Sessão Colunas
Escreva pra gente
Comente
13.11.08
Nossos leitores comentam o GP do Brasil
Nossos leitores comentam o GP da China
Opiniões e Dúvidas dos Leitores
21.11.08
Cartas - Segunda quinzena de Novembro
Cartas - Primeira quinzena de Novembro
Friends
21.11.2008
Motores diferentes
Kers: a nova polêmica da F1
Pergunte ao GPTotal
Julho
Um maluco, dois tristes
Sobre tamanhos e ultrapassagens
mais
12.11.08 - Carlos Chiesa
Adeus!
E se o Massa ganhar?
11.10.08 - Ernesto Rodrigues
Bate neles, Rubinho!
O bom e velho filme
mais
 
12.03.06
Confira a classificação
12.03.06
Pilotos e Equipes
mais
Home » Colunas » Alessandra Alves » 06.09.06
Aumente o tamanho das letras:
12 | 16 | 20
A cerimônia do adeus 06.09.06
Dizem que os elefantes têm a capacidade de pressentir a própria morte e que, quando sentem a foice da sinistra roçar-lhes o pescoço, logo se retiram da manada, não servindo de espetáculo mórbido para seus semelhantes. Mas os elefantes não se locomovem a 300 km/h nem atraem a imprensa internacional, e Michael Schumacher talvez os inveje nessa hora, em que até as zebras de Monza especulam sobre a aposentadoria do heptacampeão. Um pouco de privacidade talvez lhe fizesse bem no momento. Mas quem quer ser campeão de Fórmula 1 não pode sonhar com privacidade, que agüente elefantes, zebras e todas as cobras de seu habitat.

Stewart: o trauma de Cévert entrou para a história
A boataria em torno da decisão tem toda razão de ser. Se há fatos que justificam plenamente sua retirada, há outros, talvez em igual proporção, que legitimam a permanência. A única coisa que parece certa é a data para o mistério acabar - o próximo GP, na Itália, a ser disputado domingo vindouro.

Em favor da aposentadoria: uma carreira de realizações dificilmente alcançável por outros desafiantes; um patrimônio financeiro sólido o suficiente para garantir vida mansa a várias gerações; a certeza de que há pelo menos um piloto - Alonso - capaz de ofuscar sua soberania no braço, como aliás tem ocorrido seguidamente nos duelos entre os dois no atual campeonato e, ainda, uma suposta pressão familiar para deixar essa vida louca para trás.

Por outro lado, argumentos respeitáveis sustentam a permanência: Schumacher é o tipo de esportista ganancioso o bastante para não considerar nenhum recorde suficiente; o alemão tem 37 anos e uma condição física excelente, comprovada ao final de cada corrida, quando parece ter acabado de tomar um banho tépido e não de pilotar durante quase duas horas em uma fornalha; a atração irresistível do vil metal, que deve tilintar com força para mais um ano pela Ferrari.

Schumacher: vai ou fica?
A decisão de Schumacher interessa por vários motivos, a começar pelo fato de que sua permanência ou afastamento determina uma vaga numa das equipes de ponta da Fórmula 1. Interessaria menos se o atual campeão estivesse cumprindo tabela em uma equipe média, em um ocaso de carreira. O veredicto de Schumacher também atrai pela perspectiva de "equilíbrio" que sua ausência parece motivar. Disse perspectiva e coloquei equilíbrio entre aspas porque essa é a tese de muita gente que considera a Fórmula 1 atual sem graça pelo fato de Schumacher "não ter adversário". Nunca consegui entender essa tese como um desabono ao talento do alemão. Pela lógica, se a Fórmula 1 ficará mais equilibrada com sua saída, então estaríamos assumindo um nivelamento por baixo e aceitando que Schumacher é melhor que todos os outros.

