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| » » » 24.10.07 |
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Kimi Raikkonen ganhou seu título de número 1 ao conquistar sua vitória de número 1 no GP do Brasil. (Eu sei, ele ganhou em 2003, ganhou mas não levou, porque a vitória depois foi dada a Giancarlo Fisichella. Então, a vitória do último domingo é, oficialmente, sua primeira no GP do Brasil.) Campeão, Kimi será o número 1 no próximo ano.
Ainda em Interlagos, meio atordoada com tanta história sendo escrita à minha volta, senti o número 1 rondando minha mente. Fosse há alguns anos, eu talvez ali detectasse um desejo inusitado de degustar certa cerveja, que tinha como tema publicitário apregoar-se como “a número 1”. O que não faria sentido, pois não sou grande amiga de cerveja. Mas ia e vinha, fugia e voltava o número 1. Encarei-o, inquiri – de onde vem você? Ele me respondeu. “One”. Claro, a música do U2.
O que teriam Bono & Cia. a ver com a vitória de Kimi? Nesta música, uma canção de amor meio desesperada, falando de uma reconciliação sofrida, prevalece a idéia de unicidade. “We are one, but we are not the same, we get to carry each other...” (“Somos um, mas não somos os mesmos, temos que carregar um ao outro”). Bonito, né? O ideal de qualquer casal, nem todos conseguem, problema de cada um, e eu não sou terapeuta familiar, mas...
O conceito de ser um só e de carregar um ao outro transborda facilmente da canção – e da atmosfera romântica – para qualquer empreitada que se realiza na base da parceria. A idéia de trabalho em equipe pressupõe exatamente isso, o grupo como uma coisa só (“one”), composta por partes que se sustentam mutuamente (“carry each other”). Vale para o casal que se completa, para a dupla de acrobatas no circo, para o time de futebol, para a equipe de Fórmula 1.
Não é de hoje que a Ferrari trabalha assim, fechada em torno de um de seus pilotos, com todo o time sustentando o objetivo comum. Os que acompanham a categoria há pouco tempo podem pensar que se trata de uma herança da era Schumacher. Não é. Está no DNA do time italiano. Gilles Villeneuve aceitou trabalhar pelo companheiro Jody Sheckter, em 1979, com a palavra de Enzo Ferrari de que seria o próximo da fila. Morreu odiando amargamente seu parceiro Didier Pironi, em 1982, porque o francês poucas semanas antes ousou desrespeitar essa primazia apalavrada com o chefe, tomando-lhe uma vitória no GP de San Marino.
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| Kimi volta para o box após a coletiva; o piloto é bom, a fotógrafa, abaixo da crítica |
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Em 1999, com Michael Schumacher fora da disputa pelo título, a Ferrari chamou Mika Salo para substituí-lo e não hesitou em mandar que ele cedesse a vitória no GP da Alemanha a Eddie Irvine, que lutava pelo campeonato contra Mika Hakkinen. Nos anos seguintes, com a dupla ferrarista formada por Schumacher e Rubens Barrichello, a união da equipe em torno do alemão produziu quase tantos títulos quanto polêmicas. A pior, GP da Áustria de 2002, com Barrichello cedendo a vitória a poucos metros da linha de chegada.
Foi indigesto para nós, brasileiros, assistir àquela farsa. A manobra pegou mal para a própria Fórmula 1, e a FIA remendou o regulamento esportivo da categoria, fazendo constar, no artigo 39.1, a seguinte restrição: Ordens de equipe, que interfiram no resultado de uma corrida, estão proibidas. Ou seja, não pode mais o Jean Todt entrar no rádio da equipe e decretar: “Fulano, vaza que o Sicrano tem que ganhar.” Mas não está dito, em nenhum lugar, que a equipe não pode combinar antes o que fazer para garantir a vitória de um dos pilotos. Uma estratégia de pit stops bem arquitetada se encarrega do caso.
(Estratégias de equipe são quase tão antigas quanto a própria Fórmula 1. Causa uma sensação estranha presenciá-la acintosamente, como se a platéia estivesse sendo enganada, mas acontece. No entanto, acho que boa parte dos que gritam pela ética, contra resultados arranjados, silenciariam se o piloto beneficiado fosse seu compatriota.)
Contornando regras, achando alternativas, a Ferrari nunca deixou de se fechar em torno de um objetivo, monolítica, um clã, quase uma seita, uma sociedade secreta. Foi este sentido de unicidade, de ser uma só (“one”) que permitiu à equipe uma de suas mais improváveis vitórias na Fórmula 1 neste domingo. Foi o compromisso de ser uma parte desse bloco que levou Felipe Massa a contribuir com o time, ajudar a conduzir Raikkonen ao título, carregar o companheiro (“carry each other”).
