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That´s entertainment! 26.09.07


O fato de ter uma mãe que sempre detestou novelas talvez explique por que gosto tanto de automobilismo. Não me lembro de minha mãe acompanhar novela nenhuma, e o pouco que ela via da fértil teledramaturgia brasileira, mesmo de raspão, parava logo em seu crivo de mulher perspicaz.

É apenas entretenimento, não soframos por isso
Bastava seguir um trecho do capítulo e ela já era capaz de apontar erros de continuidade, sempre achando quase tudo absurdo – diálogos, situações, enredo. Diante de suas críticas certeiras, eu sempre repetia a mesma frase: “That´s entertainment!”, em alusão a um documentário da década de 70, com o melhor dos musicais da Metro. Aquilo era só entretenimento, não a vida real. Um passatempo, uma bobagem para marejar nossos olhos, acelerar nosso peito, encher-nos de raiva ou de alegria. Algo para se ver do começo ao fim, desligar a TV e esquecer.

O drama vivido há algumas semanas pela Fórmula 1 em muito lembrou uma novela. Tanto pelo desenrolar da trama quanto pelo interesse da platéia. Ficamos todos hipnotizados pelos fatos havidos na Place de la Concorde, o endereço da FIA, enquanto se decidia o futuro da McLaren e de seus pilotos no campeonato. Terminado o julgamento, a audiência manifestou-se à farta, tal clientes agitadas no salão de beleza, manhã seguinte ao último capítulo do folhetim das oito.

O que mais me desagradou na decisão da FIA, hoje percebo, foi o acinte ilógico. Banir a equipe sem eliminar pilotos. Ora, decidam o que quiserem entre quatro paredes, façam seus regulamentos esdrúxulos e me obriguem a engoli-lo em nome do espetáculo, mas não desafiem minha lógica! Os pilotos não disputam o Mundial a pé, mas não vou insistir nisso. A novela acabou, já sabemos quem matou e quem morreu. No fundo, como eu insistia para minha mãe, há muitos anos, “that´s entertainment”. É só entretenimento, sofrer por isso é sinal de mente vazia e coração frio. Careço de ambos.

O argumento que prevaleceu, entre os que concordaram com a decisão do tribunal, foi de que o campeonato deveria ser resguardado. Em outras palavras: o espetáculo precisava continuar. Tenho dito as seguintes palavras desde minha primeira coluna para o GPTotal: a Fórmula 1 é, antes de competição ou de laboratório, uma grande vitrine. Espetáculo, entretenimento. Então, me pus a pensar: e se em vez de pilotos e equipes, os protagonistas dessa história fossem artistas do show business?

Comecemos por McLaren e Ferrari. Até hoje, não conheci nenhuma viva alma que se dissesse torcedor da McLaren. Uma coisa era torcer pela McLaren de Emerson ou, mais ainda, pela McLaren de Senna. Quando acerta a mão, a McLaren costuma ser irritantemente capaz. Raramente comete erros, tudo parece seguir um script. Torcedores da Ferrari, ao contrário, espalham-se apaixonados pelo mundo. Os anos assépticos de Schumacher parecem ter ficado no passado, e a Ferrari voltou a ser o que era. Uma bagunça, uma famiglia em torno da mesa de domingo, vinho derrubado na toalha, velhos brigando com moços, bambinos correndo pela casa, mammas gritando que parem, santo dio! A Ferrari é capaz de esquecer de por gasolina no carro de Massa mas, porca miséria, como anda questa macchina!

Alonso, a Maria Callas da McLaren
Pode-se até gostar da McLaren, como se gosta de Wynton Marsalis e de seus solos perfeitos. Mas amar a gente ama Charlie “Bird” Parker e seus improvisos de tirar o fôlego e fazer brotar lágrimas. McLaren é o engomadinho Marsalis, Ferrari é o despirocado Bird. Você será capaz de ouvir Sarah Vaughan e de se impressionar com seu virtuosismo vocal, mas duvido que não lhe aperte o peito o lamento meio desleixado de Billie Holiday. McLaren é a centrada Sarah, que viveu até os 66 anos e morreu de causas naturais. Ferrari, a instável Lady Day, morta aos 44, destruída pelo álcool e pelas drogas.

Mas eis que no ambiente estéril da McLaren viceja uma prima dona. Ron Dennis está na Fórmula 1 desde que Michael Jackson era negro e, no entanto, nem esse vastíssimo cabedal no show business livrou o velho chefe de equipe de ser vítima do estrelismo exacerbado de Fernando Alonso. Como se fosse uma soprano com TPM, o espanhol parece ter transtornado a inabalável coxia de Woking. Chegou exigindo camarim climatizado, dúzias de toalhas brancas (jamais saberei por que as estrelas da música precisam de tantas toalhas imaculadas), rosas da Colômbia e chá do Tibete, percebendo que, no segundo ato, a corista novata lhe roubava a cena.

O jovem Massa: Keith Richards não abre show para ninguém
Se fosse o maestro e tivesse de escolher a melhor diva para encarar a ária final de Madame Butterfly, você certamente lançaria mão de Maria Callas, não da corista, ainda que ela fosse simpática e tivesse enorme potencial. Engoliria os chiliques da estrela porque, afinal, ela lhe custou muito dinheiro para estar em seu cast. Nesta altura do libreto, tem menos importância o que acontece no palco. Nem se será Callas ou a corista a agraciada com o buquê de rosas ao final da ópera. O interesse da platéia parece ser a próxima montagem do maestro Ron.

Entre um dó de peito e um cristal partido, surge o único capaz de salvar o show. Pobres de nós, amantes da arte, agora nas mãos de Kimi Raikkonen. O finlandês parece ser o hit do momento nas paradas ferraristas. O fato de estar à frente de Massa na tabela apenas legitima uma escolha óbvia da equipe. Trabalhar por Kimi, ainda que com ínfimas chances, é endossar o cheque assinado no ano passado, quando o finlandês foi contratado – e caro – para substituir Schumacher. Apostar em Massa seria colocar os Rolling Stones para abrir o show do Jota Quest. Os meninos mineiros roqueiros podem ser competentes e simpáticos, mas ninguém supõe que se contrate Keith Richards para tocar antes deles.

Torcer por Kimi é como esperar um show do síndico
Àqueles que ainda esperam o triunfo da justiça restou torcer por Raikkonen. Nada contra Kimi, gosto de seu estilo meio heavy metal, mas depender dele é como contar com Tim Maia para encerrar o espetáculo. Ele tanto pode vir e fazer um show memorável como simplesmente não comparecer, ou chegar atrasado, brigar com os técnicos de som e ir embora sem dar explicações. Sem o destempero da prima dona, apenas uma sensação infinita de enfado. Como Tim, Kimi parece gostar mais de curtir a vida do que de se sacrificar por qualquer coisa. “Não fumo, não bebo, não cheiro, só minto um pouquinho”. A frase símbolo do soul man talvez se encaixe ao jeito de ser do finlandês.

Mas é o que resta para que a orquestra não desafine. Difícil acreditar que 2007 será reconhecido no futuro como uma obra-prima da Fórmula 1. Mas não soframos por isso, that´s entertainement, afinal.

Cai o pano.

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