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| » » » 05.11.07 |
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Cresce nestes tempos uma preocupação bastante relevante – a de que, em breve, o Brasil não terá pilotos com potencial de chegar à Fórmula 1. A lógica é irrepreensível: se, na década de 1990, com diversas categorias de monopostos ativas no país, não fomos capazes de criar uma geração vencedora, que dirá agora, com a quase extinção desses campeonatos.
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| Barrichello seguido por Coulthard, em 1991 |
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Um fenômeno parecido aconteceu na Argentina, que dinamitou suas categorias de base, como a Fórmula 3, canalizando praticamente todas as atenções do segmento para campeonatos de carros de Turismo, sendo o mais importante a TC 2000. O panorama brasileiro, hoje, é parecido. A Stock Car domina o cenário e atrai os maiores orçamentos, ainda que não seja exatamente um primor de tecnologia. Aliás, longe disso.
Hoje, estão na Stock pilotos jovens como Daniel Serra, Giuliano Losacco, Pedro Gomes, Marcos Gomes, Ricardo Maurício, Rodrigo Sperafico, Ricardo Sperafico, gente que poderia ter feito carreira na Europa. Alguns destes, inclusive, chegaram a disputar campeonatos de base no Velho Continente, enfileirando-se até na Fórmula 3000, atual GP2, o último degrau antes da Fórmula 1.
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| Schumacher nos tempos da Mercedes, com Frentzen e Wendlinger |
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Falta de patrocínio, equipes sem estrutura, empresários inescrupulosos são fatores que se apresentam para explicar o insucesso de cada um deles em terras européias. A todos, surgiu a opção Stock Car, que não oferece a tecnologia state-of-the-art da Fórmula 1, nem seu prestígio internacional, mas que tem permitido a esses pilotos viverem de suas profissões. Sendo mais explícita: ganham para correr, não pagam por um lugar na equipe.
É com certa melancolia que se constata tal realidade. Amantes do automobilismo, fomos forjados nesta escola ascendente de formação de pilotos. Do kart à Fórmula Ford, daí à Fórmula 3, um salto para a Europa, em busca de um campeonato forte de Fórmula 3, sendo o inglês o mais promissor. A partir deste, as antigas Fórmula 2 ou Fórmula 3000 e, então, a Fórmula 1.
Este foi quase o desenho exato da carreira de Rubens Barrichello. Depois do kart, estreou na Fórmula Ford em 1989, partindo para a Europa, em 1990, a fim de disputar (e vencer) o campeonato de Fórmula Opel. Nesse mesmo ano, fez algumas corridas na Fórmula 3 Sul-Americana, para se adaptar ao passo seguinte, a Fórmula 3 Inglesa.
O campeonato de 1991 foi um marco para o Brasil. Além de ter Barrichello como favorito, contou ainda com Gil de Ferran, Oswaldo Negri Jr., André Ribeiro, Pedro Paulo Diniz e Eduar Merhy Neto. Entre os estrangeiros, o escocês David Coulthard, maior adversário de Barrichello na luta pelo título, o sueco Rickard Rydell, o espanhol Jordi Gene e o holandês Marcel Albers, que morreria na mesma categoria, no ano seguinte.
Era natural observar aquela geração e vislumbrar nos jovens pilotos os futuros campeões da Fórmula 1. Um caminho natural, já que a história nos apontava este caminho seguro. Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet e Ayrton Senna correram e foram campeões da Fórmula 3 inglesa. Ao assegurar o título, Barrichello criou na platéia a expectativa de que seria o próximo.
Reforçava a boa perspectiva brasileira um outro título obtido no mesmo ano. Em 1991, Christian Fittipaldi venceu a Fórmula 3000, dando a impressão de que a linhagem vencedora de pilotos brasileiros – aqueles tão bons que pareciam especiais “por causa da água que bebiam” – seria estendida à década seguinte.
Em 1992, Barrichello ascendeu à Fórmula 3000, enquanto Christian estreava pela Minardi na Fórmula 1. Se o ano não foi especialmente bom para os dois primeiros, sorriu para Gil de Ferran, que se manteve na Fórmula 3 Inglesa e foi campeão. Barrichello perdeu o título da F3000 para o italiano Luca Badoer, enquanto Christian debateu-se o ano inteiro com a fraqueza da Minardi.
