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Nada será como antes 10.03.06
Schumacher: o fim de uma era?
Desde a morte de vocês sabem quem, todo começo de temporada é a mesma ladainha. Que a Fórmula 1 já não tem graça, que não há disputa na pista, que fulano só ganha porque tem o melhor carro. Esse último comentário não era problema enquanto o fulano era brasileiro, mas isso é outra história. Pela primeira vez, nesses últimos anos, vislumbro a temporada que começa como um divisor de águas, um daqueles marcos que fazem nascer novas eras, como foram as Grandes Navegações ou a Revolução Francesa.

Ainda que as provas venham a se arrastar em todas as manhãs de domingo deste 2006, com seqüências modorrentas de voltas sem ultrapassagens nem manobras fantásticas, o campeonato que começa no próximo domingo tem grande potencial para ser histórico. O motivo mais forte – claro – é ele, Michael Schumacher. Como a maior parte dos observadores da Fórmula 1, também acho que o alemão fará desta sua última temporada na categoria.

O fato de seu contrato terminar no final do ano – e de que nenhum passo foi dado em direção à renovação, pelo menos oficialmente – é o sinal mais evidente da aposentadoria. O motivo mais forte é a falta de competitividade da Ferrari, demonstrada em 2005. Pelos resultados dos testes de inverno, a equipe italiana não briga pelo título e é difícil imaginar Schumacher persistindo por um terceiro ano na Fórmula 1 com papel de coadjuvante.

Da mesma forma que a falta de renovação de contrato me parece indício de sua partida, e não causa, o fato de haver um contrato em vigência é uma motivação fraca para justificar sua permanência. Não, Schumacher não inicia uma nova temporada na Fórmula 1 apenas para cumprir o que determina a letra. Ele está lá para terminar uma tarefa a que se dedicou com afinco nos últimos quinze anos – demolir recordes. E o único que falta – o de pole-positions, ainda pertencente a Ayrton Senna – está muito próximo de cair. Conseguindo mais uma pole em sua carreira, o alemão iguala-se ao mito brasileiro. Mais uma e o supera.

Se a Ferrari estiver numa condição tão mediana como a do ano passado, essas duas poles podem não estar tão próximas assim. De qualquer maneira, parece pouco provável que Schumacher se arraste ainda mais um ano em busca desse Santo Graal. No entanto, se o heptacampeão lograr seu intento, deixa a categoria com o mais superlativo dos currículos já escritos na Fórmula 1. Durante muitos anos, os principais recordes permaneceram pulverizados entre vários pilotos: o de títulos e de títulos consecutivos, com Juan-Manuel Fangio; o de vitórias, com Alain Prost; o de poles, que ainda é de Senna. Se Schumacher tomar esse último, será indiscutivelmente o maior piloto de todos os tempos e deixará a Fórmula 1 como o grande parâmetro a ser batido. Se isso não é um marco histórico, então talvez nem a Bastilha tenha caído.
Barrichello: tomara que em 2006 a equipe não encha muito... sua paciência
Mas há outros eventos programados para 2006 que devem contribuir para marcar a temporada. Um deles é a dança das cadeiras entre os dois mais sérios candidatos ao título. O atual campeão, Fernando Alonso, cumpre seu último ano na Renault, já tendo assinado com a McLaren-Mercedes para 2007. A eventual saída de Schumacher parece definir o rumo do finlandês Kimi Raikkonen, que ocuparia a vaga do alemão no time italiano. E há o próprio destino da McLaren, que oscila entre se tornar cada vez mais Mercedes ou até desvincular-se da fábrica alemã, que já se assanha com a possibilidade de fundar time próprio.

A dupla de pilotos da Ferrari, em 2006, não tem contratos assinados para 2007. Isso tanto pode sinalizar a parada de Schumacher e o mandato tampão do brasileiro Felipe Massa, como a dúvida quanto à vinda do piloto Valentino Rossi, egresso do Mundial de Motovelocidade. Rossi, no geral, não foi bem nos testes que fez no inverno, a bordo de um dos bólidos vermelhos. Não que tenha dado vexame. Seus tempos não foram ruins, mas não foram espetaculares. Na ocasião, Jacques Villeneuve comentou que fazer um bom tempo era qualidade de pilotos rápidos, mas marcar tempos excepcionais é coisa de pilotos muito especiais, e ter esse algo a mais nem sempre é questão de treino ou de adaptação ao meio.

Consta até que Rossi teria ficado muito irritado com um incidente havido no primeiro dia, quando ele rodou na primeira volta do teste. O piloto queria reassumir o carro logo em seguida, no que foi impedido pela Ferrari. A equipe, parece, tentou preservar o piloto e só programou novas voltas para o dia seguinte. Rossi teria achado que a saída de cena soou como uma legítima “amarelada” e estrilou. Voltou no dia seguinte, não rodou, mas seu desempenho também não abalou o preço do euro.

Do ponto de vista esportivo, a ida de Rossi para a Fórmula 1 parece um grande equívoco, a chance de um espetacular campeão de moto tornar-se um piloto de carros mediano. Mas não é só o aspecto esportivo que norteia esse tipo de decisão. Rossi, inegavelmente, está sobrando na Moto GP e isso não se refere apenas ao seu desempenho na pista. Ele, seu carisma e seus trejeitos de superstar de bem com a vida são muito maiores que o campeonato em que se inserem. Na ponta desse raciocínio, está o bolso. A Moto GP é um evento muito menor que a Fórmula 1. Para valer quanto pesa, Rossi precisa estar em um evento das proporções espetaculares da Fórmula 1, de uma Copa do Mundo. Como é pouco provável que ele assuma a camisa 9 da Inter de Milão e da Squadra Azzurra, o canto de sereia da Fórmula 1 deve ser muito forte. Embora ainda indefinida, a transferência de um mito das motos para a Fórmula 1 seria, da mesma forma, um grande divisor de águas.

E o que traz de determinante a temporada de 2006 para Rubens Barrichello? É sua última grande chance. A Honda inicia o campeonato com boas perspectivas, mas a vida do brasileiro não deve ser fácil. Tendo como companheiro o inglês Jenson Button, prata da casa e reputado bom piloto, Rubens terá um grande desafio. Prevalecendo igualdade de condições entre os dois, vencer o companheiro de equipe significará um grande estímulo a Barrichello. No entanto, se amargar uma seqüência de maus resultados, pode começar a escrever suas memórias. Se optar pelo recurso de escrever do fim para o começo, o primeiro capítulo pode ter o seguinte nome: 2006, o primeiro ano do resto da minha vida.

Nós, aqui no GPTotal, mantemos nosso compromisso de estar com você durante toda a temporada. Que se apaguem as luzes vermelhas!

Alessandra Alves
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