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Helenas 01.02.06
Graham Hill e Bette: sobrou para a viúva pagar as dívidas.
Dotada de um teor francamente machista, a idéia de que as grandes realizações da humanidade foram motivadas pelo desejo dos homens de impressionar e/ou possuir determinadas mulheres já rendeu de histórias mitológicas a piadas de salão. Exemplo de mitologia: a Guerra de Tróia teria mobilizado gregos e troianos por uma década, tendo como motivação a disputa entre o grego Menelau, de Esparta, e Páris, troiano, por Helena, tida como a mulher mais bela do mundo. Exemplo de piada, by Jerry Seinfeld: depois de voltar da Lua, a única preocupação de Neil Armstrong deve ter sido procurar a namorada e dizer: “E aí, você me viu lá em cima?”.

A pálida participação das mulheres como protagonistas da Fórmula 1 coexiste com a presença por vezes intensa e determinante de mulheres nas carreiras de muitos e importantes pilotos. E antes que alguém saque o comentário de que “por trás de um grande homem... blá-blá-blá”, convém dar uma lida nas histórias seguintes e pensar com isenção de preconceitos quem, afinal, estava atrás de quem.

Acima de tudo, a participação de algumas mulheres de pilotos no universo da Fórmula 1, ao longo das décadas passadas, serviu para “humanizar” as figuras desses homens. Lá vamos nós para uma torrente de estereótipos. Mas se existe alguém que lutou bravamente para reafirmar esses modelos permanentes não fomos nós, público, mas eles, pilotos e companhia. Dá-lhe estereótipo: vestem roupas futuristas, escondem-se dentro de capacetes inexpugnáveis, pilotam carros rápidos como foguetes. Semi-deuses, heróis de ficção científica, o que for.

E, no entanto, apaixonam-se, motivam-se por amor, desestabilizam-se por uma desilusão, jogam tudo para o alto, como pode acontecer com qualquer pessoa. (Qualquer pessoa: homem, mulher, por outro homem, por outra mulher. No mundo eminentemente machista do esporte, fico aqui pensando como não devem ter se escondido e continuam se escondendo os pilotos homossexuais, ainda mais escamoteados que os heróis-padrão. Mas isso é outro tema.)

Os últimos anos, aqueles que serão conhecidos no futuro como os da pasteurização da Fórmula 1, conseguiram com sucesso exemplar tornar a Fórmula 1 um evento global, altamente rentável, uma mídia poderosíssima e muitos outros atributos que reconhecemos hoje. Mas a essa profissionalização da categoria seguiu-se a criação de um ambiente asséptico em que pilotos só falam com a imprensa em hora marcada, acompanhados de assessores de imprensa, diante de logotipos de patrocinadores. Nesse teatro (circo?) faltou papel para as mulheres dos pilotos e elas simplesmente desapareceram.

A distância entre os atores principais – pilotos – e as pessoas “comuns” é tanta que as equipes começaram, nos últimos anos, a programar eventos “simpáticos”, como a decantada viagem a uma estação de esqui italiana, patrocinada pela Ferrari, na qual os pilotos portam-se quase como gente como a gente. Tudo controladinho, claro, e não julgo o sumiço das moçoilas. Em tempos de invasão quase irrestrita de privacidade, com tanta revista e tanto site de celebridades e fofocas, para que aparecer? Acho que, no lugar delas, eu também declinaria do convite para acompanhar as corridas in loco, como faziam outrora as mulheres de alguns pilotos.

Barbro: sem Peterson, apesar da atenção de Watson, sucumbiu à depressão
Nos anos 60 e 70, tão clássica quanto a cena do champanhe estourado no pódio, por um piloto adornado com uma coroa de louros, era a da mulher do piloto na mureta do box, empunhando uma prancheta e um cronômetro. Confesso que nunca soube se esse trabalho servia para alguma coisa. Elas tinham essa função na equipe? As marcações delas balizavam alguma coisa? Se a marca obtida pela cronometragem oficial fosse diferente dos números da moça, o piloto fazia o quê? Ia reclamar com o cronometrista? “Olha aqui, a sua tá errada. A da minha mulher foi bem mais baixa!” Pelo amor de Deus, isso é quase como “vou contar tudo pra minha mãe”, postura que não se alinha com a de semi-deus, herói de ficção científica etc.

Mas ainda que fossem figuras decorativas, as mulheres da Fórmula 1 expunham uma face mais humana e factível desse universo. Vejamos os casos das senhoras Graham Hill, Ronnie Peterson, Jacques Laffite e Didier Pironi.

Bette Hill acompanhou o circuito da Fórmula 1 por quase vinte anos. Casou-se com Graham em 1955, teve três filhos, viu o marido sagrar-se campeão da categoria por duas vezes (1962 e 1968). Ele também foi o único piloto da história a conquistar a chamada Tríplice Coroa – Mundial de F-1, 500 Milhas de Indianápolis e 24 Horas de Le Mans. Quando enfim sua vida parecia ter entrado na rota da tranqüilidade, com Hill aposentado, aí sim começou o inferno astral de Bette.

