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Uma fábula contemporânea 13.12.06
O desenho animado Carros, produção Pixar/Disney, certamente não entrará para a memória dos admiradores de corridas como “o Grand Prix do século 21”. Grand Prix, produzido há exatos quarenta anos, deve permanecer como o melhor filme de corrida de todos os tempos por uma combinação de fatores. Ainda que um diretor resolvesse refilmar Grand Prix nos tempos atuais, o resultado não seria o mesmo, simplesmente porque a Fórmula 1 não é a mesma. Mas a conversa não é sobre o mítico Grand Prix, sobre o qual muito já se falou aqui mesmo. Apesar de começar com um senão, vale a pena assistir Carros, recentemente lançado em DVD? Sim, vale.

Relâmpago McQueen, na disputa direta com The King e Chick


A sinopse resumida é a seguinte (quem não assistiu pode ler tranqüilo, não vou contar o final do filme): todos os personagens são carros, sendo o principal o jovem e impulsivo Relâmpago McQueen (Lightening McQueen, no original), um piloto que aspira a glória na Copa Pistão (Piston Cup), tendo como adversários diretos o lendário The King e o desonesto Chick Murphy. Cruzando os Estados Unidos para disputar a etapa final, McQueen acaba perdido em um vilarejo chamado Radiator Springs, no meio do nada, envolve-se em uma confusão, é preso e obrigado a passar algum tempo no local. Ali, entre tipos provincianos como o guincho Mate, a perua Filmore e o casal Flo e Ramon, revê sua conduta, encontra o amor na estonteante Sally e a amizade e termina, por assim dizer, se “humanizando”.

Para quem gosta de carros e de corridas, o filme é um prato cheio, a começar pelas muitas referências na criação dos personagens e no próprio enredo. A primeira impressão, no entanto, pode ser falsa: Relâmpago McQueen não é uma homenagem a Steve McQueen, ator e diretor apaixonado por corridas que perpetrou outro filme lendário sobre o tema, 24 Horas de Le Mans. O McQueen de Carros é homenagem a Glenn McQueen, um animador da Pixar morto em 2002. Ao contrário dos demais carros da história, facilmente identificáveis, McQueen não transporta para a tela nenhum modelo específico. Segundo o próprio estúdio, foi livremente inspirado em traços do Ford GT40 e dos Lolas de Nascar, chegando ao formato final, robusto e vermelho, um típico muscle car.

A população de Radiator Springs se reúne para julgar o forasteiroick


No entanto, vários outros pilotos e carros de corrida são referência para a composição dos personagens. The King é homenagem direta a Richard Petty, o lendário piloto de Nascar que inclusive dubla o Plymouth Superbird número 43 na história. O modelo, aliás, foi pilotado por Petty na “vida real”. O vilão Chick Murphy não carrega traços de nenhum piloto específico, mas em termos de carro não deixa dúvida: é um sedã Buick Regal 1986.

Uma das grandes sacadas do roteiro foi fazer de um Porsche Carrera 911, série 996, a gatinha do filme. A advogada Sally encanta McQueen assim que ele a vê, embora tenha sido a grande responsável por prendê-lo em Radiator Springs por mais tempo que ele gostaria, atrasando sua preparação para a corrida final. A idéia de colocar um Porsche como objeto de desejo masculino, transferindo essa atração para um “corpo” feminino, pode não ter sido a melhor saída para agradar as feministas, mas são impagáveis as cenas de Sally em câmera lenta, com uma cachoeira ao fundo, remetendo às passagens mais sensuais de atrizes de carne e osso em filmes “de verdade”. No original, Sally é dublada pela simpática Bonnie Hunt. Na versão em português, quem assume a voz do Porsche é a atriz Priscila Fantin.

A Porsche Carrera Sally, objeto de desejo


Outra referência óbvia é Doc Hudson, dublado no original por Paul Newman, habitué das pistas, fora das telas. O velho juiz de Radiator Springs, que esconde um passado misterioso e quer logo mandar McQueen para fora da cidade, dizendo que conhece muito bem “esse tipo, carros de corrida”, é um lendário Hudson Hornet 1951.

Doc Hudson, o Hudson Hornett 1951


Muitas são as referências ao universo das corridas, especialmente a Nascar, provavelmente a categoria mais popular nos Estados Unidos. O nome do campeonato, Piston Cup, remete a Winston Cup, denominação da disputa principal da Nascar, até 2003. O patrocinador do piloto The King, a rede de postos Dinoco, lembra a marca Sunoco, petrolífera patrocinadora tradicional de corridas nos Estados Unidos.

Dois dos personagens mais cativantes do filme, os pequenos Luigi e Guido, são fãs da Ferrari. Luigi, um Fiat 500, é dono da loja de pneus de Radiator Springs. Luigi, seu funcionário, uma empilhadeira com traços de Romisetta, sonha em trabalhar em corridas. O dia de glória na vida de Guido acontece quando a cidade vira point turístico e ele recebe uma Ferrari de verdade em sua loja. No original, o carro italiano foi dublado por Michael Schumacher. Além do alemão e de Petty, a versão em inglês também conta com as vozes de Mario Andretti e Dale Earnheart Jr., filho do lendário heptacampeão de Nascar.

Menos relacionados às corridas, surgem outros personagens divertidos, como Filmore, a Kombi 1960, bicho-grilo, com pintura psicodélica, entusiasta de seu combustível orgânico. O casal Flo e Ramon também esbanja simpatia. Ele, um Chevy Impala 1959, é o rei do tuning da cidade. Ela, um modelo inspirado nos projetos dos anos 50, charmosíssima com sua traseira rabo-de-peixe, é dona do Café V-8, o ponto de encontro da cidade.

Se o resumo já foi suficiente para você se animar a ver o DVD, talvez faltem argumentos para acompanhantes que eventualmente não sejam admiradores de carros e corridas. Aqui vão eles. Carros é um filme com a chancela Disney e carrega todos aqueles conceitos edificantes que o estúdio gosta de incutir na mente de nossas crianças. Isso não o torna menos envolvente e até comovente. O envolvimento de McQueen com os habitantes da pequena Radiator Springs torna o jovem, impulsivo, solitário e arrogante carro de corrida em alguém mais solidário, que respeita a experiência, valoriza a amizade e cultiva melhor as coisas simples da vida. Assistir à transformação de McQueen independe de gostar ou não carros e de corridas.

Outro atributo indiscutível do filme é a reflexão quanto à marcha desenfreada do progresso sobre as tradições culturais. Ao focar o meio-oeste dos Estados Unidos, o divertido desenho se debruça sobre a construção da estrada Interestadual 40, que determinou a decadência de algumas regiões, antes cruzadas pela mítica Route 66. Não é provável que um filme como Carros seja capaz de reverter a situação, mas não deixa de ser importante introduzir nas mentes jovens a idéia de que não é preciso destruir o velho para construir o novo. As cenas dos velhos habitantes de Radiator Springs recordando os dias de prestígio da cidade são verdadeiramente tocantes e também passam ao largo de ser ou não ser fã de corrida.

Nesta minha última coluna de 2006, agradeço aos leitores do GPTotal pela companhia em mais este ano e desejo a todos Boas Festas. Até 2007!
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