 |
 |
|
| Comente |
| 13.11.08 |
 |
|
 |
|
| Opiniões e Dúvidas dos Leitores |
| 21.11.08 |
 |
|
 |
|
| Friends |
| 21.11.2008 |
 |
|
 |
|
| Pergunte ao GPTotal |
| Julho |
 |
|
 |
|
|
|
 |
|
12.11.08 - Carlos Chiesa |
 |
|
 |
|
|
11.10.08 - Ernesto Rodrigues |
 |
|
 |
|
|
|
|
|
 |
| » » » 21.11.07 |
 |
 |
Aumente o tamanho das letras:
12 |
16 |
20
|
| Cem anos de inquietação |
21.11.07 |
|
 |
|
O arquiteto Oscar Niemeyer está chegando aos cem anos, provavelmente, porque tem coisa mais importante a fazer do que morrer. É notável sua vitalidade e só mesmo a consciência de ter tanto a realizar talvez possa explicar tamanha longevidade. Examinar a biografia de Niemeyer é ir se deparando com um sem-fim de realizações que se estendem por mais de setenta anos de atividade profissional. E muitas delas ganharam a assinatura do mestre depois de ele já ter rompido a barreira dos 90 anos.
 |
| Palácio da Alvorada, um dos mais famosos projetos de Niemeyer |
|
 |
 |
 |
Niemeyer foi recentemente eleito um dos cem maiores gênios vivos do mundo. Ficará na memória e na história como um dos criadores de Brasília e de seus edifícios inconfundíveis, como os Palácios do Planalto e da Alvorada, o Congresso Nacional e a Catedral, mas também como autor de marcos da arquitetura mundial como a Pampulha, em Belo Horizonte, o Parque do Ibirapuera, na capital paulista, os Sambódromos do Rio e de São Paulo, o Memorial da América Latina, também em São Paulo e, mais recentemente, o Museu de Arte Contemporânea de Niterói.
A revolução proposta pelo traço do arquiteto está na simplicidade das formas. Niemeyer inovou ao enxergar as possibilidades construtivas do concreto armado, possibilitando uma sinuosidade inédita às edificações. Sua ruptura foi subverter a linha reta, proposta pelo homem construtor de até então, e se inspirar nas formas da natureza. “Não é o ângulo reto que me atrai. Nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que atrai é a curva livre e sensual. A curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, nas nuvens do céu, no corpo da mulher preferida.”
Niemeyer projetou edifícios, monumentos, espaços públicos que servirão à sociedade por muitos anos, tendo como maior desafio justamente o de resistir ao tempo. O que não é pouca coisa em um país autofágico como o Brasil, onde os prédios eventualmente duram menos que as pessoas. O arquiteto pensou nas pessoas ao criar suas obras. Queria dar-lhes conforto ao corpo e aos olhos, projetando edificações que fossem, ao mesmo tempo, tão funcionais quanto belas, necessárias e admiráveis, e não é à toa que ele trace tantos paralelos entre um mero edifício e o ser amado.
Bem fez Niemeyer que projetou prédios, não carros de Fórmula 1, porque às máquinas velozes não basta resistir ao tempo. Devem vencê-lo. Não precisam ser belas, mas fundamentalmente rápidas, nem que para isso sejam sacrificadas em suas formas. Niemeyer odiaria projetar carros de Fórmula 1, porque não poderia pensar no conforto de seus usuários. Se o velho arquiteto abusou de espaços amplos e de vazios providenciais, nas corridas estaria fadado à frustração de ver os habitantes de suas obras sempre espremidos, desconfortáveis ao nível da dor física.
 |
| Oscar Niemeyer, o gênio faz 100 anos no dia 15 de dezembro |
|
 |
 |
 |
Pensando bem, se fosse projetista da Fórmula 1, Niemeyer provavelmente nem estaria de corpo presente por lá, como já não estão John Cooper, Colin Chapman, Derek Gardner, John Barnard ou Gordon Murray. E não porque o tempo tenha chegado para eles, nenhum centenário como o grande arquiteto, embora alguns já falecidos. Apenas porque a Fórmula 1 já não comporta o traço original de algum gênio da prancheta.
O grande projetista da categoria, hoje, atende pelo nome de CAD (Computer-Aided Design) ou qualquer de seus semelhantes, programas de computador criados para ajudar arquitetos e engenheiros a fazer projetos. O gênio criativo agora se espalha em dezenas de mesas, equipadas com telas e pilotadas por jovens técnicos competentes. Gerenciados por um ou mais chefes gabaritados que, no mínimo por humildade, já não assinam sozinhos a criação e o desenvolvimento de qualquer projeto.
No lugar da régua T, dos esquadros, compassos e do desenho à mão livre, entraram os simuladores em 3D. A inspiração da natureza, fluido vital na criação de Niemeyer, perdeu muito de sua relevância no desenvolvimento de carros de Fórmula 1. Os túneis de vento estão aí para isso – simular entre quatro paredes como se comportam as soluções criadas pelos projetistas em suas telas de computador.
