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Homem primata 14.02.07

Nesses tempos de barbárie e desesperança, é custoso acreditar que o ser humano evolui. Parece que, em determinado ponto da História, a humanidade parou de acelerar rumo ao aperfeiçoamento moral e engatou marcha à ré, buscando o estado primitivo da lei da selva. Para não afundar no pântano do pessimismo, só mesmo se desprendendo do cotidiano e olhando a humanidade em perspectiva. Sim, evoluímos e inegavelmente superamos fases, deixando a barbárie como exceção.

Isso tudo para dizer que indivíduos como Flavio Briatore surgem para mim como etapas na evolução da espécie humana. Da mesma forma que o homo sapiens – o homem atual – é a única espécie remanescente da família dos hominídeos, um grupo da ordem dos primatas que deixou para trás o homo habilis, o homo erectus, o homo sapiens de Neandertal e de Cro-Magnon, talvez o futuro distante veja tipos como Briatore extintos, degraus superados da escalada humana na Terra.

O empresário de sucesso, o líder inspirador
Não que os antecessores do homo sapiens fossem especialmente maléficos. Foi parte do nosso processo evolutivo começar com longos e peludos braços, mandíbulas enormes, espinha dorsal arqueada e cérebro diminuto. Destroçávamos animais com as mãos e devorávamos suas entranhas cruas. E quem protagonizava essas cenas hoje dantescas com mais rapidez e eficiência era o grande bacana do pedaço. Devia amealhar a inveja de seus pares, a cobiça das fêmeas.

O que hoje surge como símbolo de prestígio talvez também seja visto como sinal de barbárie daqui alguns milhares de anos. O grande homem de negócios, fazedor de sucessos, vaidoso, que orgulhosamente diz não ter amigos, mas interesses, talvez seja o hominídeo extinto de amanhã. Esta, pelo menos, é a esperança de quem se toma de perplexidade diante de gestos e palavras calculados para alimentar essa habilidade de ser bem sucedido segundo esse modelo.

A mais recente incursão de Briatore no reino das frases polêmicas foi sobre seu ex-piloto, o bicampeão Fernando Alonso. A superioridade do espanhol sobre os demais concorrentes ao título, cada vez mais evidente, arrancou desdém do italiano, chefe da equipe Renault. “Ele é bom, mas não tanto quanto falam”. A colocação de Briatore pode ter múltiplas interpretações. A mais evidente é a que remete à fábula “A raposa e as uvas”. Salivando pelas frutas, mas incapaz de alcançá-las no galho alto, o animal desdenha – “estavam verdes mesmo...”. Reação imatura, como do amante preterido por outro que se põe a maldizer a ingrata que o abandonou.

Mas um executivo vitorioso como Briatore, um líder inspirador, um empreendedor versátil, um construtor de sucessos não há de ser tão infantil à toa. Por trás da frase desagradável do italiano esconde-se uma declaração de guerra psicológica. Velho conhecedor de Alonso, ele talvez imagine que a instigação seja suficiente para desestabilizar o espanhol. As definições acima (vitorioso, inspirador etc.) não partiram do nada. São as frases que se sucedem na home page do site de Flavio Briatore. Ele tem uma página na Internet para contar sua história, reproduzir reportagens e demais referências da imprensa à sua pessoa, apresentar seus múltiplos negócios e divulgar suas fotos. Só da temporada de 2006, o site contém 14 páginas, com 16 fotos cada. Naturalmente, ele está no centro de todas as imagens.

Burguês bem sucedido também gosta de nobreza: ao lado do rei da Espanha
Como coragem e braços fortes eram características essenciais aos primatas bem sucedidos, vaidade e auto-promoção compõem a cesta básica dos executivos vitoriosos (líderes inspiradores, empreendedores versáteis etc.). Antes de saber vender um produto, indivíduos dessa espécie sabem vender a si mesmos, o que é muito coerente. Para não parecer exagero, segue a tradução literal do texto relativo a 2006, na biografia publicada no site:

“Confirmando a superioridade demonstrada durante 2005, Flavio Briatore e a equipe Renault F1 tiveram um começo excepcional na temporada de 2006, vencendo cinco das sete corridas, conquistando nove pódios e um total de 91 pontos, de 126 possíveis.”

Assim mesmo – Flavio Briatore e a equipe Renault F1. Nada de Alonso, ganhador de quatro dessas provas, nem tampouco de Giancarlo Fisichella, que venceu uma. No anedotário futebolístico, há referências a técnicos tão auto-centrados que diriam, diante dos três resultados possíveis de uma partida, as seguintes variações de frases: “Eu venci”, “Nós empatamos”, “Vocês perderam”. Como em automobilismo não há empate, Briatore parece se contentar com duas delas, ou só com a primeira, posto que líderes inspiradores não se detêm nas derrotas.

