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Liberdade limitada 14.06.06
Eduardo Correa, um dos criadores deste site, costuma dizer que o maior patrimônio do GPTotal é seu conjunto de leitores. A riqueza desse patrimônio está na quantidade consolidada de acessos, na qualidade das manifestações, nas contribuições de leitores que se tornaram quase quadros fixos do site, além da criação informal de uma comunidade de internautas que se identificam entre si e com o universo do GPTotal. Mas é na leitura de algumas cartas que sinto maior entusiasmo em concordar com a assertiva do Edu. Peço licença para reproduzir alguns trechos de uma dessas cartas, enviada para nós no mês de maio.

O autor é José Angelo Petit Neto, um dos primeiros leitores do site. Alguns trechos da carta: "Descobri o Gepeto (sic) ainda em 2001, pouco depois de sua 'estréia' e, como adorei, li todas as cartas e colunas que já haviam sido publicadas. (...) Durante muitos anos, fui leitor assíduo de cada letra publicada. E o Gepeto foi crescendo (como não poderia deixar de ser), crescendo, crescendo... e ao mesmo tempo em que foi melhorando, ele foi piorando. É triste ler todas as besteiras que são escritas hoje. Se por um lado o que mais me agrada no Gepeto é a total liberdade de todos (...), por outro isso tornou possível a enxurrada de baboseiras que hoje lotam as páginas do site." Mais adiante, Petit conclui: "(...) o site está pagando o preço de ser tão democrático. A liberdade é um grande mal quando não se tem limites."

Schumacher e Massa no desfile pré GP da Inglaterra
Quem não tem o hábito de ler a seção de cartas dos leitores talvez não entenda as colocações de Petit. O desconforto manifestado por ele tem raiz na quantidade crescente de mensagens em tom radical, a maioria delas tratando de temas recorrentes (e, cá entre nós, cansativos) nos debates acerca do automobilismo de competição: o maior piloto de todos os tempos, a comparação entre Michael Schumacher e Ayrton Senna, os procedimentos de Schumacher etc.

Já escrevi uma vez que esse debate, além de cansativo, me parece inócuo, por seu caráter eminentemente subjetivo. Por mais que se apresentem números, o julgamento final sempre passa pelo crivo pessoal, o que turva qualquer análise. E já disse também que não me importa o que fez Schumacher ou o que fará Alonso ou se viverei para ver alguém anotar novos recordes. Eu me apaixonei por automobilismo vendo Senna correr e empunhar a bandeira brasileira e isso é uma marca indelével. O poeta português Fernando Pessoa vem em meu auxílio para explicar o sentimento: "O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,/ Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/ Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia."

Mas a carta de Petit enseja uma reflexão valiosíssima para quem milita em um veículo de comunicação, seja ele qual for. Sua frase final cala fundo em nós, aqui no GPTotal: "A liberdade é um grande mal quando não se têm limites." Cala fundo porque toca em um ponto de equilíbrio entre virtude e vício. Somos, criadores e editores do site, de uma geração que viveu a realidade ou os ecos de uma instituição detestável, da qual temos verdadeiro horror: a censura. Viver sob ditadura cria certos traumas e alimenta alguns ideais. Um desses ideais é o da liberdade de expressão. Cultivamos e incentivamos a liberdade de expressão, daí nossa virtude. Mas a intransigência em defendê-la nos faz publicar o que Petit chamou de "enxurrada de baboseiras". Talvez resida aí nosso vício.

Esse equilíbrio tão difícil de se alcançar talvez nos seja uma equação eternamente aberta e leva a um outro conceito muito debatido nos últimos tempos, o da valorização do chamado "politicamente correto". O ataque a essa expressão ganhou força nos últimos anos, com a consolidação de uma corrente de pensamento hoje identificada como "nova direita". Essa ala defende a liberdade irrestrita de expressão, enxergando em toda contestação a esse preceito uma forma de censura. Um exemplo pode ser dado pelo episódio da charge do jornal dinamarquês do profeta Maomé: o fato de parte da comunidade islâmica ter se sentido ofendida com a charge é visto como censura por essa corrente de pensamento.

Senna no Canadá 88
Minha posição pessoal sobre a liberdade de expressão alinha-se com um conceito muito antigo e conhecido, o do respeito ao outro. Manjado, né? Minha liberdade termina onde começa a do outro, é isso aí. Costumo dizer que a defesa intransigente da liberdade irrestrita de expressão é o "manifesto do macho adulto branco", como já escrevi no meu blog: o combate ao politicamente correto me parece muito arraigado na tradição paternalista, machista, elitista de quem nos dirige. O "macho adulto branco" é meio inatacável nesse sentido: ninguém faz piada de homem burro (ou que não sabe dirigir), de heterossexual, de branco. Ser um "macho adulto branco" é como ter um salvo conduto: pode rir de todas as piadas (de loira, de homossexual, de negro, de árabe, de idoso), propagá-las à farta, pois estará resguardado delas.

Trazendo o conceito para nosso quintal, aqui no site. A virulência de algumas mensagens revela um inequívoco fanatismo. E fanatismo é exagero de devoção, algo que faz supervalorizar os argumentos, perder a razão, atacar, ofender, humilhar, ridicularizar. Ao dar voz a esse tipo de mensagem, o site contribui, sim, para propagar uma conduta xiita, sectária, restritiva. Para parte dos leitores que se manifestam, Schumacher é vil, desonesto, só ganhou sete mundiais porque não teve adversários à altura, manipula a equipe contra os interesses de seu companheiro de escuderia etc. A maioria desses leitores também acha que tudo teria sido diferente se Ayrton Senna não tivesse morrido, ainda que Schumacher tenha corrido contra Senna e continue correndo hoje, quando o brasileiro teria 46 anos se vivo fosse.

Quem, como o leitor Petit, sempre admirou o GPTotal pela qualidade de suas informações e reflexões, pode sentir-se entediado com o radicalismo dessas mensagens, que resvalam para argumentações mais baseadas na paixão que na razão. Mas, Petit e amigos, podem ter certeza de que o facão da censura não será empunhado por este site. O limite da liberdade é de cada um. Alimento, talvez ingenuamente, a esperança de que a liberdade irrestrita de expressão encontrará seu equilíbrio na responsabilidade de cada interlocutor, que paulatinamente vai entender que o caminho do respeito é o mais adequado - não o mais fácil! - para se viver bem em sociedade.

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