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| » » » 07.10.05 |
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| Vai, Rubens, ser gauche na vida |
07.10.05 |
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| Drummond e a praga do anjo torto |
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Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
Os versos iniciais do "Poema de Sete Faces", de Carlos Drummond de Andrade, ressoaram em minha mente, há alguns dias, com uma improvável adaptação automobilística. Autobiográfico, como grande parte de sua obra, o poema ressalta uma impressão de Drummond sobre si mesmo. Quando usa a palavra gauche (esquerdo, em francês), o poeta mineiro vê-se como alguém inepto, acanhado, à margem da realidade. Pensei nesse verso quando soube que Rubens Barrichello terá a companhia de Jenson Button na BAR, em 2006.
Admito que, no meu delírio literário sobre rodas, o sentido é ligeiramente diverso. Meu gauche, pretensiosamente, ganha outro significado: o da pessoa certa no lugar errado, ou do indivíduo errado no lugar certo. Seja o que for, esse me parece o caso de Rubens Barrichello na Fórmula 1, senão vejamos.
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| Barrichello, um autêntico gauche? |
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Barrichello estreou na Jordan quando o time apresentava um frescor quase juvenil, bem distante da vocação fim de feira que a equipe ostenta hoje. A Jordan era um autêntico "wanna be", aquele que quer ser algo que ainda não é mas, com alguma razão, pode aspirar a sê-lo. Ser vitorioso, no caso. Não nas mãos de Barrichello, que se mandou para a Stewart antes que a Jordan alcançasse suas quatro vitórias na Fórmula 1. A Stewart, capitaneada pelo tricampeão escocês Jackie Stewart e por seu filho, Paul, depois virou a Jaguar, depois a Red Bull. O velho escocês tinha o respaldo da Ford e, apesar de aparecer em público com umas saias típicas esquisitonas, conseguiu vencer na Fórmula 1 como construtor. Mas não com o braço de Barrichello. Coube ao veterano boa-praça Johnny Herbert a glória de conduzir a Stewart à sua primeira e única vitória na Fórmula 1. E Barrichello estava lá, na folha de pagamento da equipe.
Então, em 2000, Barrichello foi para a Ferrari, servir de príncipe consorte onde Schumacher foi rei. Acreditava, de fato, que ia para brigar de igual para igual, ou pelo menos tentava se fazer acreditar. Ficou célebre uma frase do brasileiro, na coletiva em que anunciou sua contratação pelo time de Maranello: "Não vou para ser segundo piloto. Vou ser piloto 1B." Se tinha em mente que poderia vencer Schumacher de verdade ou se representou o tempo todo, satisfeito com os dividendos, talvez só saibamos quando Rubens deixar a categoria e escrever seu alentado best seller. O que não se discute é que Barrichello, de novo, parecia o homem errado no lugar certo, principalmente se lembramos que, anos antes, recusou convite para pilotar uma imbatível Williams, que coroou Jacques Villeneuve e Damon Hill. O rebelde Jacques e o asséptico Damon podem não ser bons pilotos como Rubens, e isso renderia semanas de discussão em qualquer fórum (não, obrigada, estou fora). Fato é que os dois inscreveram seus nomes na história da Fórmula 1, como campeões mundiais. Foram homens certos nos lugares certos, coisa que Rubens ainda não conseguiu ser.
A ida para a BAR pode se configurar nesse momento de conjunções ideais. Agora ou nunca, sejamos honestos. Com 34 anos a completar em 2006, Barrichello está diante de sua última chance e tudo parecia perfeito até confirmarem seu companheiro de equipe. Na ida para a BAR, era lógico que Rubens tivesse status de primeiro piloto e pudesse aspirar a um coadjuvante cordial, como Sato ou algum congênere. Mas eis que a BAR move mundos e fundos para manter Jenson Button, esse inglesinho que ainda não fez nada, mas pouca coisa não deve ser.
No ano passado, a Williams o contratou para um período a partir da temporada de 2006, mas quis tê-lo já neste ano. Briga no tribunal, a BAR fez valer seu direito. Chegada a hora de partir, nem Button nem a BAR quiseram dizer adeus. Um acordo ba$eado ne$$a coi$a in$ignificante manteve Jenson como companheiro de equipe de Barrichello. Se os dois times lutaram pelo moço como um náufrago batalha por água doce em alto mar, algum valor ele deve ter, e isso deve se refletir na sua condição em 2006. Button não ficou na BAR para ser consorte de Rubens.
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| Button - alguma coisa esse cara tem... |
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Nosso colunista Luiz Fernando Ramos festejou a permanência de Button como um estímulo a Barrichello. Tento me apegar a esse otimismo, mas acho que Rubens está diante da mesma sina que vem acometendo os pilotos brasileiros desde que Nelson Piquet e Nigel Mansell travaram uma batalha fratricida na Williams, em 1987: a do inimigo íntimo. A coisa foi ainda pior entre Ayrton Senna e Alain Prost, em 1988 e 1989. E isso plantou nos brasileiros - torcedores, locutores, analistas, quase todo mundo - um vício arraigado, o de enxergar no companheiro de equipe o adversário maior a ser batido.
Quando Felipe Massa foi anunciado como companheiro de equipe de Michael Schumacher, em 2006, ouvimos diversas análises sobre suas possibilidades de bater o alemão e da melhor perspectiva que ele enfrenta, na comparação com Barrichello. Felipe será companheiro de um piloto no ocaso da carreira, que já conquistou quase tudo e bateu quase todos os recordes, portanto não tem a motivação do companheiro que Rubens encontrou, com a faca entre os dentes, no ano 2000. Mas pouco comentamos sobre a perspectiva de Massa de bater todo o resto do grid, como se a ele bastasse ser melhor que Schumacher.
Comparar companheiros de equipe é algo óbvio e lógico, na medida que, teoricamente, eles dispõem de condições semelhantes. Fazer disso o máximo da aspiração de um piloto é ridículo. Quando Antonio Pizzonia voltou à Williams, neste ano, assisti a um treino classificatório no qual o locutor dizia, com todas as letras e interjeições, que o importante para o brasileiro era ficar à frente do companheiro Mark Webber. Faça-me o favor! Pizzonia disputa o quê? A Fórmula 1 ou a Fórmula Williams? Isso me faz lembrar uma frase atribuída ao escritor Nelson Rodrigues, alfinetando o dramaturgo Dias Gomes: "Ele não consegue ser o melhor autor de novelas nem da casa dele", em referência à mulher de Gomes, a também escritora Janete Clair. A nós, basta que nosso piloto seja o melhor da própria equipe? A mim, não. Eu quero que ele seja melhor que todos.
Ao sair da Ferrari e abraçar a BAR, Barrichello pareceu a alguns como o escravo que conquista a alforria, um evidente exagero. Com o investimento alto da Honda, que acaba de assumir a totalidade das ações da BAR, o time ganhou a perspectiva de se tornar efetivamente vencedor na Fórmula 1, e Rubens poderia ser o eleito para dar aos japoneses esse título histórico.
Mas eis que vem o anjo torto, de novo, e coloca Button em seu caminho, dentro de casa. Tento, novamente, manter aceso meu otimismo, mas acho que esse anjo torto continua se empenhando na tarefa de manter Rubens um gauche na vida.
Alessandra Alves
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