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Vôo de galinha 17.04.06
Ainda que o novo formato dos treinos de classificação seja esdrúxulo e eventualmente garanta a pole position para um piloto que não registrou o menor tempo, confesso: fiquei empolgada com a pole de Michael Schumacher na abertura da temporada.

Todt e Schummy - Austrália.
Ainda que a façanha tenha colocado o alemão em condição de quebrar o último dos importantes recordes – o de poles, e justamente de Ayrton Senna – fiquei empolgada. Tenho arrastado os grilhões da baixa auto-estima no que se refere a ser testemunha ocular da história. Não vi Pelé jogar, não assisti aos Festivais da Record, não presenciei o sucesso dos Beatles. Tudo o que me parece importante do último século passou longe das minhas vistas, e ver algo de novo, histórico ou pelo menos excitante preenche um pouco desse vazio existencial.

Alonso e Briatore - Austrália.
Ainda que o resultado do GP do Bahrein, esse da pole iguala-recorde do alemão, tenha dado uma falsa impressão de equilíbrio, com Fernando Alonso, Schumacher e Kimi Raikkonen fazendo um pódio representativo dos três melhores talentos da atualidade, fiquei empolgada. A impressão que persistiu, nos momentos depois da corrida, foi a de um campeonato parelho, com a McLaren acertando os detalhes que a fizeram perder o título em 2005, com a Ferrari retomando a competitividade, as duas no encalço da Renault. E ainda haveria a Honda, com um carro-foguete que só precisaria encontrar seu eixo e ser mais que um dragster.

Oh, santa ingenuidade!

Aquilo que era genuína empolgação de uma amante do automobilismo ganhou uma leitura bem diferente nos bastidores da Fórmula 1. O desempenho excepcional da Ferrari na primeira corrida foi logo atribuído a uma irregularidade de seu projeto: asas dianteiras móveis, que dariam uma vantagem aerodinâmica ilegal aos carros de Schumacher e Felipe Massa.

Ferrari em Barcelona.
Antes do GP da Malásia, oito das onze equipes assinaram um protesto contra a escuderia italiana. Gestões daqui e dali, o diretor técnico Ross Brawn tentando fazer o equipamento passar no crivo da FIA, não colou. A Ferrari abandonou as tais asas móveis e, coincidentemente, nas duas corridas seguintes o desempenho do time italiano esteve longe do inesquecível. Mas, batendo o pé como estavam, na suposta legalidade do equipamento, não passaram recibo da burla à regra. A alegação oficial, para a troca das asas móveis por partes fixas, foi a de que se tratava de uma evolução no desenvolvimento do carro, como se as primeiras estivessem atrapalhando o desempenho da Ferrari. Sei.

E, assim, parece ter se encerrado o curtíssimo vôo de galinha da Ferrari na cola da Renault e da McLaren em 2006.

Por vezes, fico me perguntando por que razão damos tanta importância para o esporte. Ele, costumeiramente, nos faz sofrer como torcedores, indignar-nos como cidadãos honestos, discutir com os melhores amigos e perder domingos de sol ou horas de sono. Na outra ponta, algozes da nossa sensibilidade, gente que ganha fortunas não necessariamente arriscando a vida a 300 km/h, mas manipulando regras ou encontrando meios de desrespeitá-las.

Há alguns dias, no meu blog, tomou lugar uma interessante discussão a respeito da ética. Um leitor justificou a bandalheira generalizada do Brasil como fruto da “macunaimização” de nossa gente. O personagem mais famoso de Mario de Andrade, síntese do povo brasileiro, é descrito como “um herói sem caráter”. Não precisei meter o bedelho na conversa para que outro leitor chamasse a atenção para um aspecto: todas as pessoas do globo têm uma raiz de Macunaíma, basta as circunstâncias permitirem para que se aflore essa faceta de levar vantagem, sejamos brasileiros ou suecos.

No esporte, paralelo “civilizado” das guerras, tal realidade é potencializada. Levar vantagem é o que determina o vencedor, e encontrar maneiras de se diferenciar dos demais é obrigação de quem compete. Na ótica por vezes torta do competidor, entre essas maneiras podem estar as várias formas de contornar as regras mais proibitivas. Se ninguém flagrar o delito, tanto melhor. A vantagem se configura e ninguém morre de dor na consciência na Fórmula 1. Pilhado em flagrante, o faltoso pode alegar inocência, desconhecimento, interpretação divergente do regulamento, ou simplesmente fazer cara de paisagem, como fez a Ferrari no episódio das asas dianteiras.

Não deixo de me sentir reconfortada ao acompanhar medidas disciplinadoras como a da FIA em relação à Ferrari. Assistimos, hoje, a um daqueles momentos mágicos em que um piloto mostra seu amadurecimento ao volante a bordo de um carro vencedor. Alonso mais Renault tem tudo para entrar para a história como uma daquelas dobradinhas fantásticas de homem/máquina, como foram Clark/Lotus, Piquet/Brabham, Senna/McLaren e Schumacher/Ferrari. Seria justo que uma malandragem na regra impedisse essa dupla de entrar para a história?

E, então, fico me perguntando: essa, da Ferrari, não colou. Mas quantas não teriam passado pelas vistas grossas dos dirigentes, ao longo da história, consagrando gênios que eventualmente só mereceriam o título de experts em desrespeitar regras?

Alessandra Alves

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