A alta complexidade tecnológica da Fórmula 1 atual – e o processo se estende já há alguns anos – diluiu a importância do projetista enquanto criador autoral. John Cooper entrou para a história ao projetar o primeiro carro bem sucedido com motor traseiro, e naquele momento estabeleceu-se um marco indelével na saga da Fórmula 1. Mais que isso – uma verdadeira ruptura entre o automobilismo europeu e norte-americano. Do lado de lá do Atlântico, a criação de Cooper tornou-se padrão, enquanto os irmãos do Norte mantiveram-se irredutíveis nos carros movidos por motores dianteiros.
 |
| Jim Clark e Colin Chapman, dobradinha histórica na Lotus |
|
 |
 |
 |
E como esquecer Colin Chapman e sua obsessão por inovações? O comandante da Lotus deixava a imaginação voar e dava forma a carros que se tornariam pedras fundamentais da categoria, ainda que nem todos bem sucedidos. Mas não se conta a história da Fórmula 1 sem mencionar, by Chapman, criações como o carro asa, o chassi auto-portante, a carenagem em forma de cunha, o carro movido a turbina.
Projetistas como Chapman acabavam desenvolvendo verdadeiras parcerias com pilotos, como foi o caso dele mesmo com Jim Clark, depois com Emerson Fittipaldi. O que era muito natural, já que as soluções mecânicas e aerodinâmicas dos carros eram lapidadas com as informações trazidas pelos pilotos em seus longos dias de testes.
Nelson Piquet não escondia sua preferência pela Brabham naquele início de anos 1980. Ele gostava de trabalhar com o amalucado Gordon Murray, pai de criações como o chassi triangular, o carro com exaustor e o carro skate. Foi uma senhora dobradinha, essa entre Piquet e Murray. Meio hippie, meio chegado em um cigarrinho artesanal, consta que Murray hoje mora no Brasil, em Santa Catarina, provavelmente numa muito boa, sem nada a ver com Fórmula 1.
Esta relação tão próxima, entre piloto e projetista, é hoje muito menos evidente. Diluiu-se a prevalência do projetista como fator de sucesso porque os carros de Fórmula 1 não são mais obras autorais. Foi-se o tempo que uma sacada genial fazia alguém tirar do bolso do colete alguma solução fantástica, como fez John Barnard ao desenvolver o revolucionário chassi em fibra de carbono, ou Derek Gardner, ao criar o não menos histórico Tyrrell de seis rodas. Da mesma forma, distanciou-se a relação entre pilotos titulares e projetistas porque, afinal, quem malha muito mais tempo no desenvolvimento dos carros são os pilotos de testes.
Nas especulações sobre o destino de Fernando Alonso em 2008, cresceram as insinuações de que o espanhol gostaria de trabalhar com Adrian Newey, projetista chefe da Red Bull. Newey talvez seja o último grande nome a ganhar destaque isoladamente na Fórmula 1. De fato, os carros da equipe têm mostrado uma evolução perceptível nos últimos tempos, mas é difícil divisar algum pulo do gato, nascido da mente de Newey, como fator de sucesso nessa evolução.
Newey, como todos os outros projetistas-chefes das equipes, comanda um time de especialistas. E é enorme o nível de especialização hoje, em qualquer atividade de caráter técnico. Não seria surpresa descobrir que as escuderias hoje têm projetistas que se dedicam oito horas por dia a desenvolver uma única peça do carro. Uma asa dianteira esquerda ou um defletor traseiro direito, sei lá.
 |
| Brabham BT52, uma das criações de Gordon Murray |
|
 |
 |
 |
Sem nostalgia, por favor. Não há mais Chapmans ou Murrays na Fórmula 1 atual, mas é fato que os carros são cada vez mais rápidos e, sobretudo, mais seguros. Sim, a segurança obtida não é produto da mente de nenhum projetista de nenhuma equipe, mas do regulamento técnico cada vez mais rigoroso neste aspecto. Que o diga Robert Kubica, protagonista do mais terrível acidente da temporada, zero em danos físicos. Os carros de hoje não são necessariamente belos, nem confortáveis, nem carregam o traço marcante de nenhum artista da prancheta.
Mas hoje, como ontem, a Fórmula 1 continua sendo o máximo em tecnologia automotiva. A diferença é que todo o processo criativo evoluiu, nas equipes e na indústria, e a categoria reflete essa maior complexidade tecnológica. Sozinhos ou em grandes equipes, com régua e esquadro ou pilotando o CAD, os projetistas de Fórmula 1 seguem seu destino, com a inquietação típica de um Niemeyer, procurando incessantemente por soluções que tornem os carros melhores e mais rápidos.
|
|
 |
| | |
|
|
 |