizer que Schumacher mudou a história da categoria. Sua seqüência arrasadora de vitórias e títulos levou os dirigentes a modificar incansavelmente o regulamento. A obsessão dos engravatados era criar, com regras, o equilíbrio que o binômio Schumacher-Ferrari havia feito desaparecer nas pistas. Não deu certo.
A obstinação dos dirigentes em parar Schumacher, em certos momentos, lembrava as disputas entre o Pica Pau e o Urubu, do desenho animado. Era evidente que os planos do Urubu eram toscos para vencer o Pica Pau, ainda mais considerando que o pássaro de cabelo vermelho não era um primor de inocência, abusando de mau-caratismo e por vezes resvalando na crueldade. A gente sempre sabia que os urubus da Place de la Concorde iam tentar mas, no final, o piloto de macacão vermelho acabava vencendo.
Comparar Schumacher ao Pica Pau é no mínimo inusitado, pois, para parte da platéia, o personagem que melhor coube ao alemão em sua trajetória na Fórmula 1 foi o abjeto Dick Vigarista, da Corrida Maluca.
Schumacher apareceu na categoria em um período no qual já era “habitual” jogar o carro para cima do adversário, passando com as quatro rodas por cima de valores como ética e cavalheirismo.
Schumacher amadureceu na Fórmula 1 em um período no qual, julgam alguns, não encontrou adversários à altura de sua habilidade e da superioridade da Ferrari. Aqui, instala-se uma discussão pertinente.
Ele não tinha ninguém à altura ou era mesmo o melhor de todos os tempos?
A nostalgia de ver três ou quatro pilotos disputando um título até as últimas provas levou muitos analistas e torcedores a afirmar que Schumacher só vencia tudo por não ter disputado seus títulos contra pilotos do gabarito de Ayrton Senna, Alain Prost, Nelson Piquet e Nigel Mansell. Outra corrente, pelo contrário, defendia o mérito do alemão, partindo desse mesmo conceito de equilíbrio. Talvez Schumacher fosse um fora de série em qualquer cenário, e seus adversários é que estariam todos no mesmo nível, talvez o mesmo dos decantados campeões dos anos 80/90.
Algumas percepções só se cristalizam ao serem vistas em retrospectiva. Talvez nem Schumacher soubesse dizer se ele vencia por não ter adversários à altura ou por ser soberanamente melhor que qualquer outro piloto da história. Quando anunciou sua aposentadoria, depois do GP da Itália de 2006, Schumacher teria dito que o momento de parar fora definido alguns anos antes. Ele pararia quando percebesse ter surgido um piloto capaz de lhe vencer consistentemente. O que as regras da FIA não conseguiram, um piloto conseguiu – Fernando Alonso. Schumacher derrotou o regulamento em campeonatos seguidos, mas perdeu por dois anos consecutivos para o espanhol a bordo da Renault azul. Hora de bater em retirada.
O jovem que destronou o rei Alonso comemora seu primeiro título, Interlagos 2005
Schumacher e o mundo talvez tenham aí percebido que, de fato, o alemão reinou durante tantos anos por falta de uma concorrência à altura. Não é à toa que Alonso tenha se tornado ídolo em tantas partes do mundo, inclusive entre os fãs brasileiros de Ayrton Senna. Alonso não é apenas o primeiro espanhol campeão na Fórmula 1. Alonso é o anti-Schumacher, o redentor dos órfãos de Senna.
Quem entra no website oficial de Alonso encontra pegadas do segundo tricampeão brasileiro nas trilhas do espanhol. Como Senna, Alonso derrama-se em agradecimentos à torcida, valoriza o próprio esforço como combustível principal para alcançar os objetivos, abusa de fotos com o olhar perdido no horizonte. Toda a emoção possível, contraponto absoluto da objetividade técnica de Schumacher.
Ainda que o alemão tenha deixado subentendido que estava pendurando as chuteiras por ter, finalmente, encontrado alguém a lhe fazer sombra, não foi um novo reinado o que se estabeleceu na Fórmula 1. O primeiro campeonato pós-Schumacher foi um arranca rabo dos diabos, com três pilotos disputando o título até a última corrida. Alonso entre eles, mas não soberano, e nem coroado. A impressão reinante foi a de que a saída de Schumacher devolveu a disputa à Fórmula 1. Como se a Fórmula 1 tivesse voltado a existir, depois de tantos anos de Fórmula Schumacher.
É defensável a idéia de que, não fosse o problema de relacionamento entre Alonso e a McLaren e, principalmente, o escândalo da espionagem, o espanhol teria todas as condições de ser campeão em 2007. Depois de dois títulos pela Renault, seria a consolidação de um domínio inconteste. A Fórmula 1 teria saído, assim, da Fórmula Schumacher para a Fórmula Alonso.
Mas não se deu assim. Alonso deixou a McLaren e encara, em 2008, um desafio de razoáveis proporções. Se for campeão com a Renault, equipe que sentiu enorme baque no ano após sua saída, volta por cima, volta com tudo, dêem-lhe o trono, o cetro e a coroa. Se disputar o título e acabar vencido, menos mal. Mas, se patinar o ano inteiro em posições intermediárias, como foi o 2007 da equipe de Flavio Briatore, a sensação de retrocesso será inevitável.
Alonso, um rei por hora destronado. Raikkonen, um campeão improvável até a metade da última corrida. Hamilton, e a McLaren, duas grandes incógnitas. Massa, o ano do vai-ou-racha para um futuro campeão ou a sedimentação de um eterno segundo piloto. Nelsinho Piquet, um ano de noviciado. Heidfeld, Kubica, será a vez da BMW?
De fato, sem Schumacher, o Mundial 1 ficou bem menos previsível. Que venha o segundo ano da Fórmula 1 pós era-Schumacher!
Nesta minha última coluna de 2007, deixo meus melhores pensamentos para os leitores do GPTotal, com o desejo de que tenhamos todos um excelente 2008.