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Jogo de adivinhação 27.02.07


Há dois anos, na época do lançamento do livro “O Boto do Reno”, do jornalista Flavio Gomes, acompanhei-o como representante do selo GPTotal a uma gravação do programa “Linha de Chegada”, apresentado pelo comentarista Reginaldo Leme, no Sportv. Naquela ocasião, foram gravados dois programas, um que foi ao ar no mesmo dia, com a participação de Flavio, e outro a ser exibido dois dias depois, do qual participei. Neste segundo, estavam também o comentarista Lito Cavalcanti, atração fixa do “Linha de Chegada” na época, e os pilotos Lucas di Grassi e Allan Hellmeister.

Quase no fim da gravação, Reginaldo perguntou a todos, na mesa, que equipe era favorita ao título de 2005 da Fórmula 1. Foi uma lavada. Eu, os dois pilotos e o próprio Reginaldo cravamos na Ferrari, provavelmente baseados no memorável ano de 2004 vivido pela equipe italiana. Com Michael Schumacher campeão e Rubens Barrichello vice, a Ferrari esmagara a concorrência com um gosto talvez de vingança, já que todas as mudanças no regulamento, feitas a partir de 2003 para criar maior competitividade na categoria, na prática não abalaram em nada a superioridade dos italianos. De todos, só Lito apostou em outro time: disse que a Ferrari dominaria o começo da temporada, finalmente vencida pela McLaren.

Uma cena particularmente irônica foi a colocação do piloto Lucas di Grassi. O jovem se preparava para disputar sua primeira temporada na Fórmula 3 européia, chegando ao campeonato com consistente suporte da Renault. Na hora de dar seu palpite, di Grassi – já na época integrante do RDD, um programa da Renault européia para “lapidar” jovens pilotos – sorriu, entre jocoso e desconcertado, balançando a cabeça e dizendo “acho que vai dar Renault”, daí virando-se para Reginaldo, como se confessasse um segredo, arrematando: “aposto na Ferrari”.

Faria bem o promissor di Grassi se mantivesse a aposta no patrão. A Renault venceu as quatro primeiras provas, dominou a temporada, vencendo com Fernando Alonso o Mundial de Pilotos e terminando com o título de Construtores. A McLaren ficou com o vice de Construtores e a Ferrari, barbada daquela pré-temporada, segundo nós, os analistas, apenas com o terceiro lugar, nunca ameaçando a equipe francesa.

Por mais que pareça risível a situação, vista de hoje, havia lógica em nossas apostas e todos ali, principalmente Lito e Reginaldo, tinham acompanhado tudo o que se passara nos testes de janeiro e fevereiro. Portanto, informação era o que não faltava. Talvez aí more a dificuldade em se fazer previsão antes do começo real do campeonato.

Os tais testes de pré-temporada servem para muito pouco nesse exercício de futurologia. As equipes traçam seu próprio programa, cada uma interessada em desenvolver algum componente ou observar o desempenho do carro em uma determinada situação. Enquanto uns testam com pouco combustível, peso mínimo, outros simulam corridas. No final do dia, os resultados trazem os melhores tempos de cada piloto sem que haja, de fato, um parâmetro ideal de comparação. Isso tudo sem considerar um aspecto óbvio: o fato de que algumas equipes, notadamente as que têm mais potencial, “esconderem” o melhor de seus desempenhos para as corridas de verdade.

Mas nem o furo das previsões – e este relato é apenas um entre tantos – nem a ineficácia dos testes de inverno como apontadores de tendências parecem servir de justificativa para que cessem as previsões. Antes de começar o campeonato propriamente dito, todo ano começa o grande jogo de adivinhação em relação aos favoritos.

Minha aposta em 2007 começa repetindo o palpite do final de 2006: Alonso. Em que pese o espanhol estrear em nova equipe, o que sempre pode gerar dificuldades de adaptação, e mesmo em se tratando da McLaren, equipe que se manteve como a terceira força nos últimos mundiais, o binômio Alonso-McLaren me parece o de melhor potencial.

