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| » » » 28.06.06 |
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| No Canadá, Villeneuve manteve a escrita com um resultado sofrível |
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O canadense Jacques Villeneuve costuma ter má sorte no GP disputado em sua terra natal. Tirando o segundo lugar obtido em seu ano de estréia na Fórmula 1, 1996, sempre teve desempenhos sofríveis na corrida de Montreal. Mesmo no ano em que foi campeão, 1997, deixou sua marca na pista canadense, mais exatamente no indefectível "muro dos campeões", aquele pedaço de concreto localizado antes da última curva, a poucos metros da linha de chegada, já beijado por outros vencedores de títulos, como Michael Schumacher.
No último domingo, manteve-se a escrita: Jacques posicionou seu BMW no 11º lugar do grid de largada e mais uma vez não terminou a prova, encerrando sua participação com outra batida, desta vez em outro muro do belo circuito. Não resisto a um comentário. A má sorte de Jacques foi a salvação da transmissão da Globo.
Depois da batida do canadense, o safety car entrou na pista e permitiu que a TV interrompesse a transmissão para exibir os comerciais de seus patrocinadores. Terminada a prova, logo em seguida a TV brasileira pôs-se a mostrar o jogo decisivo entre Portugal e Holanda, pelas oitavas-de-final da Copa. Não fosse o acidente de Jacques e a presença do safety car, a Globo teria de interromper a transmissão com a corrida em curso.
Mas voltemos a Villeneuve, que não parece se abalar muito com a sina relacionada a seu GP doméstico. Na semana anterior à prova, Jacques ganhou destaque no noticiário não por conta de seu desempenho como piloto, mas por um inusitado envolvimento com a música e a indústria fonográfica. Resolveu lançar um CD de rock, cantado em francês e chamado "Accepterais-tu?" ("Você aceitaria?").
Nas entrevistas relacionadas ao lançamento, Jacques revelou que a música sempre fez parte importante de sua vida. Contou que o avô era professor de piano, que o pai Gilles também se arriscava nas teclas e tocava trompete e que a irmã, Melanie, dedica-se à música. Foi da irmã, por sinal, que partiu a senha para a concretização do álbum. Conta Jacques que, depois da morte do pai, em 1982, nos treinos para o GP da Bélgica, Melanie teria iniciado a composição de uma música que, no entanto, ficou inacabada. Há alguns anos, ela propôs que ele terminasse a canção. Ele topou o desafio, gostou do resultado e achou interessante registrar o dueto.
Reunir amigos músicos e partir para o estúdio foi resultado do vácuo entre as temporadas de 2005 e 2006. Antes que se anunciasse a permanência de Jacques na BMW, ex-Sauber, ele se viu com futuro indefinido, meio sem ter o que fazer, e achou que a hora era propícia para brincar de ser cantor, músico e compositor. No CD recém-lançado, Jacques toca piano, violão acústico, canta e é autor das letras de metade das canções.
Da agência Reuters: "Haverá muitas críticas, é claro, pelo fato de eu ser piloto de corridas. Sempre que você faz alguma coisa que não é seu trabalho, isso irrita as pessoas", disse o piloto de 35 anos. "Meu trabalho ainda é pilotar carros, não fazer música - isso é um hobby para mim. Enquanto meu trabalho for pilotar carros de corrida, vou me concentrar nos carros."
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| Capa do CD recém-lançado de Jacques Villeneuve |
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É muito reveladora a colocação de Jacques, mencionando a palavra hobby. Ora, o que é um hobby, senão algo que se faz por puro prazer, sem compromisso financeiro ou de alto desempenho? É normal que as pessoas tenham passatempos, nem todos conseguem concretizar o desejo, por exemplo, de gravar um disco, quando seu hobby é música. Sendo famoso, campeão de Fórmula 1, as portas abrem-se mais facilmente, é certo (se bem que, hoje, com um computador, poucos equipamentos e um programa simples, é bem possível brincar de gravar um CD em casa mesmo). Mas o que me parece revelador da personalidade de Jacques é o equilíbrio e a naturalidade com que ele lida com seu dever (pilotar carros) e seu prazer (fazer música).
