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| » » » 18.10.06 |
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| O diabo veste vermelho |
18.10.06 |
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O perigo maior de se lidar com o diabo é sua dissimulação. Quanto mais inofensivo parece, maior risco oferece. O diabo conta com a distração da vítima, com o coração puro dos incautos, que eventualmente acreditam em sua mudança de índole. O diabo finge entregar os pontos, faz-se de vencido, sorri resignado em público. Recolhe-se em sua noite íntima eterna, organiza os pensamentos, esfrega as mãos, afia os dentes. Amanhece longe do cenário da batalha perdida, no dia seguinte, e enquanto todos empacotam seus pertences para seguir do oriente ao sul, ele cruza os céus em direção ao norte. Parece ter perdido o rumo: enganam-se. Apenas busca munição.
Quando Michael Schumacher abandonou o GP do Japão, a dezesseis voltas do final, e chegou ao box da Ferrari com semblante derrotado, o mundo entregou os louros da vitória a Fernando Alonso. A improvável quebra do motor italiano reverteu toda a vantagem, que era de Schumahcher, em favor do espanhol da Renault. Até a quebra, todo o favoritismo repousava nos ombros do alemão, que poderia ter saído campeão da corrida nipônica, mas tudo mudou. Ao vencer a prova e ver o adversário abandonando, Alonso ficou a um mísero ponto de seu bicampeonato.
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| O touro reagiu e deu uma banana para a pressão psicológica |
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É tão pouco, tão ínfimo, tão insignificante o desafio à frente do espanhol que a lógica torna-se irrefutável. Ele vai ser campeão, é impossível que não seja, é tão certo quanto certa é a queda do Santa Cruz para a segunda divisão. Schumacher precisa vencer e Alonso não pode pontuar para que tal previsão não se confirme. Schumacher não depende só dele, de vencer, depende de Alonso não chegar nem ao menos em oitavo. Ele, Alonso, que tão pouco quebrou neste ano, que há de levar o carro "nas pontas dos dedos", suave e sereno pelas curvas de Interlagos. Alonso, bicampeão. Foi isso que Schumacher disse ao fim da corrida, em Suzuka. Jogou a toalha, entregou os pontos, rendeu-se, sucumbiu. Alonso só depende de um oitavo, a menos que não termine.
A menos que seu carro quebre de novo.
A menos que seja abalroado no meio de uma curva.
A menos que seja espremido no S do Senna.
A menos que tenha um adversário ensandecido em seu encalço, voltas a fio, disposto a tudo.
A menos que a pressão do segundo colocado o faça perder o prumo na Junção.
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| Ao abandonar no Japão, Schumacher jogou o peso nos ombros de Alonso |
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Ao jogar a toalha, o diabo jogou o peso do mundo nos ombros de Alonso.
Só que, do outro lado do embate, Schumacher não tem um anjo imaculado de pureza. Tem um campeão mundial algo ciclotímico que comemora vitórias jogando beijinhos com as pontas dos dedos, depois bradando feito primata com braços de muque ameaçador. Um touro antes acuado que revidou ao vermelho do pano e chifrou o toureiro cruel quase para fora da arena. Um vencedor que, por definição, não haveria de ser ingênuo, ou não seria campeão.
Ao lado do espanhol indômito, Schumacher vislumbra um antigo colaborador das trevas. No comando da Renault, Flavio Briatore pós-graduou-se em táticas de guerrilha, testadas na década passada sob as marcas de Benetton e... Schumacher. Não foi de outra forma que a dupla piloto-chefe de equipe articulou vitórias e títulos no passado. Artimanhas ilegais nos carros, pressão psicológica, condutas anti-desportivas. Briatore conhece a receita, Alonso não é ingênuo. Por aí, pela pressão, não vai rolar.
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| Alonso vence, manda beijinhos e um recado para o alemão: "Comigo, não!" |
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Tanto que o espanhol soltou beijinhos, mostrou o muque, levantou o troféu, estourou champanhe, ouviu as declarações do adversário e disse não, obrigado. Tiro esse monstro de cima de mim. O campeonato não acabou coisa nenhuma. Para muito além do excesso de modéstia, a reação de Alonso foi um recado. A mim você não pega desprevenido, Coisa Ruim.
Se a guerrilha psicológica parece pouco eficaz com o espanhol, sempre há o último recurso. Manobras ilícitas são um risco duplo, mas, que diabo!, alguém duvida que Schumacher possa incorrer em uma delas? Pois se já usou no passado, o que o impediria no domingo próximo? Não fez isso em 1994, levando o título desse jeito em cima de Damon Hill? Não tentou o mesmo em 1997, sem sucesso, contra Jacques Villeneuve?
Enquanto a maioria das equipes se preocupava em empacotar a tralha toda e vir para o Brasil, Schumacher e a Ferrari foram para Jerez e o alemão gastou gasolina como se a Arábia Saudita fosse secar no dia seguinte, provando que sua obstinação em ser campeão deve manter-se intacta até o último milésimo de segundo da última volta. Como faria isso? Confiando no divino motor da Ferrari? No divino improvável da queda de Alonso? No Divino?
Ah, a maldade do mundo, quanto nos envenena o coração!
Talvez haja sinceridade na resignação de Schumacher. Talvez, ao contrário de alguns, ele seja mesmo um resignado sincero, que não se porta com a pequenez da raposa da fábula, desdenhando das uvas que tanto quer e sempre há de querer. Talvez ele queira mesmo só coroar a equipe com o título de campeã dos Construtores, porque, sei lá, gosta mesmo muito do time, e se orgulha dos meninos e quer lhes dá esse presente. Talvez ele tenha mesmo mudado e o diabo more apenas em um cantinho escuro e detestável do coração dos homens e mulheres que já viram muito neste mundo de Deus.
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