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| » » » 20.09.06 |
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| Um cockpit para Gandhi |
20.09.06 |
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| Schumi, Massa e a equipe Ferrari comemoram a vitória na Alemanha 06 |
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O momento em que o diretor de prova do próximo GP do Brasil mostrar a bandeira quadriculada para Michael Schumacher marcará a aposentadoria de várias entidades. Ao parar Schumacher, param o maior piloto de todos os tempos, o melhor piloto de todos os tempos, o mais anti-desportivo, o mito, a farsa, o maior recordista, o mais anti-ético, o mais competente, o mais sortudo, o mais ardiloso, o mais determinado, o mais antipático.
É isso que se pode apreender após a leitura das muitas reações suscitadas pelo anúncio do alemão, após o GP da Itália, no último dia 10 de setembro. Muitas dessas reações podem ser colhidas aqui mesmo no GPTotal, em nossa seção de cartas dos leitores e também nas colunas dos especialistas. Nunca tive apreço pelas discussões sobre o melhor de todos os tempos e me alinho com o colega Geraldo Tite Simões, que em sua mais recente intervenção, aqui no site, lembrou uma crônica antiga de um jornalista francês, sobre a inutilidade desse tipo de debate.
Um aspecto das manifestações, no entanto, chama minha atenção - aquele que discorre sobre a falta de ética e de caráter de Schumacher, especialmente naqueles que argumentam ser tal traço de personalidade um mal dos tempos contemporâneos, como se o passado fosse o paraíso perdido, ilustrado por esportistas canonizados pelo Vaticano.
Tenho um sentimento dúbio em relação a tal colocação. Por um lado, agita-se minha boa crença na ingenuidade humana e na pureza desses corações. É alentador sentir que a falta de caráter e de ética continue chocando homens adultos. É sinal de que conservamos conceitos de respeito e humanidade como regra de conduta. Mas não consigo deixar de enxergar nessa bondade extremada uma evidente miopia histórica.
Imaginar que o passado era melhor nesse sentido, acreditando que os campeões da Fórmula 1 de então afiguravam-se todos como cavalheiros honrados, parece-me enxergar os tempos idos sob o filtro da purificação post mortem. Depois de mortos, todos nos tornamos compreensíveis, justificam-se nossos atos e até nossas manias detestáveis sobrevivem como ecos de saudade. No entanto, há outro fator contribuindo para essa mistificação da Fórmula 1 do passado e ele me ficou muito evidente ao assistir ao making of do filme Grand Prix, recém-lançado em DVD.
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| Bruce McLaren aguarda a largada na Alemenha 68 |
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Em certo trecho, o jornalista inglês Peter Windson, ex-assessor de imprensa da equipe Williams, comenta o impacto que Grand Prix causou nos fanáticos por Fórmula 1 dos anos 60. Windsor diz que, ao mesclar personagens fictícios com pilotos de verdade, Grand Prix dava a esses fanáticos a chance de ver, pela primeira vez, o rosto de pilotos que eles só conheciam de nome, vendo apenas as fotos de seus carros publicadas em jornais e revistas, ocultando suas faces sob os capacetes. "Eu nunca tinha ouvido a voz de Bruce McLaren, ele tem uma fala em Grand Prix e aquilo foi marcante para mim!", recorda-se o jornalista.
Quarenta anos atrás, a época do lançamento do filme, as corridas de Fórmula 1 não passavam ao vivo para o mundo inteiro, poucos eram os jornalistas que acompanhavam todas as provas, o acesso à informação era incomensuravelmente menor que hoje. Não é exagero dizer que seus atores principais - os pilotos - eram ilustres desconhecidos, na medida que nem um aficionado do esporte, como Windsor na Inglaterra e todos os moleques amantes de corrida espalhados pelo mundo, sequer tinha ouvido a voz de seus ídolos.
Quanto mais saber se eles eram simpáticos ou grosseiros, se recebiam os jornalistas com alegria ou se regurgitavam frases ácidas em direção aos repórteres. Durante muito tempo, as corridas não eram sequer filmadas. Como ter certeza da lisura de todas as manobras em cada uma das curvas do velho Spa-Francorchamps ou afirmar categoricamente que nada de anti-desportivo aconteceu em um dos meandros de Clermont-Ferrand?
