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Home » Colunas » Alessandra Alves » 23.01.06
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Adeus, amigos 23.01.06

Schumacher com o macacão da Jordan em seu GP de estréia, na Bélgica, em 1991.
Acho que terei dificuldade em explicar às novas gerações como conseguíamos escrever jornais diários antes da popularização da internet, dos telefones celulares, dos notebooks. Essas ferramentas se integraram de tal forma à vida cotidiana que é difícil imaginar-se sem elas. Mas vivemos muitos anos sem nada disso, e trabalhávamos, e o jornal chegava todo dia às bancas.

As notícias, sobretudo as do exterior, chegavam à redação pelo telex (saberei eu explicar o que é - ou foi - essa geringonça?). No quarto andar da Folha de S.Paulo, onde eu militava em 1991, havia uma sala de dimensões consideráveis para abrigar as máquinas, que cuspiam telex dia e noite. Havia sempre um boy destacado para retirar os informes de cada agência de notícias e os separar por temas, levando tudo em seguida para as editorias correspondentes. Ali, ele depositava o bolo de notícias em uma grande caixa de madeira - em cada editoria, uma caixa. E isso se repetia diversas vezes por dia.

Na função de redatora de Esportes, certa vez, separando os telex da manhã, deparei-me com uma notícia curta, mas que me pareceu relevante. Era referente ao GP da Bélgica, etapa seguinte do Mundial daquele ano, e dava conta do substituto do belga Bertrand Gachot na Jordan. O inexpressivo Gachot resolveu sair do quase anonimato apelando para algo diferente de sua habilidade ao volante. Em uma briga de trânsito, em Londres, lançou mão de um spray de gás paralisante contra seu oponente. Deu cana, e Gachot não poderia correr a prova seguinte.

Eddie Jordan, seu patrão, apelou para um jovem piloto, então apadrinhado da Mercedes, que fazia boa figura nas provas de protótipos daquele ano. Quase todo mundo sabe que esse jovem piloto era Michael Schumacher, mas essa história voltou à minha mente depois de ver uma edição recente da revista inglesa Autosport, com Schumacher na capa. O teor da reportagem não fez subir a cotação do euro nem se registrou qualquer alteração nas bolsas européias.

Schumacher faz o primeiro teste com a Ferrari F 2006.
O alemão diz que, se não "vencer" em 2006, não estará no grid de 2007. A eminente aposentadoria de Schumacher não vai espantar ninguém. Uma hora, afinal, todos paramos. O que me fez sentir certa nostalgia, e me transportar de novo para a cena do telex (que aliás era uma meleca, pois sujava as mãos de carbono!), foi a foto da capa. Em um close caprichado, está evidente: Schumacher ostenta vários fios de cabelo branco.

O jovem que substituiu Gachot na Jordan é um senhor que caminha inexoravelmente para a aposentadoria. Outros "jovens" pilotos, que vi nascer para a Fórmula 1 mesmo depois da chegada de Schumacher, também já não estão na categoria. Mas muitos saíram de ruins que eram. Schumacher vai sair, entre outras razões, pelo peso da idade. Vi muita gente arrasada pela morte de George Harrison não só pelo que o beatle representava, mas pelo que o fato em si mostrava. Era um ídolo daquela geração morrendo, e isso envelhece todo mundo. John Lennon tinha morrido muitos anos antes, mas de morte matada. Morrer como George, de morte morrida, abre a dimensão do envelhecimento de quem lhe foi contemporâneo. E é isso que a despedida de Schumacher vai representar para mim e para outros que viram seu surgimento, apogeu e declínio.

Mas antes de jogar a pá de cal sobre a carreira do alemão, vale a pena analisar brevemente o que Schumacher quis dizer com "vencer" em 2006. Não me parece que isso se refira a ser o campeão da temporada, mas de pelo menos lutar pelo campeonato, não fazer mera figuração como aconteceu no ano passado. O peso de sete títulos deve ser demasiado para suportar tal papel por dois anos seguidos, quanto mais prolongar a agonia por mais um campeonato.

A condição expressa por Schumacher - vencer ou parar - parece muito de acordo para um homem de 37 anos, heptacampeão mundial de Fórmula 1, pai de família, milionário. Ele teve paciência e obstinação para desenvolver a Ferrari junto a seu time de confiança - Jean Todt, Ross Brown, Rory Byrne - queimando quatro anos de sua carreira na tarefa. Mas isso começou a acontecer há quase dez anos. Não que ele esteja velho demais ou milionário demais para começar de novo, mas é difícil projetar qualquer coisa para a Fórmula 1 dos próximos anos. Com tantas mudanças de regras em curso, não há paciência ou obstinação suficientes sequer para imaginar como será a categoria em 2007.

Se houvesse uma bolsa de apostas sobre o tema, eu apostaria que Schumacher faz em 2006 sua última temporada. Saindo por baixo ou por cima, ainda assim daria adeus aos amigos antes que a Fórmula 1 se torne um espetáculo ainda mais indigesto de engolir. Pois que ninguém se esqueça: a adoção de regras para "garantir a competitividade", se levada a termo, pode transformar a mais famosa das categorias do automobilismo em uma filial européia dos campeonatos norte-americanos. Aqueles em que um torcedor cospe na pista e logo é dada bandeira amarela, ou se recolhem os carros para esguichadas de combustível no box porque o vento bateu mais forte e levantou a mini-saia de uma das mocinhas desejáveis do pit lane. Antes que ela se transforme nisso, Schumacher já terá se mandado, levando com ele o título de maior vencedor de todos os tempos da Fórmula 1.

E sabe o que vai acontecer quando ele se for da Fórmula 1? O mesmo que ocorre na morte de toda e qualquer personalidade muito amada e muito odiada: todos vão se sentir sua falta. Para venerá-lo ou para xingá-lo, para admirar suas manobras ou para blasfemar por sua inesgotável sorte, para colocá-lo ao lado dos melhores e provar que ele os superou a todos ou para colocá-lo ao lado dos melhores e provar que ele, afinal, não bateu o número de poles de Senna. Todos sentiremos sua falta.
Alessandra Alves
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