Sessão Colunas
Escreva pra gente
Comente
13.11.08
Nossos leitores comentam o GP do Brasil
Nossos leitores comentam o GP da China
Opiniões e Dúvidas dos Leitores
21.11.08
Cartas - Segunda quinzena de Novembro
Cartas - Primeira quinzena de Novembro
Friends
21.11.2008
Motores diferentes
Kers: a nova polêmica da F1
Pergunte ao GPTotal
Julho
Um maluco, dois tristes
Sobre tamanhos e ultrapassagens
mais
12.11.08 - Carlos Chiesa
Adeus!
E se o Massa ganhar?
11.10.08 - Ernesto Rodrigues
Bate neles, Rubinho!
O bom e velho filme
mais
 
12.03.06
Confira a classificação
12.03.06
Pilotos e Equipes
mais
Home » Colunas » Alessandra Alves » 10.10.07
Aumente o tamanho das letras:
12 | 16 | 20
Minta você mesmo 10.10.07


Há algum tempo, mais ou menos na metade de cada temporada, a Fórmula 1 vivia a chamada “silly season”, um período de forte especulação no qual se tentava adivinhar o futuro da categoria. Para quais equipes iriam os pilotos, que motores equipariam quais carros e assim por diante.

A maioria das bobagens publicadas pela imprensa não se confirmava, mas é bem provável que alguns personagens centrais desses boatos tenham se beneficiado apenas com o disse-me-disse. Mais que isso: é certo que boa parte da boataria tenha sido espalhada por esses mesmos personagens, inflando bolhas especulativas com o único propósito de se locupletarem.

Nelson Piquet assume que era usuário contumaz dessa prática. Criava um boato qualquer, sobre ele próprio ou não, e contava para algum interlocutor escolhido a dedo. Alguém que não suportaria guardar o segredo e, na primeira oportunidade, daria com a língua nos dentes. A diversão do tricampeão era receber o boato de volta, invariavelmente deturpado, numa espécie de “telefone sem fio” que ele apelidou de “Rádio Paddock”.

É natural que Piquet também tenha usado o mesmo método para espalhar notícias a seu favor, ou de alguma forma tirar vantagem de especulações plantadas por ele mesmo. Não era só passatempo de um piloto moleque, afinal. Mecânicos conversam com engenheiros, que cochicham com pilotos, que batem papo com chefes de equipe, que falam a todo tempo com projetistas, mecânicos, engenheiros, pilotos. E quase todos falam com jornalistas. E à imprensa, por definição, cabe a tarefa de espalhar a notícia.

Em resumo, há muito tempo a Fórmula 1 usa a dita imprensa especializada em proveito próprio. Ficamos, os jornalistas, entre a cruz e a espada. Se engrossamos o coro das especulações, é quase certo que estamos fazendo o jogo de alguém. Por outro lado, se guardamos distância da boataria, corremos o risco de levar o chamado “furo”, a notícia que um único veículo de imprensa tenha dado. Seja jornalista, leve um furo e agüente a ira de seu editor – “Como você não sabia disso?”. Na dúvida, e no instinto ancestral de preservação, embarque-se na boataria, e viva a silly season.

Os jornalistas espanhóis acham que Alonso é deles
Tão natural quanto o uso da imprensa pela Fórmula 1 é o legítimo direito do jornalista especializado em se cercar de fontes confiáveis. Estar próximo dos personagens centrais da categoria pode garantir dicas quentes. Seria louvável se o objetivo fosse apenas o de levar a informação de melhor qualidade ao leitor, ouvinte ou espectador. O problema é que este “estar próximo” entre jornalistas e pilotos quase sempre dá caca.

Nos tempos de Ayrton Senna, a coisa chegava a ser risível. Já era estranho presenciar repórteres chamando Senna de “Ayrton”, mas vá lá. No intramuros da Fórmula 1, os pilotos quase sempre se chamam pelo prenome – Schumacher era Michael (e dito à inglesa, como Maicol, não à germânica, no original Mihael), Alonso é Fernando e assim por diante. Mas eu mesma tinha de conter o riso quanto alguns palhaços de microfone ou bloquinho em punho se referiam ao segundo tricampeão brasileiro como “Beco”, seu apelido familiar. Tentativa desesperada de demonstrar intimidade, lógico.

Talvez o período mais desgastante, em relação a Senna, tenha sido seu último ano pela McLaren. No início daquele campeonato, ele e Ron Dennis não chegaram a um acordo sobre os valores de seu contrato – mostrando que o chefe de equipe sempre foi duro na queda de braço. Negociavam corrida a corrida. E em todo GP, santo tédio, era a mesma coisa: Senna corre, Senna não corre. E a torrente de “informações privilegiadas”: uma fonte da McLaren me disse isso, uma pessoa muito próxima a Senna me confidenciou tal coisa. Já não era a notícia sobre Senna que contava, mas como ela tinha chegado até o expert de bloquinho na mão.

O fato de conseguir uma exclusiva ou de eventualmente viajar ao lado do piloto não faz dele amigo do repórter. Naqueles tempos do carburador, quando na hora do pódio os pilotos desavisados abaixavam o macacão por causa do calor, escondendo o logotipo dos patrocinadores, pode até ser. Hoje, com o contato muito mais restrito entre imprensa e pilotos, duvido. A questão crucial, no entanto, nem é discutir se pilotos e jornalistas podem ou devem ser amigos. A grande confusão, que acontecia na época de Senna e se repete continuamente, é a postura da imprensa em relação à sua matéria-prima, os fatos.

