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Campeão café-com-leite 12.09.07


No princípio, era o nome. Toda criança ou adolescente que começa a gostar de Fórmula 1 não tarda a querer descobrir o passado da categoria. Fuça aqui e ali e logo se depara com a lista de campeões mundiais e não tem mais do que uma relação composta por uma data e um nome. 1950 alinhado a Farina, 51 a Fangio, 52 e 53 a Ascari e vai percorrendo o rol, todo formado por campeões.

Hilll em Monza 61
Vai demorar algum tempo para descobrir, por exemplo, que o nome relacionado ao ano de 1970 foi campeão depois de morto. Que, dentre os três títulos conquistados por Jack Brabham, o de 1966 foi mais especial que os outros, porque foi o primeiro de um piloto conduzindo um carro construído por ele mesmo. Que Phil Hill foi um campeão “menor” na análise de boa parte dos especialistas, e que há um bocado de pilotos nunca listados ali, mas venerados até mais do que alguns campeões.

Jack Brabham em Monza 66
Ao fim e ao cabo, injustiças, tragédias e controvérsias descontadas, o que resta é um nome. Piquet pode ter merecido mais o título de 1986 que Alain Prost mas, na lista, é o nome do francês que aparece. Prost, por sua vez, poderia até ter faturado o campeonato de 1984, não fosse a interrupção do GP de Mônaco, que lhe atribuiu metade dos pontos, e se não fosse por isso, poderia ter superado Lauda e não ter perdido para este por mísero meio ponto. Mas, ao lado de 1984, destaca-se um nome – o de Niki Lauda.

Não vai ser diferente em 2007. Daqui alguns anos, quando os recém-nascidos de hoje dedicarem-se a conhecer o passado da Fórmula 1, ao lado do ano estará um nome. E como ele chegou lá será tarefa para mais tarde. Primeiro, um nome. Hamilton, Alonso, Massa ou Raikkonen.

Lauda em Monza 84
(Se você nasceu em 2007 e está lendo este texto em 2027, saiba que ainda não sei quem venceu o atual campeonato, o que de cara lhe dá uma vantagem sobre esta veterana escriba que nasceu no ano do único campeão póstumo. A Internet vai nos eternizar sem a necessidade de formol. Sei que este texto não terá o valor de um pergaminho egípcio pela facilidade com que se conserva na web, mas não me deprecio por isso. Como no Egito havia quem se dedicasse a prever o futuro, faço o mesmo neste campeonato. Se você estiver lendo isso nos anos do porvir, dê uma busca, tente me achar por aí e me mande um e-mail, para me cumprimentar pelo acerto. Ou faça troça da minha bola de cristal furada. Se não se usa mais e-mail, encontre-me de outro jeito. Se você estiver me lendo depois de 2050, não perca muito tempo, já não devo estar por aqui.)

Hamilton, Alonso, Massa ou Raikkonen? No início deste ano, e quem lê o GPTotal sabe, apostei em Alonso. Claro que eu não sabia que Hamilton faria a mais fulminante estréia de um piloto na Fórmula 1, passando a líder do campeonato com uma regularidade espantosa na zona de pontos e, mais ainda, no pódio das corridas. Nem que ele e seu companheiro Alonso se pegariam feito cão e gato, ou Senna e Prost. Não poderia supor que, depois de doze corridas, os quatro pilotos da McLaren e da Ferrari teriam rigorosamente o mesmo número de vitórias. Mas o que nem eu nem muita gente poderíamos supor é que o campeonato ficaria sob suspeita, com a McLaren se afundando num lodo mal cheiroso que mais lembra o Congresso Nacional.

Em dado ponto do campeonato, o noticiário da Fórmula 1 foi invadido por nomes desconhecidos para a maioria do público, e nos pusemos a falar de Nigel Stepney, Mike Coughlan, e de sabotagem e de espionagem. Meio no afogadilho, a FIA julgou a McLaren, que teria recebido segredos de um funcionário da Ferrari. O tal Stepney. Paradoxalmente, a entidade considerou a McLaren culpada, mas não a puniu. A Itália veio abaixo, como se de repente tivesse acabado todo o molho pomodoro do mundo. Ficou mal para a FIA, que deixou a coisa meio em banho Maria, dizendo para a McLaren colocar as barbas de molho. Se alguma evidência aparecesse, a equipe inglesa seria “convidada” a se explicar novamente.

Pois bem. Parece que novas evidências surgiram e, no próximo dia 13 de setembro, o destino da McLaren será selado. A ética clama pela exclusão da equipe do campeonato. Alguns apelam por justiça com os pilotos. Afinal, são esportistas, não fazem parte da politicagem, não é razoável que sejam punidos. Que seja excluída a McLaren, mas que se poupem os pilotos. Em nome do espetáculo, alguns chegam a torcer por nova porção de água fria na fervura. “O primeiro campeonato tão disputado em tantos anos... Vamos estragá-lo assim?”.

(Você aí, o do futuro, sabia que esse nome ao lado de 2007 tinha vivido um campeonato tão confuso? Agora, você não começa a achar que não é só um nome, ao lado de uma data?)

Por mais que anseie por um bom campeonato, disputado nas pistas, o que não tem acontecido de fato, não consigo imaginar uma punição para a equipe que não atinja os pilotos. Pois, ao que me consta, nem Alonso nem Hamilton disputaram esse Mundial a pé, pois não? É a bordo de dois McLaren que eles competem, ou não? O que fazemos? Agimos como Branca de Neve e varremos a sujeira para debaixo do tapete? Excluímos os sabotadores e espiões e entregamos o título para a ferida Ferrari?

Largada em Monza
Neste ponto, chego à conclusão de que o nome inscrito ao lado do ano de 2007 é de um campeão café-com-leite, aquele que não vale muito, aquele a quem se olha com indisfarçável desdém. Pois, se o campeão de 2007 for Alonso ou Hamilton, chegou ao título a bordo de um carro acusado de se locupletar dos segredos de um rival. Se for Massa ou Raikkonen, ganhou o título no tapetão, no tribunal, com justiça talvez, mas perdendo na pista. Nenhum dos quatro merecia um final de campeonato assim. Mas nada é à toa. Deve ser um castigo para a própria Fórmula 1, que se tornou um retrato do mundo globalizado ultracompetitivo onde vale qualquer coisa para ter vantagem sobre o concorrente. Até roubar segredos industriais.

No fim, 2007 será só um nome.

Alessandra Alves

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