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Nação Peter Pan 13.04.07


“Sim, eu cometi um erro.” A frase de Felipe Massa, comentando sua tentativa frustrada de ultrapassar Lewis Hamilton no GP da Malásia, foi a melhor estratégia para encerrar a discussão. Uma reação de macho. Declaração pública com esse teor eu não via desde que a ginasta brasileira Daiane dos Santos fez água na prova de solo, sua especialidade, durante a Olimpíada de Atenas, em 2004. Ela encarou os jornalistas e, com duas palavras, justificou o fracasso: “Eu errei.” Essa é das minhas.

Massa, antes da tentativa frustrada de passar Hamilton
Claro que o fato de Massa assumir o erro não resolve todos os seus problemas. O brasileiro chega ao Bahrein para a terceira temporada com a espada sobre a cabeça, lutando para se recuperar no campeonato, reafirmar-se dentro da equipe e, o que me parece mais difícil, desafiar a má sorte que o fez despencar da condição de favorito ao título, na voz de nove entre dez personalidades da Fórmula 1, antes da abertura da temporada, para franco atirador depois de apenas duas corridas.

As pedras estão rolando e ainda há muito do campeonato a se disputar. Como disse aqui no final da temporada de 2006 e reafirmei no início desta, continuo achando Fernando Alonso favorito ao título, mas não considero que a toalha esteja no chão para Felipe Massa. No entanto, não é de previsões que se trata esta coluna. Quero voltar à atitude do brasileiro depois do infortúnio e dizer por que considero sua postura uma evolução em relação a situações do passado recente e até mesmo a quebra de um conceito social dominante.

No sábado, depois de obter a pole position, Felipe aparentemente retomou a condição de postulante incontestável ao título, pelo menos na fala dos especialistas da imprensa. No instante em que fez a pole, Massa reassumiu o lugar conquistado nos testes de pré-temporada. O companheiro Kimi Raikkonen havia ganho a prova de abertura e Massa, naquele momento, de certa forma se equiparava, equilibrando o jogo na equipe, quiçá no campeonato.

Nas análises de véspera, o brasileiro voltou a ser o senhor das pistas. Entre a pole no último minuto e a largada da corrida, ouvi e li muitas considerações, quase todas aliviadas pelo fato de que o mau resultado na Austrália teria sido um acidente de percurso, seria superado na Malásia e, principalmente, que não tinha sido “culpa” de Massa o que aconteceu em Melbourne.

Nessa linha da justificativa veio a colocação do locutor da TV, sobre um suposto erro na relação de marchas no câmbio de Massa, provocado por um certo engenheiro da Ferrari, o que causou sua largada em último lugar na primeira corrida. Ninguém mais falou sobre isso, mas o locutor revestiu o dado com uma roupagem de informação privilegiada tão crível que era quase impossível resistir a ela. Assim colocadas as coisas, era inevitável acreditar que tudo estava em seu lugar e Massa, afinal, sairia da Malásia em empate técnico com Raikkonen.

Só que Felipe Massa não fez uma boa largada, sendo logo superado pelas McLaren de Alonso e Lewis Hamilton. Até aí, uma indecisão discutível, pano pra manga nas discussões – teria Massa errado ou não ao apagar das luzes vermelhas? No entanto, algumas voltas depois, o brasileiro suplantaria o suposto erro (ou não-erro) da largada, cometendo um erro incontestável na tentativa de ultrapassagem a Hamilton. Incontestável depois que ele saiu do carro e o assumiu, com uma dignidade de Daiane dos Santos.

Massa errou e assimiu o erro. Já não é uma evolução?
Enquanto os carros percorriam o circuito malaio e Massa ia tentando se recuperar, a transmissão da TV apressou-se em justificar a manobra desastrada de Felipe. Não ouço a narração da TV, tenho o hábito de acompanhar pela Rádio Bandeirantes, de São Paulo, mas os relatos de quem ouviu pela televisão são unânimes. Não se falou em “erro” do brasileiro até que ele, olimpicamente, colocou tudo em pratos limpos. “Sim, eu cometi um erro.”

