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Pais, padrinhos e padrastos 26.03.07


Ao fim e ao cabo, são as cabeças por baixo dos capacetes que ganham ou perdem corridas e campeonatos. Porque, afinal, são as cabeças por baixo dos capacetes que comandam a tangência nas curvas, o momento de pisar no freio, o ponto para ultrapassar. E são essas mesmas cabeças que, no fim das contas, cruzam a linha de chegada em primeiro, ou saem da pista, ou têm o motor estourado, ou ficam sem câmbio, ainda que a causa de sua felicidade ou infortúnio não seja produto só de sua vontade, ou de sua habilidade. Por trás das cabeças por baixo dos capacetes, há as cabeças desnudas que podem não pilotar, mas dirigem.

A prova de abertura do Mundial 2007, na Austrália, foi um tanto enfadonha, mas acabou sendo significativa quanto à relevância dos chefes das principais equipes. O resumo para três deles poderia ser assim:

O francês Jean Todt, da Ferrari, ficou com aquela cara inchada de “este é o meu garoto”, ao ver Kimi Raikkonen fazer barba, cabelo e bigode em Melbourne.

Ron Dennis, da McLaren-Mercedes, o patriarca com o burro na sombra: Fernando Alonso em segundo, Lewis “Sensação” Hamilton em terceiro.

Flavio Briatore, da Renault, feito o pai que vai ao distrito buscar o filho pilhado em flagrante e ajuda o doutor delegado no sermão ao moleque, no caso, Heikki Kovalainen.

Papai Todt e padrasto Briatore: que método será o melhor?
Todos, no entanto, merecem mais que o resumo, pela riqueza de significados que seus gestos encerram. Começando pelo fim, pelo decantado italiano poderoso chefão da Renault. Ai, ai... Dediquei uma coluna inteira a Flavio Briatore há tão pouco tempo que fico até sem jeito de tornar a ele. Vai parecer obsessão, mas ele não me ajuda a esquecê-lo!

A maneira como ele jogou Kovalainen na fogueira é tão direta, sem rodeios ou direito à apelação que fica parecendo aquelas pistas óbvias demais em filmes B de espionagem. Por que um chefe de equipe quereria queimar seu suposto pupilo assim, na primeira corrida? Afinal, se é certo que a telemetria não mente, como ele apontou logo depois da prova, que os erros de Kovailanen não comportam justificativas, cazzo!, quem falou em telemetria foi ele, porca miséria! Ele, o chefe de equipe, que poderia ter encerrado a conversa com um “o bambino estava nervoso, vai melhorar”, mas preferiu apagar o incêndio da desastrosa estréia do finlandês com gasolina.

A especulação corrente acerca da Renault versa sobre o desejo incontido de Briatore em promover logo Nelsinho Piquet a piloto da equipe, deixando a sombra da função de piloto de testes. Que seja. Dizem, também, que ele, o grisalho de madeixas revoltas, estaria empenhado em agradar o presidente mundial da Renault, o brasileiro Carlos Goshn. Juntando uma coisa com a outra, não é improvável que Briatore esteja ansioso para promover o brasileiro nascido em Heidelberg, na Alemanha, e não hesitará em jogar Heikki ou o Bento XVI na fogueira para resolver a questão.

Mas...

Alguns gestos revelam a verdadeira natureza dos seres humanos. Tudo o que já se falou ou escreveu sobre Flavio Briatore revela um super-executivo, super-bem sucedido, super-workaholic que reza pela cartilha de que vencer é o fim, não importam os meios. Um modelo que virou programa-piada pelas mãos de Donald Trump e ganhou versão tropical com Roberto Justus. Há chefes – ou líderes, como se diz no jargão corporativo – que acreditam mesmo numa dose de humilhação pública como elixir motivador para comandados claudicantes. Não duvido que tenha sido essa a razão de Briatore para achincalhar Kovalainen em público. Como aquele pai-padrasto que deixa o filho mofar uma noite no xilindró, para aprender na dor como deixar de ser menino. E é fato que o playboyzinho amanhecido no xadrez, quando cola grau e discursa para a família, invariavelmente agradece ao pai pela lição recebida. E não duvidemos que Kovalainen junte as bolhas do sabão ouvido em público e faça delas o aditivo para uma apresentação de gala já em Sepang, semana que vem.

Ron Dennis, padrinho de Hamilton: uma bola dentro
Então, temos Ron Dennis, chefe da McLaren-Mercedes, que há anos busca retornar ao topo. Seus carros ainda não parecem aquelas máquinas de vencer dos tempos de Ayrton Senna ou de Mika Hakkinen, mas o velho (está bem acabado, não?) deu duas inegáveis bolas dentro. Contratou Fernando Alonso, o único campeão da categoria em atividade, e alçou o inglês Lewis Hamilton ao posto de titular, promovendo uma das mais ruidosas (no bom sentido) estréias da Fórmula 1 nos últimos tempos. Acho que estamos todos de acordo em não precipitar as análises sobre Hamilton, mas parece consenso o bom olho clínico de Ron Dennis que, afinal, descobriu o jovem inglês ainda no kart e apadrinhou desde então.

No entanto, uma dúvida do tipo “o ovo ou a galinha” ganha corpo na análise dessa relação. Será que Ron Dennis adivinhou um futuro campeão no imberbe Hamilton de anos atrás ou teria Hamilton se tornado um campeão potencial por conta do apoio recebido do ilustre padrinho? Alguns se apressarão em dizer que talento não se fabrica, mas a Fórmula 1 atual não é feita só de talentos brutos. Tornar-se um campeão é um processo que pressupõe, sim, o talento, mas acrescido da melhor preparação física, de uma consistente base psicológica, de um estudado projeto de construção de imagem. O suporte de Dennis parece fundamental para Hamilton, que inegavelmente tem talento, mas em certo momento vai precisar provar que não é só o queridinho do papai.

Raikkonen e Todt: uma vitória pessoal do francês
Por fim, o francês Todt. Se há filhos que ficam sem pais e assim se tornam órfãos, há pais que perdem filhos e ficam sem nem uma palavra para defini-los. Este foi Todt, do GP da Itália de 2006, data do anúncio da aposentadoria de Schumacher, até a prova de abertura do Mundial de 2007, em Melbourne. Todt e a Ferrari têm hoje o melhor carro, mas estavam a pé sem o alemão. A fidelidade de Felipe Massa e seus ótimos tempos nos testes de inverno foram um alento para o coração enlutado do francês. A famiglia se mantinha forte e rija, apesar da falta da peça que foi, ao mesmo tempo, herdeiro e patriarca, líder e protegido, beneficiado e benfeitor. É voz corrente na Fórmula 1 que a Ferrari almejava Alonso, diante da inexorável aposentadoria do alemão. O espanhol já estava comprometido com a McLaren. Dizem que a aposta em Raikkonen foi do próprio Todt (com a benção de Schumacher?).

Daí que o triunfo do finlandês, com sobra, foi uma vitória tão nórdica quanto galesa, tão filial quanto paterna, tão de dentro do capacete quanto de fora dele. O semblante inchado do francês era o do pai que sempre acreditou no filho, não importa o que ele tenha feito, as enrascadas em que tenha se metido, o que se tenha falado dele. Faz bem acreditar que todo pai gosta do mesmo jeito de todo filho. E deve ser com isso que conta Felipe Massa, neste exato momento.

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