Em um passado não muito distante, Jacques recebeu o rótulo de inconseqüente. Em 1999, trocou a tradicional Williams pela iniciante BAR e pareceu fazer isso em busca do prazer de estar em uma equipe "de amigos". Sua fidelidade a um dos sócios da BAR, Craig Pollock, ensejou comentários maliciosos. Quem segue a Fórmula 1 há mais tempo viu na ligação entre Villeneuve e a BAR genes da antiga relação entre Nelson Piquet e a extinta Brabham. Piquet também gostava de pilotar lá por se sentir em casa, pela afinidade com o grupo e, principalmente, com o projetista Gordon Murray. Ou seja, tanto Jacques quanto Piquet preferiram o prazer de pilotar em uma equipe eventualmente menos competitiva ao sofrimento de se digladiar com companheiros de equipe ou de conviver em ambientes mais "carregados".
Buscar o prazer é a característica fundamental do hedonista. Nos últimos tempos, parte da sociedade tem refletido sobre a busca do prazer como um dos grandes males do mundo contemporâneo. A contraposição ao hedonismo seria o estoicismo, corrente filosófica pela qual o único bem do ser humano não é o prazer, mas a virtude. Pela filosofia estóica, qualquer paixão é sempre nociva, considerada um vício da alma. O ideal, para o estóico, é a negação completa de toda forma de paixão, pautando a vida apenas pela razão.
Isso fala muito de perto ao mundo do esporte. Os heróis esportivos são aqueles que sofrem, anulam seu prazer em prol da vitória, ainda que vencer implique em sacrificar o próprio corpo com treinos exaustivos, submeter-se a exageros de superação física e mental. Parecem superar o ideal estóico, na medida em que dão todas as demonstrações de subverter o sofrimento em prazer, desembocando em um masoquismo típico. Esportistas com talento nato, mas que não fazem da vitória um fim exclusivo de suas existências, abrindo mão delas em nome de um bem-estar mínimo, são logo associados à indolência. Piquet e Jacques estão entre eles, como o falecido James Hunt.
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| Aproveitando as boas coisas da vida, com a mulher Joanne |
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O sinal revelador de equilíbrio de Jacques está na justaposição que ele fez, entre dever e prazer. Ele vive de pilotar carros e enxerga nisso sua obrigação, mas nem por isso vai abrir mão das coisas boas da vida, que lhe dão prazer, como tocar seu violão e cantar em dueto com a irmã. É também reveladora a consciência que tem do mal-estar causado por seu prazer em outras pessoas, como se fosse esperado de um esportista apenas que se dedicasse a seu ofício, e de preferência, sofrendo por isso. Provavelmente sem perceber ou almejar, Jacques personifica a posição do moderno hedonista, corrente defendida por alguns filósofos contemporâneos, como o francês Michel Onfray.
Por essa corrente, o ser humano não precisa perseguir a negação do prazer como forma ideal de vida. Pelo contrário, entende-se como lícito e justo que se evitem as situações causadoras do desprazer, enxergando no sofrimento uma manifestação deturpada de paixão e até de dominação do outro (algo como: veja como me sacrifico por você, seja "você" a vitória em si, a satisfação do público ou a própria auto-idolatria).
Cumpre relembrar uma historieta já mencionada nas memórias do austríaco Gerhard Berger. Certa vez, indo para Mônaco de carro, com Schumacher, Berger recebeu do alemão o seguinte convite, ao passarem em frente a uma pista recreativa de kart: "Vamos parar e brincar um pouco?". Berger recusou o convite e se espantou com a vontade de Schumacher em fazer, na hora de lazer, o mesmo que fazia em seu trabalho, ou seja, correr, correr e correr. Para Schumacher, correr de carro é, ao mesmo tempo, dever e prazer. Isso talvez diferencie os fora-de-série dos bons profissionais. Jacques é um bom profissional e se compraz de outras coisas também.
Um grande abraço a todos, volto (toc-toc-toc) depois do hexa!
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