Sessão Colunas
Escreva pra gente
Comente
13.11.08
Nossos leitores comentam o GP do Brasil
Nossos leitores comentam o GP da China
Opiniões e Dúvidas dos Leitores
21.11.08
Cartas - Segunda quinzena de Novembro
Cartas - Primeira quinzena de Novembro
Friends
21.11.2008
Motores diferentes
Kers: a nova polêmica da F1
Pergunte ao GPTotal
Julho
Um maluco, dois tristes
Sobre tamanhos e ultrapassagens
mais
12.11.08 - Carlos Chiesa
Adeus!
E se o Massa ganhar?
11.10.08 - Ernesto Rodrigues
Bate neles, Rubinho!
O bom e velho filme
mais
 
12.03.06
Confira a classificação
12.03.06
Pilotos e Equipes
mais
Home » Colunas » Alessandra Alves » 13.02.06
Aumente o tamanho das letras:
12 | 16 | 20
Homens versus Marcas 13.02.06
A Mercedes, na McLaren, seguindo a lógica de exposição globalizada
Nas tediosas e infrutíferas discussões sobre “o melhor piloto de todos os tempos”, quase sempre há espaço para uma frase que considero detestável: “Fulano só venceu porque tinha o melhor carro”. Tal sentença traveste-se de grande e conclusiva verdade mas, em sua essência, revela uma incompreensão, ou ao menos um desvirtuamento, do que é o automobilismo. Falamos de corridas de carros, não de corridas de gente.

É evidente que a perícia dos pilotos influencia no resultado final. O talento nato, a habilidade lapidada dão aqueles milésimos de segundo a menos no cronômetro, mas a história da Fórmula 1 mostra que grandes pilotos tornaram-se grandes campeões a bordo de grandes máquinas. Não por acaso, as grandes equipes correm atrás dos grandes talentos, garantindo que essa equação se feche na maioria absoluta dos casos. (Lembraremos de desempenhos épicos de pilotos a bordo de máquinas inferiores – Senna e Bellof em Mônaco, 1984, Alesi em Phoenix, 1990, e talvez sejam épicos por tão raros e, na prática, nenhum deles conseguiu seus melhores resultados pilotando carros medíocres.)

Automobilismo é prioritariamente um embate de máquinas, influenciado pela atuação dos homens que dominam essas máquinas, o que cria um sub-embate de homens contra homens. Até hoje, a Fórmula 1 não criou uma situação que pudesse ser descrita como um duelo do homem contra a máquina. Essa circunstância, há tempos associada ao universo da ficção científica, hoje já é possível em esportes como o xadrez. Na Fórmula 1, por enquanto, ainda não.

Seja no cockpit dos carros, projetando as máquinas ou gerenciando as equipes, o homem Fórmula 1, até pouco tempo, só desafiava os iguais. Homens versus homens. Nos últimos anos, no entanto, o homem Fórmula 1 designado a conduzir os destinos da categoria passou a se digladiar com uma outra entidade. Esse homem – repartido entre o presidente da entidade máxima do automobilismo, o dono do esquema que comanda a Fórmula 1 e os donos de equipes – viu-se diante de um embate novo, não com outros homens, muito menos com as máquinas: o duelo, agora, acontece com as marcas.

Há alguns anos, as principais marcas da indústria automobilística mundial passaram a investir maciçamente na Fórmula 1. Vieram, sobretudo, atraídas pelo gigantesco potencial da categoria como mídia. Estar na Fórmula 1 é associar-se a conceitos de modernidade, excelência, universalidade. Entrar na Fórmula 1 é um investimento alto, compensado pelo retorno de imagem advindo para a marca. Acreditando nessa premissa, montadoras de vários cantos do mundo desembarcaram na Fórmula 1 nos últimos tempos.

Imagine-se em um filme de faroeste. Aquele cenário com construções de madeira, a terra seca se transformando em poeira com o vento que sopra, trazendo rolos de feno. Um tropel de cavalos sugere a chegada de forasteiros. E eles chegam, e se instalam, vistosos, e desafiam a lei local. Ainda que tais bandoleiros tenham trazido dinheiro, e algum prestígio ao lugar, há que respeitar a lei, nem que para isso o xerife precise convocar os antigos moradores, do banqueiro ao dono da menor espelunca.

O xerife Mosley opõe-se aos forasteiros, mas abrirá mão de seus recursos?
A lei, na Fórmula 1, sempre foi a da excelência técnica. As equipes que conseguiram as melhores condições para desenvolver os melhores carros alternaram-se no domínio da categoria. Ao longo das décadas, os regulamentos técnico e esportivo da competição foram de sucedendo, ora para promover maior segurança, ora para reduzir custos, mas nunca foram capazes de subverter a lógica dos ciclos de dominação da categoria. Coube à Ferrari o mais recente ciclo de dominação, nos primeiros anos do novo século, justamente o período em que os forasteiros já haviam se instalado ou estavam chegando. Com a força de seu dinheiro, pressionaram de todos os lados por uma pretensa competitividade na categoria.