Alonso: o estreante parece ter um bom pacote na McLaren
A questão da adaptação não deve ser um problema. Na verdade, o temperamento do atual bicampeão parece estar em total sintonia com a sisudez de Ron Dennis e seu time. Sem ter conseguido vencer nenhuma prova em 2006, a McLaren dá pistas de ter feito um bom carro para o próximo mundial. Bem, isso é o que mostram os testes de inverno, apesar de alguns sucessivos problemas de quebras, tanto no carro de Alonso quanto no de Lewis Hamilton.

O estreante inglês, aliás, é outra fonte de sossego para Alonso. Campeão da GP2 em 2006, Hamilton deve fazer, em seu ano de estréia na Fórmula 1, um período de aprendizado. Ao que tudo indica, vai vestir a pele de segundo piloto com calma e devoção. Ele é apadrinhado de Ron Dennis há vários anos, não tem a espada sobre a cabeça para mostrar serviço logo na primeira temporada. Portanto, que não se espere uma luta fratricida na McLaren em 2007, o que se apresenta como outra vantagem de Alonso.

Lewis Hamilton: o inglês se manterá como um segundo piloto fiel?
Por outro lado, a Ferrari surge com dois pilotos em condições de brigar pela primazia na equipe. O brasileiro Felipe Massa exerceu em 2006 esse mesmo papel de segundo piloto agora destinado a Hamilton na McLaren, cativou a equipe e se credenciou à disputa pelo título em 2007. Terá como companheiro de equipe o veloz e pouco refinado Kimi Haikkonen, que não teve uma passagem lá muito memorável na McLaren. Está, na Fórmula 1, no momento do “é agora ou nunca”. Se, por um lado, a Ferrari mostra consistência como equipe – sua recuperação na segunda metade da temporada passada foi notável – por outro, a disputa interna pode dividir o favoritismo em dois, ajudando Alonso.


luta fratricida na Ferrari ?














A super-campeã dos dois anos anteriores, a Renault, neste momento dá a impressão de ter perdido toda a superioridade dos campeonatos de 2006 e 2007. Não exatamente por ter perdido seu principal piloto, mas por todo o pacote de 2007. O carro deste ano tem dado mostras de ser problemático e há duas verdades imutáveis na Fórmula 1. Uma é a de que nunca chove em Monza, durante o GP da Itália. A outra pode ser resumida em um dito popular – pau que nasce torto morre torto. Carro ruim nunca se emenda.

Mas a Renault ainda merece uma análise em relação aos pilotos. O brasileiro Nelsinho Piquet cumpre este ano como piloto de testes do time, naturalmente de olho em uma chance de estrear como titular na Fórmula 1 ainda em 2007. Quem caminha sobre a prancha, já com a pecha de decadente é o italiano Giancarlo Fisichella. Para promover Nelsinho ao lugar do italiano, Briatore precisaria arriscar-se a ficar com uma dupla de pilotos estreantes, já que completa o time o finlandês Heikki Kovalainen, outro debutante na categoria. Ficar com dois estreantes é algo só imaginável se a Renault estiver tão ruim que tenha jogado a toalha antes do fim do campeonato. E entregar os pontos é algo improvável para um time mantido por uma multinacional que investe pesado como a fábrica francesa.

Kubica, da BMW Sauber, a equipe que deve ser a terceira força do campeonato
Nestes testes de inverno, a zebra tem nome – BMW Sauber. Os bons tempos obtidos por Nick Heidfeld e Robert Kubica podem ser bolhas de sabão, frutos de carros leves, pouco combustível, temporais na pista para alemão ver. Mas não custa lembrar que, no ano passado, o time obteve dois pódios, um com Heidfeld e outro com Kubica, e uma evolução é algo plenamente aceitável nesse estágio, não sendo nenhum exagero apostar na BMW como a terceira força do novo campeonato.

O embate regional entre as japonesas Honda e Toyota não deve render grandes emoções para além do arquipélago. A Toyota continua fazendo carros ruins de doer e a Honda arrancou muito mais reclamações do que suspiros de Rubens Barrichello e James Button na pré-temporada. Barrichello que, por sinal, tem se mantido quase sempre atrás de Button nos testes, e isto é uma mera constatação.

Estes são meus lances no festival de palpites para 2007, a pouco menos de três semanas do início da temporada. Em 21 de outubro, quando mais uma vez o Brasil encerrar o campeonato, lembrem-me de presta contas. Sem medo, dei minha cara a tapa. Alguém mais se aventura?
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