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Brincar de correr 26.05.06
Quiseram o destino e os calendários que duas das corridas mais famosas e antigas do mundo fossem disputadas no mesmo dia, neste 2006. O GP de Mônaco de Fórmula 1 e as 500 Milhas de Indianápolis acontecem no próximo domingo com uma distância maior que a do Oceano Atlântico a separá-las. Se, por um lado, a sofisticação tecnológica da Fórmula 1 não encontra paralelo no universo da Indy Racing League, por outro, dois paradoxos aproximam as categorias.

"...como andar de bicicleta na sala": definição do GP de Mônaco, por Piquet
Uma é a categoria certa no lugar errado, outra é a categoria errada no lugar certo. Os carros certos na pista errada são os da Fórmula 1 em Mônaco. É atribuída a Nelson Piquet uma frase acerca do GP de Monte Carlo: “Correr em Mônaco é como andar de bicicleta na sala.” Considerando-se que Piquet parou de correr na Fórmula 1 há quase quinze anos, é fácil concluir que a discrepância entre a velocidade dos carros e o travado percurso urbano do principado já é grande há muito tempo.

Monte Carlo persiste como a única prova de rua da Fórmula 1 atual e persevera nos noticiários com os infalíveis chavões de sempre: a prova mais charmosa, iates, mulheres bonitas, grifes e carrões, o príncipe Albert (na falta de Ranier), as princesas Caroline e Stéphanie. Longa pausa para um bocejo... Mônaco parece sobreviver no calendário da categoria pela tradição, mas isso é tão irreal no mundo de dólares e euros a rodo da Fórmula 1 que não pode ser tudo farsa.

Que se trata da média mais baixa de velocidade da temporada não é novidade, e sempre foi assim. Que é uma pista praticamente proibitiva para ultrapassagens, também não. Mas, afinal, de quantas ultrapassagens se faz uma corrida, hoje, na Fórmula 1? Se as poucas trocas de posição, em uma prova, se fazem com paradas no box, que diabo!, box Monte Carlo tem. Façam-se corridas em Monte Carlo.
Mulheres, iates, carrões, o mesmo blá-blá-blá de sempre em Monte Carlo
E se a corrida, mais que um evento esportivo, configura-se como um importante evento de promoção e marketing, ah, bom...

Não importa que os treinos tenham de obedecer a uma programação esdrúxula, começando na quinta, fazendo uma pausa na sexta e retomando as pistas no sábado. Também é irrelevante que as equipes fiquem espremidas e toscamente acomodadas em áreas de box e paddock adaptadas. É só uma vez por ano mesmo, cumpram-se logo todas as sessões de fotos e divulgações de filmes de ação, novos cappuccinos instantâneos ou cosméticos para cachorros que acontecem nas “mostras paralelas” à corrida. Au revoir, Mônaco, até o ano que vem.

Quando o diretor de prova der a bandeirada para o vencedor, nas ruas monegascas, a festa estará começando em Indianápolis, no meio-oeste do lugar nenhum, os carros errados na pista certa. E festa se aplica por serem as 500 Milhas de Indianápolis, sobretudo, um grande convescote familiar, o aquecimento para o feriado do dia seguinte, o Memorial Day. A última segunda-feira de maio, tradicionalmente, é o dia que os estadunidenses reservam para honrar seus heróis de guerra, data mais do que apropriada em um país tão especialista em produzir vítimas de atividades bélicas.

Trailers de várias regiões rumam para o oval de duas milhas e meia, com ocupantes interessados em um bom lugar para estacionar, espaço para a churrasqueira e um fundo sonoro de motores roncando. Tem bandeira listrada hasteada, tem hino nacional na voz de cantora gospel, tem hot dogs e cerveja Budweiser de monte, mas a celebração nacionalista pára antes de adentrar o paddock, do qual carros movidos a propulsores japoneses saem para 200 voltas, cumpridas em mais de três horas de evento.

Tony Kanaan corre com o capacete pintado igual ao de Barrichello...
A tal corrida mais famosa do mundo sobrevive cambaleante, em termos esportivos, há muitos anos. Em 1996, um racha entre a entidade que organizava a corrida e a CART, responsável pelo restante do campeonato conhecido entre nós como Fórmula Indy, deu origem à IRL (Indy Racing League), que criou uma competição paralela, tendo como grande e talvez único destaque as 500 Milhas de Indianápolis.

.. que corre com um capacete pintado como o de Tony. Gentilezas de amigos, separados por um oceano.
A IRL nasceu, naturalmente, do conflito de interesses econômicos entre a CART e um grupo de donos de equipes e promotores de eventos. Uma das bandeiras do grupo que criou a IRL era o reforço ao caráter nacionalista da competição, como resposta à invasão de pilotos e marcas estrangeiras na antiga Fórmula Indy. O pé na xenofobia da IRL revelou-se um passo em falso, tanto que, hoje, a categoria é praticamente monomarca, com todos os carros equipados com motores Honda.

As opções de chassis também são reduzidas, em um esforço claro de baratear a categoria, viabilizando grids cheios. Não tem dado certo: o campeonato da IRL conta com uma média de 20 pilotos por evento. O grid da corrida mais famosa do mundo, com tradicionais 33 carros, custou a ser preenchido este ano. Em temporadas anteriores, a “peneira” chegou a deixar de fora mais de duas dezenas de competidores efetivos e, em vários anos, o número de inscritos nos treinos de classificação, contando carros titulares e reservas, ultrapassou a casa dos cem.

Carros de altíssima complexidade tecnológica, correndo em uma pista de brinquedo, no Velho Mundo. Carros tecnicamente toscos, girando em altas velocidades em um autódromo mítico da América (pode ser apenas “ficar dando voltas” mas, convenhamos, é um autódromo!). Para quem está dentro dos carros, arriscando a integridade física, é corrida do mesmo jeito: boa sorte aos pilotos, em especial aos brasileiros. Mas para quem vê de fora, este final de semana fica com ar de brincadeira. Às corridas malucas, então!



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