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| » » » 12.07.06 |
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A expressão "o circo da Fórmula 1", pela lógica, parece ter nascido da dinâmica da categoria, que segue armando e desarmando suas tendas de tempos em tempos, cada vez em um canto diferente, tal como circos fazem. Desde que alguém sacou essa feliz analogia de algum bolso do colete, trocadilhos e piadas infames brotaram à mancheia, quase sempre fazendo referência aos palhaços, esses seres híbridos, entre a idiotice e a face assustadora de todo mascarado.
A Fórmula 1 manteve sua logística circense, ao mesmo tempo que se tornava um negócio de proporções descomunais e que os circos, em si, viravam quase uma bruma do passado. Permeia nas corridas, ainda, o tom de farsa, quer dos palhaços que não são quem parecem ser, ou dos mágicos que iludem a platéia com seus números eventualmente risíveis.
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| Pelo existencialismo, o inferno são os outros |
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Não, amigos, não estou chamando o piloto colombiano Juan Pablo Montoya de palhaço. Tampouco mágico parece ele ser. Mas a circunstância de sua saída recém-anunciada da McLaren foi pintada com as cores da farsa. Vivendo aquela que deve ter sido a pior temporada de sua carreira, com direito a rodada na volta de apresentação para o GP da Austrália, entre outros melhores momentos, Montoya parecia enxergar a marcha célere do bilhete azul em sua direção. A saída honrosa foi se antecipar e anunciar a volta para a América, aceitando o convite do chefe Chip Ganassi para correr na Nascar, em 2007. Montoya fez do anúncio um momento de vivas ao Novo Mundo, tecendo loas ao antigo chefe, com quem já havia trabalhado na Indy, querendo fazer crer que a mudança era um degrau acima em sua carreira de ladeira abaixo. Farsa.
A McLaren, capitaneada por Ron Dennis e abastecida por Norbert Haug, da Mercedes, respondeu rápido, decretando que, se é assim, então Montoya está fora desde já, não a partir do ano que vem, substituído no GP da França pelo piloto de testes da equipe, o espanhol Pedro de la Rosa. Por contrato, alegam, ele não poderia anunciar acordo com quem quer que fosse, do Velho ou do Novo Mundo. Farsa. Até os míticos tijolos de Indianápolis sabem o que aconteceu. A seqüência de más atuações do colombiano, e provavelmente seu espírito indômito, foram motivos suficientes para que a equipe quisesse se livrar dele antes do fim da temporada. Consta que foi a Mercedes quem pediu a cabeça destemperada de Montoya, servida em bandeja.
O gran finale de sua ópera bufa na Fórmula 1 foi o acidente causado na largada para a última corrida, justamente o GP dos Estados Unidos. A confusão causada por Montoya acabou por se configurar como duplo homicídio e luta fratricida: saiu da prova, tirando o companheiro Kimi Raikkonen. Foi demais, cortem-lhe a cabeça. Mas, como é de bom tom, o chefe Ron Dennis veio a público explicar que a saída de Montoya acontece em um momento ideal para o piloto, que muito contribuiu para o time no período em que fez parte da equipe e todo aquele blá-blá-blá corporativo que antecede o pé na bunda. Farsa.
A névoa farsante de todo o acontecido não encobre a verdade de que Montoya sai derrotado da Fórmula 1. O fim melancólico parece absurdo para quem assistiu à estréia, mais ainda para quem acompanhou a carreira do colombiano antes de ser guindado ao palco mais prestigiado do automobilismo mundial. Montoya fez consistente carreira na Europa, cumprindo etapas nas categorias chamadas de base, sendo campeão da Fórmula 3000 em 1998, impressionando por sua capacidade de ser rápido, e eventualmente mais rápido que todos os outros, em condições similares.
Ascendeu no mundo das corridas já em um tempo de portas estreitas na Fórmula 1, quando poucas estréias de pilotos novatos eram efetivadas a cada ano. Foi, dessa forma, tentar a sorte nos Estados Unidos. E não pode ser considerado um sujeito de pouca sorte aquele que vence o campeonato da Indy no ano de estréia (1999) e ainda as 500 Milhas de Indianápolis, no ano seguinte.
O estilo bravo de Montoya - nos dois sentidos - pareceu algo no mínimo exótico para o mundo da Fórmula 1. Ele fazia manobras plasticamente belas, revelando uma audácia que soava como o ingrediente faltante no mundo asséptico de Michael Schumacher. Desembarcou na Fórmula 1 em 2001, com honras de príncipe, a bordo de uma Williams de outrora. Mas a braveza do colombiano também se manifestava fora do cockpit. Começou a ficar famoso pela falta de freios na língua e por gestos destemperados, como um ataque desproporcional a um cinegrafista desastrado que teria lhe batido a câmera na cabeça.