A frase recente é apenas mais uma das ocorrências na longa folha corrida do italiano. Sua ligação com a Fórmula 1 começou em 1974, sem que ele ou o mundo soubesse. Foi nessa época que o jovem e dinâmico homem de negócios, então trabalhando na Bolsa de Valores de Milão, conheceu Luciano Benetton. Foi trabalhar para ele e, em 1977, levou a marca italiana para os Estados Unidos. Em 1983, a Benetton entrou para a Fórmula 1, como patrocinadora da Tyrrell. Em 1986, a empresa decidiu comprar uma equipe e se estabelecer como time na categoria, assumindo a Toleman. Briatore só assistiria sua primeira corrida de Fórmula 1, como convidado de Luciano, em 1988. No ano seguinte, aceitou o convite para ser diretor comercial da equipe.

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Foi em 1991 que Briatore assumiu o comando da Benetton. Na época, a dupla de pilotos era formada por Nelson Piquet e Roberto Moreno. No mesmo ano, Michael Schumacher surgiu na categoria, causando sensação na Jordan. Moreno definitivamente não fazia uma boa temporada e Briatore viu ali a chance de livrar-se de um veterano em má fase por um cintilante e promissor jovem piloto. Demitiu Moreno por fax, mas temendo a má repercussão da manobra, ofereceu uma contrapartida. Moreno alegaria algum problema físico para seu afastamento, Briatore lhe daria uma boa quantia de dinheiro. Só que Moreno não aceitou a simulação e contou a história como ela aconteceu.

O resto da saga é conhecido. Schumacher foi para a Benetton e conquistou o primeiro título – dele e da equipe – em 1994, chegando ao bi no ano seguinte. A repercussão negativa da manobra de Briatore ficou na base do “ao vencedor as batatas”. O tempo consolidou a impressão de que Briatore, o líder inspirador, estava certo em chutar o traseiro do brasileiro, alçando ao Olimpo da Fórmula 1 o maior vencedor de todos os tempos, ainda que aquele primeiro título tenha sido cercado de muitas desconfianças e pelo menos uma certeza – a do mecanismo de abastecimento irregular, que provocou um cinematográfico incêndio no carro de Jos Verstapen em uma das paradas do GP da Alemanha.

A mais recente das frases infelizes de Briatore não é novidade em sua biografia. O austríaco Gerhard Berger, em seu livro de memórias, relata um diálogo ríspido entre o chefe e seus dois pilotos na época – o próprio Berger e Jean Alesi. Distante de sua fase vencedora com Schumacher, Briatore teria feito críticas, usando palavras duras, para avaliar o desempenho dos dois, tal como se fosse um tosco treinador de boxe, que busca provocar seu lutador proferindo impropérios de toda a sorte, tentando reproduzir o ambiente hostil de um gueto, algo que normalmente impele o brutamontes a sair socando o que vê pela frente. Naquela vez, a tática de Briatore não teve o eco esperado. O fleumático Berger diz não ter mexido nenhum músculo da face para expressar concordância ou revolta, mas o irritadiço Alesi levantou-se da cadeira e sugeriu, alterado, que o chefe então lhe cancelasse o contrato. Briatore arrefeceu.

Em outra ocasião, 1997, o chefe foi à imprensa falar sobre a suposta decadência de Berger, afastado das corridas por uma inflamação dentária e se recuperando da morte recente do pai. Berger voltou na prova seguinte, fez pole e venceu a corrida, incontestavelmente, sem vontade de comemorar com o diretor. Foi a última vitória da equipe Benetton, depois comprada pela Renault.

A antiga parceria se foi. Agora, é desdenhar
Perder Alonso para a concorrência é, de certa forma, reeditar a perda de Schumacher. Não é apenas a perspectiva de ter pilotos mais fracos que desagrada Briatore. A relação com Alonso era mais do que chefe e subordinado. Durante alguns anos, Briatore também foi seu empresário. Hoje, não é mais uma coisa nem outra. Talvez a frase de Briatore seja só uma reedição da raposa e as uvas, ou talvez ele esteja usando a tática do treinador de boxe mais uma vez. O fazedor de sucessos, o executivo vitorioso, o líder inspirador deve saber o que o aguarda em 2007 e já tratou de dar o primeiro combate. Pode dar certo. Nesses tempos de lei da selva, quando o importante é vencer, ainda vale tudo.
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