Por mais frisson que a escolha de Schumacher possa provocar, nada disso é inédito. Campeões já se aposentaram. Aliás, a maioria se aposentou, pois felizmente poucos foram os que morreram no exercício da profissão (Ascari, Clark, Rindt e Senna). Mike Hawthorn foi campeão em 1958, aposentou-se ao final da temporada, sofreu um acidente de rua fatal um mês depois de deixar as pistas. Graham Hill morreu em um acidente aéreo, em 1975, quando já aposentado das pistas, mas ainda dono de equipe. Denis Hulme aposentou-se em 1974, voltou a correr no final dos anos 80 e, em 1992, sofreu um ataque cardíaco fulminante a bordo de um BMW. Morreu do coração, não do acidente.

Fangio: despedida em Reims, no meio da temporada
As modalidades de aposentadoria variaram bastante ao longo da história da Fórmula 1. O pentacampeão Juan-Manuel Fangio gostava de descrever o momento de sua decisão com toques poéticos. A veia dramática dos argentinos aflorava à beça nessas dissertações de Fangio, que localizava o momento preciso na longa reta de Reims, circuito francês. Teria sido ali, naquele extenso pedaço de chão, que o piloto se decidira a abandonar as pistas. Com milonga ou objetivamente, o fato é que decidiu mesmo, porque nem terminou aquele campeonato de 1958.

Outra parada que ganhou coloração traumática foi a do escocês Jackie Stewart, aposentado no final de 1973. Cristalizou-se no tempo a certeza de que Stewart jogou tudo para o alto após a morte do companheiro e amigo François Cévert. É e não é. A morte de Cévert chocou o mundo e muito mais quem convivia com aquele boa praça bonitão, mas o fato é que Stewart já cogitava a aposentadoria, tema principal das conversas entre ele, o próprio Cévert e o sueco Ronnie Peterson, em uma animada viagem turística a Bermudas, poucos dias antes do acidente fatal do francês, em Watkins Glen (EUA).

A maioria dos campeões mundiais, no entanto, programou sua aposentadoria, estimulados por razões diversas. Falta de entusiasmo para continuar perseguindo recordes, excesso de dinheiro no bolso, percepção de que outra geração já dominava o circuito, entre outras. Portanto, nada do que circunda Schumacher, neste momento capital de sua vida, é inédito na história da Fórmula 1.

Aliás, há pouquíssima originalidade na conduta do ser humano. Tentando abstrair-se um pouco da grandiosidade que cerca o tema - Fórmula 1, prestígio, fama, rios de dinheiro - o momento de Schumacher não é diferente dos momentos cruciais que todos enfrentamos em nossas próprias vidas. Quem não sentiu um aperto no peito no momento de colar grau, receber seu canudo e dar adeus à escola que freqüentou na infância e adolescência? Quem não percebeu, ao lado da alegria imensa, uma ponta de angústia ao dizer o sim ao padre ou ao juiz, notando que aquele era um momento de realização e também de ruptura, e portanto de apostas e incertezas?

Há alguns dias, o mundo assistiu comovido à despedida do tenista André Agassi das quadras. Repito o que disse ao ver as cenas do jogador emocionado diante da platéia que o aplaudia de pé. Por mais que ele tenha se preparado para aquele momento, por mais milionário que esteja, é legítimo dizer que, naquele instante, Agassi gozava de uma alegria triste, essa mistura de sentimentos que marca os ritos de passagem. Por mais que sejam alvissareiros os momentos que se avizinham, por melhor que seja a perspectiva do futuro, é sempre muito difícil levantar a âncora do passado. Romper, terminar, colocar um ponto final nunca é fácil, mas é o que move a vida e, em dadas circunstâncias, é a única coisa a se fazer.

Se nem os especialistas que seguem o campeonato da Fórmula 1 têm se arriscado em palpites quanto ao futuro de Schumacher, não serei eu a fazê-lo. Mas, confesso: enfrentar a aposentadoria do alemão uma semana depois do adeus de Agassi vai me deixar com uma sensação desagradável de ter envelhecido uma geração inteira em sete dias. E nem tenho a conta bancária deles para me consolar.

 Leia mais colunas de Alessandra | Envie a coluna para um amigo | Voltar
anuncie | quem somos Apoio: Interactive Fan  |  Red Cube Tecnologia e Comunicação