Do circo ao parque de diversões, Montoya parece ter vivido seus anos de Fórmula 1 em uma montanha-russa. Corridas notáveis e desempenhos medíocres, tudo pontuado por uma postura habitualmente esquiva. Montoya sempre esteve pronto a apontar o dedo em busca de culpados outros por suas más atuações. Esforçou-se para tirar da reta até quando se esmerou em bater na traseira do companheiro, mesmo que todo aluno de auto-escola saiba que, por definição, quem bate na traseira é sempre o culpado.
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| Juan Pablo Montoya, no GP dos EUA, sua última corrida pela F1 |
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Em 2006, até que ficou fácil encontrar o vilão: ele estava ali mesmo, no box da McLaren, sob a alcunha de MP4-21. O carro é ruim, instável, não fiz nada neste ano, mas e Kimi, o que fez? Martelando nessa tecla, Juan Pablo passou os últimos meses, como na premonitória entrevista dada à revista inglesa Autosport, na qual, além de tudo, defendia-se da imagem de bad boy hoje colada a seu nome. Chegado como príncipe, despachado como vilão, Montoya sai da Fórmula 1 sob a máxima existencialista de que o inferno são os outros.
No entanto, outro traço dessa corrente de pensamento parece bem definir o colombiano. É, e parece que sempre será, um estrangeiro. Aquela sensação de deslocamento, de não pertencer ao lugar onde se está, de sempre se sentir alheio à circunstância que o rodeia, algo tão bem expresso por Albert Camus em seu livro mais famoso. Senão vejamos: Juan Pablo é um colombiano com trejeitos de garoto de Miami que se fez para o mundo na Europa, ganhou fama no meio-oeste estadunidense, voltou para um grande fiasco europeu e agora retorna à América.
Sem julgamentos quanto a ser latino-americano e evocar mais as paisagens da Flórida quando se pensa na infância e na adolescência feliz. Esse parece ser um movimento natural da elite oriunda de países como Colômbia, Venezuela, México etc. Trabalhei durante alguns anos em uma multinacional norte-americana e lá travei contato com um executivo colombiano que adorava o Brasil (desconfio, pelo hábito de nos cumprimentarmos com beijinhos no rosto. Como gostava de beijar e abraçar aquele Mejia!). Certo dia, pus-me a falar com ele, com entusiasmo, de García-Márquez e de Aracataca, de Bogotá e do Caribe, paisagens que nunca me passaram de fato à frente das retinas, que só me povoavam o imaginário graças às linhas bem traçadas de um dos meus autores preferidos. Pois Mejia quedou inerte à minha instigação, explicando que tinha se mudado ainda criança para Miami, pouco sabia da Colômbia, desconhecia García-Márquez quase por completo.
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| A manobra desastrada de Montoya também tirou o companheiro Raikkonen da corrida |
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Esse perfil me parece muito próximo ao de Montoya, que, por mais trejeitos ianques absorvidos, não deixa de ser estrangeiro mesmo estando na Flórida, ou de volta às pistas norte-americanas, para correr a partir da próxima temporada naquele circo (de horrores) chamado Nascar. Montoya deixa a Fórmula 1 com seu nome inscrito nos registros: afinal, ganhou sete corridas, mais do que muita gente que inteirou décadas na categoria. Mas sai, ao que parece, sem perder muito tempo se despedindo dos amigos. Bastará dar um pulo no box da Honda e acenar para Rubens Barrichello, o único piloto da safra atual com algum laço de amizade com o colombiano.
A saída pela porta dos fundos não soa inédita. Pelo contrário, parece manter a escrita de pilotos advindos da América do Norte. Na história da Fórmula 1, poucos pilotos forjados em pistas estadunidenses foram bem sucedidos na principal categoria mundial. E, tal como Montoya, muitos foram pilotos com carreiras consistentes em seus anos de noviciado, passando alguns deles por campeonatos europeus antes de cumprir estágio nos Estados Unidos. Um após outro, chegaram na Fórmula 1 e fizeram água. Michael Andretti, Alessandro Zanardi... Jacques Villeneuve escapa por pouco, pelo título ganho em 1997. Os exemplos parecem validar a idéia de que as pistas norte-americanas levam pilotos a desaprender o que sabiam em técnica de pilotagem. Boa muleta para Montoya, se optar por, mais uma vez, apontar o dedo em busca de culpados, em vez de simplesmente vasculhar sua cabeça, ora exposta em bandeja de prata.
Em minha coluna anterior, anunciei minha volta para depois do hexa. Como, felizmente, os editores do GPTotal não me levaram a sério, deixando-me na geladeira até 2010 (pelo menos), assumo alegremente meu lugar. Muito falamos de futebol, meias ajeitadas e cabeçadas no peito lá no meu blog. Quem quiser retomar, é só acessar www.alessandraalves.blogspot.com.
Até a próxima!
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