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Dom Fernando I 16.11.06
Alonso às vésperas do GP Brasil
A conquista do título de 2006 pelo espanhol Fernando Alonso foi o que de melhor poderia ter acontecido para a Fórmula 1 nesta temporada. Ainda que a reação de Michael Schumacher, a partir do meio do campeonato, tenha temperado um certame que parecia fácil para Alonso e a Renault, levando a decisão até a última corrida, uma eventual vitória do alemão seria um anti-clímax para a categoria. Poderia sobrar na boca da audiência o gosto do vazio: Schumacher conquistando seu oitavo título e abandonando a carreira em seguida seria o soberano de todos os tempos, o que viesse dali para frente seria mero preenchimento de uma lacuna.

Mas não foi. Schumacher foi vencido, duas vezes seguidas, por um piloto consistente, determinado, astuto, maduro além, claro, de talentoso. Schumacher pode até atravessar os anos de sua aposentadoria tendo a certeza de que “se não fosse o motor quebrado em Suzuka”, ou “se não fosse a má posição de largada no Brasil”, ou ainda “se não fosse o pneu furado no começo da prova de Interlagos”, ele poderia ter chegado a seu oitavo título. Pode reduzir a derrota à soma de pequenos lances de falta de sorte, mas a questão inequívoca é que Alonso consagrou-se bicampeão no ano da aposentadoria do alemão, o que pode ser mais que um simples fato, mas o marco de uma nova era, de um novo reinado na categoria.

Ao conquistar seus dois primeiros títulos tendo Schumacher como oponente, Alonso marca seu nome na história como o único piloto de sua geração a ter vencido o até agora maior vencedor de todos os tempos. Tal marca já seria suficiente para colocar o espanhol um degrau acima da concorrência, mas ela não é o fator principal para que se aposte em Alonso como favorito ao título de 2007, como já tem acontecido em algumas publicações especializadas. O que parece determinante para manter Alonso no topo da lista é a circunstância geral da categoria.

Sim, Alonso estréia em uma nova equipe, o que poderia significar um período de adaptação distante da seqüência de vitórias que acompanhou o espanhol em 2005 e 2006. Só que a equipe em questão é a McLaren, que vale uma análise ampliada. Se, por um lado, o time tem colecionado anos menos afortunados neste século do que foram suas temporadas vitoriosas no final da década de 80 e ao longo dos anos 90, também é fato que mesmo a distância dos títulos não foi suficiente para modificar o status de equipe grande que a McLaren ostenta até hoje.

Ao contrário de contemporâneos que alçaram fama na Fórmula 1 sob o modelo “garagista”, e acabaram sucumbindo à força das grandes corporações, a McLaren soube jogar as novas regras do jogo, associando-se a uma grande montadora, no caso a alemã Mercedes-Benz. Teve temporadas difíceis entre 2003 e 2005, com quebras sucessivas. Projetos ruins no nascedouro e falta de confiabilidade do equipamento não puderam ser minimizados com um trabalho paciente de desenvolvimento ao longo das temporadas.

Kimi e Massa se encontram em São Paulo
Não quer dizer que os pilotos tenham sido ruins. Na maior parte desse período, pilotaram para a equipe de Woking o finlandês Kimi Raikkonen e o colombiano Juan Pablo Montoya. Nenhum dos dois demonstrou capacidade de reverter os maus momentos e as razões parecem tão numerosas quanto desconhecidas. A história pode vir a registrar que a McLaren desse período não deu certo porque foi pilotada por um nórdico mais interessado em vodca que em volante e por um chicano americanizado mais afeito a hambúrgueres que a treinos, mas quem sabe, de fato, o que se passava nos domínios da McLaren? Pode ter sido isso, mas também pode ser sido uma daquelas conjunções que simplesmente não dão certo, mesmo tendo uma equipe poderosa, rios de dinheiro correndo, chefes competentes e pilotos talentosos. Não rolou.