Apesar de não conseguir o título, Barrichello garantiu uma vaga na Fórmula 1 em 1993, estreando pela Jordan, um posto de respeito na época, compatível com um piloto que chegava cheio de credenciais. Rubens, afinal, havia sido campeão ou vice em tudo quanto era campeonato de base que disputara.
Seu maior oponente na Fórmula 3, David Coulthard, não teve a mesma sorte naquele momento. Ficou por mais um ano na Fórmula 3000, disputando o título como um dos favoritos, e acertou contrato para ser piloto de testes da Williams. O escocês seria alçado ao posto de titular com a morte de Ayrton Senna, no ano seguinte.
Brilhantes carreiras em categorias ascendentes, desempenhos decepcionantes na Fórmula 1. Barrichello e Coulthard, jovens promessas em 1991, chegam a 2008 como pilotos em fim de carreira tendo conseguido, no máximo, o vice-campeonato na maior das categorias. Onde as histórias desses rapazes teriam desandado?
Perguntados assim, à queima-roupa, eles talvez dissessem que foram atropelados por um piloto que não correu na Fórmula 3 Inglesa nem disputou o título na Fórmula 3000, chegando quase como desconhecido à Fórmula 1, em 1991.
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| Barrichello nos tempos da Ferrari |
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Michael Schumacher não era uma aposta garantida naquele começo dos anos 1990. Não era sequer conhecido em toda a Europa. Era membro da equipe da Mercedes no Mundial de Protótipos, e havia quem confiasse mais em seu companheiro Heinz-Harald Frentzen. Talvez Barrichello e Coulthard tenham tido a má sorte de amadurecer na Fórmula 1 justamente nos anos de Schumacher, e isso talvez lhes valha de justificativa eterna.
Que a maldição não se localize, no entanto, apenas nos dois vice-campeões quase aposentados. Daquela geração, pouco ficou em termos de sucesso duradouro. Christian Fittipaldi correu três temporadas na Fórmula 1, conseguindo como melhores resultados três quarto lugares. Gil de Ferran fez dois testes na Fórmula 1 – pela Williams e pela Arrows – não foi aproveitado na categoria e acabou fazendo carreira nos Estados Unidos, chegando duas vezes ao título da Cart e ganhando as 500 Milhas de Indianápolis em 2003. Parece destinado a não ter sucesso na Fórmula 1, pois sua passagem como dirigente da Honda, neste ano, trouxe mais dissabores que qualquer esboço de alegria.
Por outro lado, não se esgota em Schumacher o exemplo de campeão da Fórmula 1 com carreira pouco expressiva nas categorias de base. Fernando Alonso fez longa carreira no kart, passando aos monopostos apenas em 1999, na Fórmula Nissan, e fazendo uma cambaleante temporada de Fórmula 3000 no ano seguinte. Chegou à Fórmula 1, pela Minardi, sem qualquer das chancelas apresentadas por Barrichello ou Coulthard, mas já comprometido com a Renault de Flavio Briatore. O campeão de 2007, Kimi Raikkonen, teve um noviciado ainda mais curto com monopostos, a partir do kart. Uma temporada de Fórmula Renault, em 2000, e dali para a Fórmula 1.
O que parece distanciar a dupla Barrichello/Coulthard dos campeões Schumacher/Alonso/Raikkonen não é a habilidade ao volante, nem tampouco a vida pré-Fórmula 1. A diferença está no rumo das carreiras. Em última análise, nas escolhas de cada um. Não é demais lembrar que Barrichello teve a oportunidade de assinar com a McLaren na segunda metade dos anos 1990, quando a equipe de Ron Dennis produziu suas primeiras flechas prateadas que valeram o bicampeonato a Mika Hakkinen.
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| Schumacher, Coulthard e Barrichello na Áustria, 2001 |
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Pode não significar muita coisa, pois Coulthard topou a oferta de Ron Dennis e foi para a McLaren, para ser o eterno número 2 da equipe por anos a fio. Hoje, Barrichello e Coulthard escrevem livros e contam suas versões do insucesso. Deve ser penoso, para alguém que “quase foi”, explicar por que acabou não sendo. O fato é que os troféus lustrosos de um e de outro, enfeitando as salas de suas belas mansões, contam a história de uma geração que se perdeu.
Talvez vencer nas categorias de base não seja tão importante assim para ser campeão na Fórmula 1. Resta-nos acreditar nisso, porque a velha escola de Emerson, Piquet e Senna já não forma mais ninguém por aqui.
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