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| » » » 04.10.06 |
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O atual detentor da coroa começou a disputa com larga vantagem. Ao longo do processo, sua superioridade mostrava-se tanta que até o oponente mais direto parecia entregar os pontos. No entanto, sua equipe não colaborou. Talvez em clima de favoritismo, vislumbrando uma vitória fácil e antecipada, meteu os pés pelas mãos. Na reta final, o adversário ganhou fôlego novo e levou a disputa para os últimos instantes, revertendo o quadro a seu favor.
Lula ou Fernando Alonso? Geraldo Alckmin ou Michael Schumacher? Na vida, como nas pistas, às vezes se vence apertado, vendo o adversário aproximar-se perigosamente, ou se vence de virada, revertendo uma situação que antes parecia totalmente contrária. A coincidência entre política e esporte não termina aí. Nos dois casos - da eleição presidencial, no Brasil, e da decisão do título de 2006, na Fórmula 1 - há outro componente vital agora pendendo a balança em favor dos desafiantes: o momento psicológico.
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| A alegria de Schumacher e a cara de azia de Alonso |
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Vejamos as situações distintas de Fernando Alonso e de Michael Schumacher a dois turnos da decisão. A saber, os GPs do Japão, no próximo domingo, e do Brasil, em 22 de outubro. Alonso liderou o campeonato até o domingo passado, quando a vitória de Schumacher colocou o alemão com o mesmo número de pontos na classificação, mas assumindo o primeiro lugar em função do maior número de vitórias.
Alonso é o atual campeão e iniciou a temporada de 2006 com um carro que parecia de outro planeta na comparação com o resto do grid. A Renault não apenas era mais rápida, como largava feito ela só e ainda tinha a incomparável virtude de não quebrar - nunca! Alonso começou a disputa já se sabendo demissionário da equipe, com contrato assinado com a McLaren para 2007. O atual empregador, no início, parecia satisfeito com o funcionário exemplar que ganhava uma corrida atrás da outra e via o multi-campeão Schumacher vários pontos atrás na tabela. Mas, a hora do adeus se aproximando, pareceu que a equipe francesa começou a sentir aquela indisfarçável dorzinha de cotovelo. Era como arrumar a cama com lençóis de linho imaculadamente branco para a noiva virgem deitar-se com um forasteiro.
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| quando o inimigo mora em casa |
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Na metade da temporada, os ventos começaram a soprar em favor do alemão. No GP dos Estados Unidos, na mítica Indianápolis, o começo da reação de Schumacher. O alemão venceu e o espanhol sequer pódio conseguiu. A grande virada, não em termos numéricos, mas psicológicos, viria no GP da Itália, na não menos emblemática pista de Monza. Lá, Schumacher venceu, foi aclamado pela torcida ferrarista, anunciou sua aposentadoria para o final do ano e só não foi canonizado em vida porque o papa pode até ser alemão e o Vaticano pode até estar ali pertinho, mas os videoteipes das manobras pouco honestas do tedesco estão aí para nos lembrar de que se trata de um grande piloto, não de um santo redentor.
O GP da Itália teve outro ingrediente indispensável para a receita da virada de Schumacher: a punição a Alonso no grid de largada, caindo de quinto para décimo lugar, em função de uma manobra supostamente prejudicial a Felipe Massa, durante a classificação. O espanhol virou touro na tarde de sábado, protestou contra a punição e não se contentou com o desabafo. Distribuiu chifradas em todas as direções, chamando Schumacher de "o mais anti-desportivo" de todos os pilotos e desqualificando a própria categoria, rebaixada à condição de não-esporte em suas palavras de animal ferido.
A acidez do discurso de Alonso parece ter contribuído apenas para alimentar sua úlcera e a de todos os inimigos de Schumacher ao redor do mundo. Maus pensamentos, vibrações desfavoráveis, energia negativa, chame do que quiser - fato é que nada disso contribui para serenar a mente e fazê-la funcionar como aliada. Na prática, Schumacher venceu de maneira retumbante o GP da Itália e, contra todos os prognósticos, também o GP da China, arreganhando os dentes definitivamente e assumindo o papel de desafiante. Agora, Schumacher é o toureiro que cercou o touro.
Se Alonso mergulhou no pântano do baixo astral a partir da Itália e Schumacher, pelo contrário, absorveu toda o entusiasmo da massa enlouquecida em Monza, a situação só se agravou na China. A vitória do alemão em Xangai foi superlativa por vários aspectos. A Renault foi consistentemente melhor que a Ferrari em todos os treinos. A perspectiva sempre presente de chuva desenhava todas as boas perspectivas para a Michelin, que "calça" os Renault, em detrimento dos pneus Bridgestone da Ferrari. Alonso largou na pole, como não fazia desde o GP do Canadá, no meio do ano. Schumacher alinhou em sexto.
Ao contrário do que costuma acontecer nesta Fórmula 1 habitualmente sem confronto, a escalada de Schumacher rumo à vitória não se baseou na mera troca de posições possibilitadas pelas paradas no box. Schumacher ultrapassou os oponentes na pista, inclusive Alonso e seu companheiro Giancarlo Fisichella, coadjuvante em uma das manobras mais vexatórias dos últimos tempos. Sim, o italiano estava com pneus frios quando Schumacher o assediou, mas mesmo assim a facilidade do heptacampeão foi, no mínimo, surpreendente.
Ou causa surpresa ou - como está aventando Alonso - desconfiança. Já no Japão, para a corrida do próximo domingo, o espanhol continuou com a língua afiada e o estômago azedo, como informa o colega Fábio Seixas, na Folha de hoje. Deu para dizer, com todas as letras e para quem perguntar, que está sendo sabotado pela equipe. A Renault, segundo ele, não quer ver o número 1 na McLaren, ano que vem, já que o campeão da temporada sempre corre com esta distinção no campeonato seguinte. Cotovelos ardendo, a Renault estaria trabalhando contra seu próprio piloto, mais ou menos o que o PT anda fazendo, por má-fé, incompetência ou soberba, por seu candidato. Se o clima já não era bom entre piloto e equipe até chegar a Suzuka, o novo desabafo de Alonso também não é o bálsamo para todas as dores na Renault.
Como Lula, Alonso tem a máquina a seu favor, mas segue combalido e claudicante, desconfiado até a medula em relação àqueles que lhe são mais próximos. Para ambos, o inimigo íntimo parece mais perigoso que o adversário declarado. Como Alckmin, Schumacher encara o final da disputa com alma renovada. Estaria o touro acuado, apenas esperando o golpe cruel do toureiro? Ou teria forças, o animal, para reagir e correr com o desafiante?
Nos dois casos, pelo fator psicológico, sou inclinada a acreditar na derrota dos touros. É possível que o campeonato se decida já neste final de semana, caso Schumacher vença e Alonso não marque nenhum ponto, mas o mais provável é que as duas touradas sejam decididas aqui mesmo, em terra brasilis. E, felizmente, no Brasil não existem touradas, essa crueldade que nos faz ter certeza de como o ser humano ainda precisa evoluir.
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