Hill morreu em um acidente de avião, em 1975, pilotando uma pequena aeronave que levava outros cinco membros de sua própria equipe de corrida. Bette perdeu o marido e não só: por conta do investimento como construtor, Hill estava devendo até a balaclava e sobrou para a viúva. Pois ela tomou as rédeas da família e reequilibrou as finanças. Ainda acompanhou o único filho homem, Damon, tornar-se o primeiro filho de campeão a também vencer um título na Fórmula 1, em 1996.

Barbro era mulher do sueco Ronnie Peterson, morto em acidente durante o GP da Itália de 1978. Loira, alta, magra, sempre acompanhando Peterson pelos circuitos, era um ícone feminino na Fórmula 1 dos ´70. No primeiro GP realizado no Brasil, o casal viveu uma situação insólita: o hotel de luxo destinado aos pilotos quase recusou a hospedagem a Ronnie e Barbro porque os dois, egressos de um país muito prafrentex em termos de usos e costumes, não eram casados legalmente.

Após a morte de Peterson, Barbro manteve as amizades no circuito. Tanto que acabou tornando-se sra. John Watson. Não se casaram, consta que nem chegaram a dividir o mesmo teto. Há quem aponte a recusa de Barbro em aceitar o pedido de Watson como trauma do acidente com o primeiro marido. Não querendo ficar viúva pela segunda vez, só se casaria com Watson depois que ele deixasse as pistas. Impossível dizer se ela cansou de esperar ou se apenas sucumbiu diante da depressão já crônica. Barbro suicidou-se em Londres, em 1982.

Corinna: longe dos holofotes, uma geração menos marcada pela tragédia
Bernadette Cottin e sua irmã, Geneviève, casaram-se ambas com pilotos de Fórmula 1. Bernadette, com Jacques Lafitte. Geneviève, com Jean-Pierre Jabouille. Mas essa não foi a única linha cruzada de Bernadette no circuito. Ela acabou se apaixonando e sendo correspondida por Alain Prost, que por sua vez era casado com uma namorada de infância, Anne-Marie, com quem teve dois filhos. Consta que Prost continua com a namoradinha até hoje, o que não o impediu de ter uma filha com Bernadette na década de 90. Do intrincado arranjo, certo é que houve rompimento de relações entre Lafitte e Prost.

A tragédia envolvendo a família Pironi, para ser entendida, precisa de breve retrospectiva. Em 1979, a Ferrari tinha como dupla de pilotos o sul-africano Jody Scheckter e o canadense Gilles Villeneuve. Enzo Ferrari chamou Gilles de lado e decretou: vamos trabalhar por Jody, seu dia vai chegar. O dia chegou para Gilles em 1982, quando seu companheiro de equipe era Didier Pironi. A Ferrari trabalharia para Gilles, mas Pironi parecia ansioso demais para se tornar o primeiro francês campeão de Fórmula 1 da história.

No GP de San Marino daquele ano, ultrapassou Gilles no final da prova, venceu e deixou o canadense com cara de poucos amigos no pódio. Clima de guerra aberto em Maranello. Poucas corridas depois, Gilles sofria seu acidente fatal nos treinos para o GP da Bélgica. A maré não estava mansa para a Ferrari naquele ano. Pironi, apesar da pinta de campeão que o carro superior lhe reservava, sofreu sério acidente no GP da Alemanha. As seqüelas decretaram o fim da carreira de piloto. Cinco anos depois, disputando uma prova de offshore, na Inglaterra, sofreu acidente fatal, deixando a mulher, Catherine, grávida de gêmeos. Quando os meninos vieram ao mundo, a viúva, à sua maneira, tratou de reconciliar os antigos companheiros de equipe, batizando um de Didier, o outro, de Gilles.

Impossível deixar de escutar, na mente, a estrofe final de “Mulheres de Atenas”, obra-prima de Chico Buarque: “as jovens viúvas marcadas e as gestantes abandonadas não fazem cena/ vestem-se de negro, se encolhem, se conformam e se recolhem/ às suas novenas, serenas”. Mas eis que nasce uma flor: deve ser melhor a vida de Corina Schumacher, apagada no circo, mas com marido vivo, que foram as vidas de Bette, Barbro, Catherine e muitas outras. Para quem não faz questão de drama mexicano, afinal, hoje a Fórmula 1 é melhor.

Aproveito para informar aos leitores do GPTotal que acabo de inaugurar meu blog, no endereço www.alessandraalves.blogspot.com. Lá, o cardápio é mais variado – ao automobilismo, acrescentei temas diversos, e a participação dos leitores é direta e muito bem vinda. Espero vocês também por lá!

Até a próxima!

Alessandra Alves
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