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| Mika Hakkinen fora de foco: o bicampeão finlandês não deu sorte para a dupla da McLaren, mas viu o compatriota sagrar-se campeão |
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Ainda que agora se instale uma nova polêmica sobre a real chance de Massa vencer este último GP do Brasil... Se entregou a vitória ou se foi de fato vencido por Kimi na pista é algo que me parece uma questão menor. Ou perdeu porque quis, para ajudar o time, ou porque não foi tão bom quanto o companheiro. Nenhuma das duas alternativas me parece digna de figurar no cartão de visitas. Massa escolheu o discurso da fidelidade, esperando ansioso pela retribuição da equipe no futuro. Cabe a ele julgar se foi certo ou errado enredar-se nessa situação. A mim cabe apenas observar: isso é bem coisa de clã, de grupo fechado, de família. One.
No exato oposto deste panorama situam-se Ron Dennis e sua esfacelada McLaren-Mercedes. Chega a ser incompreensível o que esta equipe viveu em 2007. Vale a pena relembrar um pouco como a McLaren chegou, tropegamente, até aqui. Ainda em 2005, um ano antes de encerrar seu contrato com a Renault, o espanhol Fernando Alonso anunciou sua transferência para o time inglês. Especula-se que o jovem campeão era feliz na equipe comandada por Flavio Briatore, menos por um aspecto – dinheiro. A proposta da McLaren-Mercedes para tê-lo a partir deste ano vinha com a perspectiva de rendimentos da ordem de US$ 50 mi.
Por outro lado, a McLaren vislumbrava, para o mesmo período, a ascensão de seu pupilo Lewis Hamilton, contratado desde os 11 anos pelo programa de formação de pilotos da equipe de Woking. É difícil, com tudo o que se passou nos últimos meses, imaginar que Ron Dennis tenha arquitetado formar uma dupla tão diabolicamente explosiva. Um campeão do mundo com a expectativa de ser o primeiro piloto da equipe, ao lado de um jovem talento que espanta a platéia com sua extrema habilidade ao volante, com seu equilíbrio incomum. Se Ron Dennis tivesse a certeza de que o cenário seria esse, só rotulando-o como louco para não supor tamanho desarranjo de relacionamento.
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| A nuca de Hamilton: o inglês passou pertinho, mas virou a cabeça bem na hora do click. Damn Lewis! |
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Não consigo acreditar que Ron Dennis deliberadamente escolheu este inferno para viver em 2007. Acho, na verdade, que a consistência de Hamilton surpreendeu até o chefe da equipe. Hamilton fazia seu ano de estréia, seria compreensível se tivesse um desempenho mediano, mas encantou o mundo com sua maturidade ao volante. Saiu do script, desestruturou o roteiro. Dennis não soube conduzir a ordem dentro da McLaren. Pior: em vez de aglutinar as forças em torno de um objetivo comum, como la famiglia faz tão bem, tomou partido de seu pupilo, admitindo que o inimigo morava dentro do mesmo lar.
Ron Dennis disse em bom inglês que, na China, não estava preocupado com Raikkonen, mas com Alonso. Arrogância – ao ignorar a competência da Ferrari – e cizânia – ao fermentar a disputa fratricida em seu próprio quintal. Dennis não percebeu que, para seu deleite ou desapontamento, ele, Alonso e Hamilton eram parte de uma coisa só (“one”) e que, ao brigar com o espanhol, estava brigando consigo mesmo.
O ótimo Rodrigo Mattar, do Sportv, há alguns dias levantou suas previsões para 2007 e as listou em seu blog “Saco de Gatos”. Se vocês quiserem rir comigo – e de mim – leiam algumas das minhas, publicadas em fevereiro deste ano, na coluna “Jogo de adivinhação”:
Sobre Alonso: “(...) o temperamento do atual bicampeão parece estar em total sintonia com a sisudez de Ron Dennis e seu time.(...)”. Nota da redação: Sim, eu escrevi isso.
Sobre Hamilton: “O estreante inglês, aliás, é outra fonte de sossego para Alonso. Campeão da GP2 em 2006, Hamilton deve fazer, em seu ano de estréia na Fórmula 1, um período de aprendizado. Ao que tudo indica, vai vestir a pele de segundo piloto com calma e devoção.(...) Portanto, que não se espere uma luta fratricida na McLaren em 2007, o que se apresenta como outra vantagem de Alonso.” Nota da redação: Não, eu, não, quem bebe é o Kimi.
Sobre a Renault: “(...) A super-campeã dos dois anos anteriores, a Renault, neste momento dá a impressão de ter perdido toda a superioridade dos campeonatos de 2006 e 2007. Não exatamente por ter perdido seu principal piloto, mas por todo o pacote de 2007.” Nota da redação: Nem o Briatore deve ter discordado.
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| O brasileiro é parte da 'famiglia', resta saber que papel lhe caberá no futuro |
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Sobre a BMW: “(...) não custa lembrar que, no ano passado, o time obteve dois pódios, um com Heidfeld e outro com Kubica, e uma evolução é algo plenamente aceitável nesse estágio, não sendo nenhum exagero apostar na BMW como a terceira força do novo campeonato.” Nota da redação: Foi a segunda, pela desclassificação da McLaren.
O fato é que 2008 logo vem, e logo estaremos aqui e aí soltando nossos palpites em grande medida furados. Que venha, porque, de verdade, este Mundial de 2007 deu bem mais do que deveria dar.
Até a próxima!
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