Já em 2006, o time de Ron Dennis só não pontuou no GP dos Estados Unidos, mostrando que se não ameaçou os líderes do campeonato, pelo menos reverteu a questão da confiabilidade. A McLaren entra em 2007 vitaminada pelos recursos de dois novos e fortes patrocinadores – Vodafone e Banco Santander. Não por acaso, naturalmente, entra uma empresa espanhola a patrocinar o maior astro do automobilismo espanhol de todos os tempos. Alonso mostrou-se, ao longo dos anos, um piloto tão audacioso quanto inteligente, capaz de cumprir a estratégia de sua equipe de uma forma talvez mais comprometida que Raikkonen e Montoya fizeram enquanto estiveram na McLaren. O “pacote” de Ron Dennis, portanto, parece forte o suficiente para assegurar o reinado de Dom Fernando Alonso em busca do tri.

Antes que se levantem vozes acusatórias de eventual anti-nacionalismo, parece-me importante analisar brevemente a questão Felipe Massa. O brasileiro fez em 2006, provavelmente, a trajetória de maior ascensão na Fórmula 1 dos últimos tempos. Felipe começou um ano claudicante da Ferrari como segundo piloto assumido. A equipe italiana estava em franca desvantagem na relação com a Renault e, nesse universo de vacas magras, todas as atenções eram de Schumacher. A partir da metade da temporada, quando o desempenho da Ferrari começou a melhorar, também cresceu o status de Felipe na equipe e, melhor ainda, na categoria.
Montoya seguido por Fisichella em Nurburgring
O bom e rápido piloto mostrou-se um companheiro eficiente e comprometido no trabalho de equipe. Dentro da pista, foi dando provas de amadurecimento, superando o período de altos e baixos que parecia persegui-lo no começo do ano. A favor de Felipe, para a temporada de 2007, dois fatores importantes: o fato de ele ser o único dos pilotos de equipe de ponta a permanecer na mesma posição e a inegável simpatia que toda a estrutura ferrarista parece nutrir pelo brasileiro. Por que, então, coloco Alonso como favorito e não Massa?

A questão está nas equipes de ambos, e não exclusivamente em sua capacidade de pilotar, ainda que na questão pilotagem Alonso me pareça mais maduro e constante que Felipe, na média. Mas o que dá o favoritismo para Alonso não é a aposta na McLaren, mas o prenúncio de queda da Ferrari. A aposentadoria de Schumacher não foi o único marco de 2006 na equipe italiana. Também saíram Jean Todt, que se mantém na empresa, mas como chefão da marca, da fábrica de carros míticos, afastando-se gradualmente das pistas de corrida, o estrategista Ross Brawn e o “motorista” Paolo Martinelli, responsável pelo propulsores ferraristas nesses anos de glória. Mal comparando, seria como um time de futebol perder o técnico, o auxiliar técnico, o preparador físico, além do artilheiro. Difícil saber como a Ferrari vai se portar diante de tantas mudanças, por isso a incógnita cerca Felipe.

Se a consolidação da era Alonso parece um fato, há que se registrar uma seqüência de notícias que denotam, pelo menos no momento, que o espírito reinante na Fórmula 1 hoje talvez seja diferente do de anos atrás. Recém-contratado pela McLaren, arrastando patrocinadores de vulto, bicampeão e celebridade mundial, Alonso achou por bem dizer que não vai perseguir os recordes de Michael Schumacher, que almeja mesmo é ser tricampeão como foram Senna e outros, sem a obsessão de prolongar a carreira por década e meia, como fez o alemão. A McLaren, claro, estrilou e o espanhol disse que não era bem assim. Como vai dizer que quer ser só tri, se tem contrato até 2009? Remendou, mas até aí já tinha falado. Pode ter falado, também, apenas para tirar o peso dos ombros: não me cobrem ser melhor que o alemão, não estou atrás disso.

Mal assentada a poeira do disse-não disse do espanhol, vem o sucessor de Schumacher na Ferrari, o finlandêns Raikkonen, dizer que não vai esquentar a cadeira muito tempo no time italiano, nem na Fórmula 1. Kimi disse que o contrato com a Ferrari deve ser seu último na categoria, num rasgo de falta de ambição que só pode prenunciar duas coisas: ou esses jovens ases têm interesses muito diferentes do que acostumamos a enxergar nos grandes campeões ou eles dissimulam muito bem.
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