Nesses tempos, os relatos conhecidos eram de seus próprios agentes, ou seja, os pilotos. E cada um conta a história à sua maneira, sob sua ótica e em seu próprio benefício. Além disso, havia a morte sempre à espreita, levando vários pilotos por temporada, ampliando a dramaticidade da categoria, suavizando os defeitos dos defuntos, eternizando mitos.
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| Jackie Stewart levando seu Matra à vitória nos EUA 68 |
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À medida que a atenção da imprensa foi aumentando em relação à Fórmula 1, algumas máscaras foram caindo. Pegue reportagens do começo dos anos 1970 e veja, talvez horrorizado, a descrição de cenas desabonadoras do lorde Jackie Stewart, soltando grosserias contra colegas e repórteres. Leia testemunhos de mais de trinta anos e saiba que os campeões de antigamente eram capazes de reações destemperadas, de fazer e de se queixar de manobras desleais, de trocar de equipe em busca de melhores equipamentos, de lutar pelas vitórias e títulos como um predador faminto disputa uma presa com o inimigo.
Tal comportamento sempre existiu e se justifica pelo ambiente hostil que é próprio da competição. Muitas vezes, temos colocado o esporte e a guerra lado a lado, como se o primeiro fosse uma manifestação regrada do segundo. Enaltecemos nossos esportistas como bravos guerreiros e, por isso mesmo, devemos saber que os vencedores das guerras são condecorados por sua bravura e seu destemor, nunca por sua bondade e gentileza. São naturezas distintas. Supor que um grande campeão vá colocar os valores da ética antes do objetivo da vitória é esperar que o comandante da tropa compadeça-se da dor do inimigo atingido por uma de suas balas. Schumacher poderia vencer uma guerra comandando uma tropa. Mahatma Gandhi jamais seria um piloto campeão de Fórmula 1.
Ao longo dos anos, a Fórmula 1 tornou-se um esporte muito mais popular, visto pela TV ao vivo em todo o mundo e sua divulgação atingiu o nível dos detalhes. Vemos cada manobra em seus pormenores, assistimos aos bastidores dos pódios, cronometramos tudo, observamos cada gesto - nobre ou abjeto - de seus personagens. Esse acesso praticamente irrestrito ao fato, à notícia, espraia-se por outros níveis da vida social.
Atualmente, a transparência é maior e mais abrangente. Um homem público faz algo de errado hoje, em instantes isso já está na rede, o mundo inteiro fica sabendo, amanhã é capa dos jornais, depois de amanhã, derruba-se um governo. Uma modelo vai à praia e resolve tirar a roupa, supondo-se isolada do mundo, paparazzi nela, vai para a web. Esse é nosso mundo reality show: estamos todos nus diante das câmeras, quanto mais celebridades, ídolos como Schumacher e seus colegas de profissão. Se a voz de Bruce McLaren era um mistério para os fãs de Fórmula 1 dos anos 1960, hoje sabemos quase tudo da vida de todos eles.
Essa transparência nos coloca em contato com tudo de bom e ruim que acontece com a humanidade. Não posso aceitar que o mundo seja pior hoje do que no passado, quando eram aceitos crimes em nome da honra, legitimados processos de escravidão, subjugadas as mulheres, alijados da vida social os portadores de deficiências. O mundo era muito pior quando se encobriam crimes, humilhações, abusos de autoridade. Hoje, tais iniqüidades continuam existindo, mas talvez em menor grau, justamente porque estão à mostra. E por isso chocam.
Conhecer tudo de podre que Schumacher fez para conquistar seus recordes e títulos não o torna necessariamente pior do que seus antecessores do passado mais longínquo. Torna-o apenas mais conhecido.
Ainda citando o Tite, em sua última coluna ele descreveu o jornalista francês Johnny Rives como uma mistura de Alessandra Alves com Ico. Conversei com esse francês uma vez, por telefone, e nem me lembro de ter imaginado como era sua cara, mas desde a semana passada ele para mim é uma loira baixinha de cavanhaque!
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