O que elas querem – as marcas – é transformar a Fórmula 1 em uma grande arena na qual se alternem na liderança. Um Mundial de Marcas, em resumo, nome que se apresenta até caricato, mas que já teve seus dias no passado, em versões regionais e continentais. Tem lógica: por que tais empresas investiriam tão pesado na Fórmula 1 para manter durante muitos anos o papel de coadjuvantes? A melhor maneira de sanar esse aparente mau investimento seria compor-se em bloco, ao melhor estilo dos cartéis, para garantir o sucesso da empreitada para todos esses novos e ricos competidores.

Os argumentos dessa gente balançam as mais arraigadas convicções morais, que dizer a coerência histórica e o decantado purismo esportivo. Xerife e demais homens fortes do lugar deixaram-se envolver pelos forasteiros. Alguns venderam até suas espeluncas para eles. Já parecia uma viagem sem volta, com a Fórmula 1 marchando célere rumo ao formato por eles pretendido. Mas o xerife e o dono do banco, anos de duelos nas costas, sentem no ar o cheiro da farsa. Hoje, elas estão aqui despejando seus euros e iens. Amanhã, aprovam um programa xis de reestruturação em suas matrizes, empacotam suas tralhas e deixam o lugar na calada da noite. As montadoras não são confiáveis, lembram a todo instante.

Isso é fato porque tais empresas não estão na Fórmula 1 pelo esporte, mas pela divulgação globalizada que a categoria proporciona. Utilizar-se desse tipo de recurso é seguir os preceitos da nova ordem econômica mundial, não mais dominada por países ou eixos de países, mas pelas grandes corporações. A Honda não voltou à Fórmula 1 para matar as saudades do tempo em que foi vitoriosa, para reviver os anos de glória ao lado de Ayrton Senna. Voltou, muito provavelmente, porque a Toyota, seu concorrente direto, está lá, e deve estar se locupletando da associação da Fórmula 1 à sua marca. O mesmo vale para a BMW em relação à Mercedes. E no intrincado xadrez de interesses corporativos, essas fronteiras regionais (japonês versus japonês, alemão versus alemão) também já não bastam para compreender o movimento de todas as peças. São todos contra todos, marcas contra marcas, disputando fatias de mercado mundo afora que não obedecem fronteiras regionais, barreiras de língua ou origens distintas.

Tão certa quanto a transferência de prestígio da Fórmula 1 às marcas que se associam a ela é a volatilidade das decisões dessas marcas. Um mau ano comercial já é suficiente para acender as luzes de alerta e determinar o enxugamento dos custos da corporação. Nesse panorama de contas no vermelho – ou pelo menos de lucros aferidos menores que os projetados – o que é investimento prioritário (“vamos entrar na Fórmula 1”) é lido como gasto exorbitante (“vamos rever nossa participação na Fórmula 1”). E daí para empacotar as tralhas, uma única reunião de conselho pode bastar. Por isso, o xerife tem razão: as marcas não são confiáveis.

O momento político atual da Fórmula 1 apresenta um cenário de embate entre a estrutura tradicional da categoria – com o presidente-xerife da FIA, Max Mosley, o dono do esquema, Bernie Ecclestone, donos de equipes como Frank Williams e até o diretor da Renault, Flavio Briatore, antigo desafeto da turma – e as grandes marcas. Chega ao ponto de haver a ameaça de um racha, com as montadoras projetando um campeonato próprio.

No resgate dos homens, sobrou espaço até para Berger, na Toro Rosso.
Nada disso me parece plausível. Às marcas não compensaria criar uma disputa paralela, pois isso seria abrir mão de atributos importantíssimos da Fórmula 1, começando pelo prestígio, mas ampliando-se na estrutura e no histórico da categoria, inclusive de negociações de direitos de transmissão de TV no mundo inteiro. E a Fórmula 1 não haverá de ser quixotesca a ponto de abrir mão do recursos das grandes marcas.

O pulo do gato da Fórmula 1 parece ser o de continuar atraindo as grandes corporações – não apenas de montadoras da indústria automobilística, mas de marcas globalizadas, como já é o caso da Red Bull – mantendo a presença, ainda que discreta, dos donos de equipe à moda antiga. Não é à toa que a BMW, tendo comprado a Sauber, manteve o nome da antiga equipe na nova nomenclatura do time. Frank Williams, paradoxalmente, mantém-se à frente de sua equipe. E até o ex-segundo piloto Gerhard Berger surge no cenário como novo dono de equipe, tendo se tornado sócio da Toro Rosso.

Não serei ingênua a ponto de supor a vitória do homem sobre as marcas. Tal movimento de sobrevida de figuras humanas sobre corporações me parece muito mais uma manobra da própria categoria para assegurar sua continuidade. Para garantir sobrevida à Fórmula 1 que, afinal de contas, hoje é menos um esporte do que uma marca.

Alessandra Alves
 Leia mais colunas de Alessandra | Envie a coluna para um amigo | Voltar
anuncie | quem somos Apoio: Interactive Fan  |  Red Cube Tecnologia e Comunicação