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O grande armário 02.03.06

Quem consegue imaginar cowboys gays? E pilotos?
Já vou avisando que não assisti ao filme “O segredo de Brokeback Mountain”, portanto isso não se trata de uma crítica ao filme, até porque não tenho conhecimento suficiente para criticar cinema. Mas o tema do filme, que inclusive concorre a vários prêmios importantes no Oscar deste domingo, disseminou-se pela mídia. Difícil imaginar que, a essa altura, alguém não saiba do que se trata, mas não custa situar: é uma história de amor entre dois homens, dois cowboys do Meio Oeste norte-americano, uma relação que vive à sombra do preconceito. Não é o primeiro filme com tema gay de Hollywood, mas ganhou notoriedade talvez por misturar a homossexualidade com um símbolo de virilidade ianque, justamente os cowboys.

Quem consegue imaginar dois cowboys gays? Cowboys são machos por definição. Um dos conceitos que o filme parece tocar é o de que virilidade não tem nada a ver com atração sexual, nem com sentimento. Os dois cowboys do filme são viris, e sentem atração um pelo outro, e se amam.

Quem consegue imaginar esportistas gays? O esporte, principalmente em sua faceta de competição, assume na atualidade o papel que foi desempenhado pelas guerras, ao longo da história. Ser bem sucedido no esporte é como ganhar uma guerra, e freqüentemente os próprios atores dessa peça usam tais expressões, seja para motivar seus comandados, como o fazem técnicos de modalidades coletivas, seja para enaltecer suas conquistas. Em campo, jogadores são “soldados”. Cada jogo – ou cada corrida – de um campeonato, é uma “batalha”. Há que vencer todas, ou a maioria delas, para ganhar a “guerra”. Quantas vezes não engolimos esses clichês?

No imaginário popular, guerreiros são homens, machos, viris. Os vencedores são os grandes homens. Os perdedores, freqüentemente, são os covardes, “ratos”, “mariquinhas”. “Isso não é um time, parece um bando de mulherzinha.” “Fulano fez uma ultrapassagem sensacional no fim de tal reta. Foi macho pacas.” Na sala de imprensa de Interlagos, GP do Brasil, 1992, eu e o colega Luiz Alberto Pandini conversávamos com o ex-piloto e então comentarista Patrick Tambay, sobre o antigo traçado do autódromo. Ele tecia elogios à velha pista e se referia à dificuldade de algumas curvas extintas, como a do Sargento. Sincero, simpático – e nada elegante – mostrava com um gesto, apertando determinada parte do próprio corpo, o que era preciso ter para fazer tal curva com pé embaixo.

Não é de se admirar que a Fórmula 1, com quase 60 anos nas costas, nunca tenha assistido à saída de armário de nenhum piloto. O ambiente esportivo, em geral, é pouquíssimo amigável à postura assumida dos homossexuais. O exercício do esporte de competição é tão associado à virilidade que às mulheres esportistas, em geral, só sabem dois papéis: ou da figura masculinizada (Martina Navratilova, Amelie Mauresmo ou, para lembrar uma ex-piloto, Lella Lombardi) ou da beldade exacerbada, que aparece em poses sensuais, mostrando peitos, bumbum, coxas (Gabriela Sabatini, Ana Kournikova, ou a piloto Danica Patrick). E assim vamos vivendo de estereótipos.

Vamos ver se conseguimos caminhar por uma análise sem preconceito desse tema. Não se trata de “acusar” fulano ou cicrano de ser gay, e reforço isso antes que alguém escreva para o site, irado. Porque é normalmente essa a tônica quando se levanta o assunto da homossexualidade no esporte. Sempre há quem se levante para “defender” um acusado. “Só porque o Fulano é educado, gosta de se vestir bem e de dançar, já falam que é gay. Que absurdo!”

E desanda a enumerar todas as ultrapassagens “de macho” que ele fez, todas as vezes que falou grosso com mecânicos, entre outras provas de virilidade. Como se fazer tudo isso “livrasse” o piloto em questão de ser gay. Como se ele não pudesse ser macho o suficiente para fazer a curva do Sargento com pé embaixo, não pudesse sustentar posições, dentro e fora da pista, com veemência, não pudesse ser campeão mundial de Fórmula 1 e, ainda assim, e apesar, ou por isso mesmo, e com tudo isso, ser gay, sentir atração por outros homens, amar outros homens.

O escocês Jim Clark, solteiro e sofisticado.
Na história da Fórmula 1, só o que se tem são insinuações, como a de que o solteiro Jim Clark, bicampeão do mundo em 1963 e 1965, era “sofisticado” demais para o duro mundo da graxa. Ou de que o bom vivant James Hunt, campeão em 1976, tinha uma relação extra-pista com seu patrão, Alexander Hesketh. Há quem diga que viu Lord Hesketh beijar Hunt na boca, depois da primeira e única vitória do time, na Holanda, em 1975. E então me pergunto: e daí? Clark seria menos brilhante se fosse mesmo gay? E o que tem, se Hunt beijou o lorde na boca? Suas manobras ficaram menos espetaculares, menos “coisa de macho”?

O mundo dos estereótipos nos traz certo conforto. Nossa sociedade pós-moderna aceita nichos de homossexualidade e ninguém acha estranho ver cabeleireiros, maquiadores, estilistas, artistas em geral gays. Mas nós, sociedade machista e sectária, não engolimos com facilidade que o açougueiro seja gay, ou o motorista de táxi, ou o advogado, ou o médico, ou o jogador de futebol, ou o piloto. Ficamos nesse conforto hipócrita até que alguém muito próximo – um amigo, um parente – se assuma gay, sem necessariamente ter trejeitos efeminados. E então passamos a entender um pouco mais do mundo e da vida.

James Hunt: beijou ou não beijou?
Não acho que quem é gay, na Fórmula 1 ou fora dela, tenha que sair do armário, carregar bandeiras, pleitear união civil entre pessoas do mesmo sexo. Todas essas são as chamadas questões de foro íntimo, cada um sabe de si, faz o que quer de sua vida. O fato é que a Fórmula 1, esse esporte tão empolgante, poderoso, plástica e esportivamente lindo de se assistir, presente em todo o planeta, é um dos maiores redutos de machismo e sectarismo da atividade humana. Mulheres? Contamos nos dedos das mãos. Negro? Nenhum. Hispânicos? Poucos, pouquíssimos. Gays? Não nos é dado nem saber.

Há poucos dias, recebemos um belo livro, da Edipromo, sobre o piloto português Nicha Cabral, que disputou alguns GPs de Fórmula 1 no final dos anos 50. Em dado momento da narrativa, Nicha fala sobre sua bissexualidade e relata um acontecimento. Ele estava em um restaurante na companhia de outro homem quando percebeu, em outra mesa, dois casais aparentemente heterossexuais fazendo comentários jocosos sobre eles. Foi até lá e discutiu asperamente com os dois homens, chegando a agredi-los fisicamente. Quando voltou à mesa, seu companheiro estava atônito, sem entender por que, afinal, ele havia tido uma reação tão violenta, se as insinuações correspondiam à verdade. Nicha explicou que o fato de ser verdade não dava a ninguém o direito de julgá-lo, fazer piada, nem mesmo de falar a respeito. Era a vida dele, e não interessava a mais ninguém.

Macho, macho pacas.
Alessandra Alves
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