O fato é que passamos os últimos anos ouvindo todo tipo de justificativa relacionada a maus desempenhos do principal piloto brasileiro na Fórmula 1. O mais recorrente era o privilégio concedido ao companheiro de equipe. Uma vítima, um brasileirinho lutando contra o mundo todo, eu, o vira-lata, o João ninguém, o coitadinho, pobre de mim, tenham pena de mim. De repente, alguém chega e simplesmente fala “eu errei”. E agora, o que fazemos com isso?

A atitude de Massa mudou a direção das discussões. Não se tratava mais de debater se ele tinha ou não errado, mas se sua decisão de ultrapassar foi ou não precipitada, se ele ainda tem chances de se recuperar no campeonato, se lhe faltou alguém, um Ross Brown que lhe soprasse no ouvido um “espera, vamos tentar passar no box”. A discussão evoluiu, saiu da baixa auto-estima para as maneiras e possibilidades de consertar o erro. Felipe mostrou-se um homem, não um bebê chorão, e talvez a comunidade da Fórmula 1 tenha se desacostumado dessa postura.

Ainda no sábado, na euforia pela pole, ouvi um locutor de rádio louvar o sucesso precoce de Felipe Massa. Espera. Vamos fazer as contas? Massa fez sua estréia na Fórmula 1 em 2002, pela Sauber. Foi piloto de testes da Ferrari em 2003, reassumiu o cockpit da Sauber em 2004 e 2005 e tornou-se piloto titular da Ferrari em 2006. Estamos falando, portanto, da sexta temporada de Massa na categoria.

Em sua sexta temporada, Ayrton Senna era campeão mundial, lutando pelo bi. Em sua sexta temporada completa, Nelson Piquet era bicampeão mundial. Em sua sexta temporada na Fórmula 1, Emerson Fittipaldi era bicampeão mundial e já tinha criado sua própria equipe. Isso não quer dizer que Massa esteja devendo qualquer coisa à torcida brasileira. Quer dizer, antes de tudo, que não achávamos Emerson, Piquet e Senna jovens demais nem louvávamos o fato de terem conseguido resultados tão expressivos em tão pouco tempo. Era uma situação natural. Outros tempos? Sem dúvida.

De favorito ao título a franco atirador, em apenas duas provas
Tempos em que um homem de 28, 29 anos era um homem, não um garoto, como muitos que vejo hoje, nesta idade avançada, morando e sendo sustentados pelos pais, tentando cursar sua terceira faculdade, porque “não se encontraram” nas duas primeiras, tendo como máxima preocupação agendar a próxima balada e chamando os pais de seus amigos de “tio”. Acho que, nestes tempos, a sociedade está infantilizando os jovens, justificando demais seus erros, talvez até numa tentativa obviamente frustrada de se rejuvenescer. Enquanto supomos nossos filhos crianças, ainda que tenham barba na cara, ficamos mais jovens também.

Não sei em que medida esse tipo de comportamento replica-se em outros países e sociedades, mas o Brasil parece uma presa fácil para ele. Atravessamos décadas com a certeza de que éramos “o país do futuro”. Vários futuros já chegaram e a promessa não se cumpriu. Parecemos dependentes da esperança de que, quando virarmos gente grande, seremos uma grande nação. Enquanto isso, vamos vivendo essa síndrome de Peter Pan, aprisionados em uma juventude inconseqüente, justificando nossos erros como contingências da pouca idade, coitadinhos, vira-latas, pobres de nós.

Talvez a tentativa de justificar o erro de nossos heróis esportistas e de supô-los mais jovens do que são tenha raiz nesse desalento social. Ainda bem que alguns homens, como Felipe Massa, estão atentos para não cair na armadilha. Que ele tenha melhor sorte e não cometa erros no Bahrein. Porque os homens sabem: a Fórmula 1 não comporta erros.

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