Hamilton tem a imprensa inglesa na mão
Quando veste a pele do amigo, do confidente, do detentor de informações privilegiadas, o jornalista assume o risco de ser também torcedor. E torcer é exacerbar na paixão, perder a noção do razoável, correr riscos, entregar-se sem reservas. É exatamente o que está fazendo a imprensa espanhola, neste 2007, em relação a Alonso. E talvez com um pouco mais de fleuma, a imprensa inglesa, em relação a Hamilton.

Tudo o que cerca o espanhol, neste ano, beira a esquizofrenia. Por vezes, Alonso é pintado como um mau caráter que chegou arrotando empáfia na McLaren. Em outras, justifica-se o tom belicoso do bicampeão como mera defesa contra maus tratos recebidos. Então, ele é apontado na mídia como o delator que encostou Ron Dennis na parede e reabriu o caso da espionagem entre McLaren e Ferrari. O mesmo episódio serve para legitimar sua postura de transparência e compromisso com a verdade. Alonso joga contra o time. A McLaren sabota Alonso. Escolha a publicação, espanhola ou inglesa, e veja ali descrito deus ou o diabo, dependendo do idioma.

Do lado de Hamilton, a coisa não é muito diferente, talvez menos aguda. O inglês tem a imprensa do próprio país na mão, como já a tiveram Coulthard e Button, as esperanças britânicas frustradas dos últimos anos. Hamilton, por sua regularidade, sua pilotagem quase isenta de erros e pelo bom trato que demonstra com as pessoas à sua volta, parece ter ganhado também a simpatia de parte da imprensa do resto do mundo e de boa parcela do público. O que não o livrou de algumas desconfianças quanto a uma eventual blindagem da FIA em relação a ele, especialmente nas publicações de fora da Inglaterra.

A paixão dos jornalistas espanhóis por Alonso beira o ridículo. Depois do GP da China, um jornalista do periódico “As” foi entrevistar Ron Dennis na base de tirar satisfações, queixando-se do tratamento dado ao “nosso piloto”. O chefe da McLaren reduziu o repórter à sua condição – “o piloto é da McLaren, não seu”.

Não é à toa que a temperatura tenha subido tanto nos fóruns da Internet dos principais veículos espanhóis. A não-punição a Hamilton pela manobra no GP do Japão, tratada como catástrofe pela imprensa espanhola, gerou uma série vergonhosa de comentários entre leitores, exagerando no tom e chegando a manifestações explícitas de racismo. Sim, o espanhol tem o sangue quente. Vai a imprensa e cutuca, instiga, alimenta, dá nisso.

Na China, Ron Dennis chegou a bater boca com um repórter espanhol
A vantagem de ser “dos tempos do carburador” é que a gente se choca com pouca coisa. A relação quase promíscua que a imprensa espanhola hoje forja com Alonso é bem parecida com o que se viu por aqui nos anos de Ayrton Senna e também no período de Rubens Barrichello na Ferrari. Em dado momento, a imprensa praticamente canonizou Senna e mandou gente como Alain Prost, Jean-Marie Balestre e Michael Schumacher para os quintos dos infernos. Muita paixão e pouca argumentação. Nós, certos. Os outros, errados. Sem meio termo, sem despir o véu cego da paixão.

No final da década de 1970, São Paulo viveu uma rara greve de jornalistas. Por paradoxo que pareça, o movimento ganhou bastante destaque na imprensa. No muro de um cemitério da capital paulista, certo dia amanheceu a seguinte pichação: “Não leia jornais, minta você mesmo.” A frase inspirou o compositor Raul Seixas, que anos depois compôs “Cowboy fora da lei” com o seguinte verso: “Eu não preciso ler jornais, mentir sozinho eu sou capaz”.

É claro que, sendo jornalista, não vou jogar contra o patrimônio e dizer que assino embaixo da frase pichada e do verso de Raulzito, mas peço apenas uma reflexão. Vale a pena acreditar em tudo o que se lê ou se ouve, de uma única fonte de informação? Por esta lógica, hoje todos os espanhóis acreditam que Alonso é um injustiçado e Hamilton, um protegido. Pela mesma lógica, os ingleses vêem em Hamilton um ser humano sem defeitos, enquanto Alonso encarna todos os requisitos para ser rotulado como o novo Dick Vigarista. Será que só um desses grupos é detentor da verdade? O mundo, o ser humano, as relações são tão estanques, tão preto-e-branco, tão par ou ímpar?

Vamos, você é inteligente. Leia e ouça várias fontes, cruze informações, chegue às suas próprias conclusões. Não compre idéias prontas, pense, pense...





Minha próxima coluna vai ao ar depois do GP do Brasil. Portanto, depois da decisão do campeonato. A saída honrosa para o Mundial de 2007 seria o título de Raikkonen. Não acho que ocorra, mas tenho convicção de um fato: se Hamilton depender de um grama de ajuda de Alonso, a Ferrari será campeã. E o espanhol talvez termine a corrida com aquela cara de menino sacana que joga fora as bolinhas de gude do irmão caçula. “Se eu não ganho, você também não”. A conferir.

Uma ótima semana a todos!

 Leia mais colunas de Alessandra | Envie a coluna para um amigo | Voltar
anuncie | quem somos Apoio: Interactive Fan  |  Red Cube Tecnologia e Comunicação