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| » » » 24.08.05 |
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Gente maluca por carros, corridas e carros de corrida – como eu e você – costuma se lembrar do filme “Perfume de Mulher” por uma cena de tirar o fôlego, na qual o personagem vivido por Al Pacino, um cego, dirige uma Ferrari pelas ruas de Nova York.
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| Pacino na cena do tango, "Por una cabeza" |
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A seqüência inusitada termina com uma piada que só gente acostumada com as corridas entende completamente. Parado pela polícia, o personagem principal reage com algo como “Oh, sheet, yellow flag!” (“Que m..., bandeira amarela!”), numa referência àqueles chatos momentos da corrida em que os carros não podem fazer ultrapassagens.
Mas não foi a cena da Ferrari que me veio à mente no último domingo, depois do GP da Turquia, quando uma conversa familiar me remeteu a “Perfume de Mulher”. Lembrei primeiro da cena mais famosa do filme, quando Pacino dança um tango com uma bela jovem. Não é um tango qualquer, mas “Por una cabeza”, um dos maiores clássicos do gênero, provavelmente a obra prima de Carlos Gardel.
No filme, o tango surge em versão instrumental e, de fato, sua melodia é melhor do que a letra. Mas as palavras formam um paralelo interessante. Admirador de corridas de cavalos, Gardel compôs um tango que fala, em princípio, de uma prova de turfe vencida por pequeníssima diferença, “por uma cabeça”. Em princípio porque, na seqüência dos versos, o compositor traça um paralelo entre a frustração da aposta perdida na raia com uma desilusão amorosa. Termina com uma conclusão sombria e fatalista, a de que não adianta fugir aos encantos da mulher envolvente porque sempre tornará a ela, como volta, a cada semana, a fazer sua aposta no cavalo preferido.
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| Montoya, dois pontos de presente para Alonso |
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Ao deixar escapar a segunda colocação no GP da Turquia, o colombiano Juan Pablo Montoya entregou de presente dois pontos para o espanhol Fernando Alonso, líder do campeonato que vinha em terceiro. O estrago ganha tom de tragédia ao lembrar que Montoya é companheiro de equipe de Kimi Raikkonen, o finlandês da McLaren que se afigura como único oponente de Alonso na luta pelo título. Findo o campeonato, com o espanhol campeão, a imperícia do colombiano entrará para a história, ainda que outros fatos tenham ajudado a compor a seqüência de acordes melancólicos que hão de ecoar nos domínios da McLaren, fazendo a equipe de Ron Dennis parecer uma filial extemporânea do Caminito, ao descer o pano da temporada 2005.
O erro de Montoya, no final, pode se tornar a melhor saída para quase todo mundo, mas isso eu explico depois. Há momentos, na Fórmula 1, que um gesto parece conduzir a um fim e, no curso os acontecimentos, a conseqüência é totalmente diferente da imaginada. Vamos dar um pulo da temporada de 1984, no célebre GP de Mônaco que alçou Ayrton Senna ao estrelato.
Chovia a cântaros, e Deus sabe como aquela pista já é uma insanidade sob o sol de maio no Mediterrâneo. O francês Alain Prost, que tem medo de água mais ou menos como o Cascão, mantinha-se com sua McLaren na liderança, mas era nítido que, mais volta, menos volta, seria ultrapassado por Senna, em uma surpreendente segunda posição com sua Toleman. Algo como Tiago Monteiro e sua Jordan desafiarem Raikkonen nos dias de hoje. Atrás de Senna vinha o alemão Stefan Bellof, uma espécie de Viúva Porcina, aquela que era sem nunca ter sido, da Fórmula 1. Bellof, exaltado recentemente em uma tocante coluna do nosso Luis Fernando Ramos, aqui no GPtotal, é apontado por nove entre dez amantes da Fórmula 1 como o rival à altura de Senna, que só não dividiu corridas e títulos com o brasileiro porque morreu antes, muito jovem, há vinte anos.
Pois antes que se completasse a distância exigida para que a corrida tivesse seus pontos válidos integralmente, o diretor de prova e ex-piloto de F 1 Jacky Ickx encerrou a disputa, com Prost em primeiro, Senna em segundo e Bellof em terceiro. Na época, o primeiro lugar rendia ao vencedor nove pontos. Como só foi atribuída a metade da pontuação, Prost recebeu 4,5 pontos, Senna ficou com três e Bellof, com dois.
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| Mônaco, 1984: Prost em primeiro, com metade dos pontos |
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A temporada de 1984 foi vencida pelo austríaco Niki Lauda, com diferença de meio ponto para Prost. Foi a menor diferença da história entre o campeão e o vice.
Agora vejamos o que teria acontecido se a prova tivesse ido ao fim, com Senna e Bellof ultrapassando Prost e terminando nessa ordem. O brasileiro teria marcado nove pontos, Bellof, seis e Prost, quatro. No entanto, ao final daquela temporada, a Tyrrell, equipe de Bellof, foi desclassificada por conta de uma irregularidade técnica, perdendo todos os pontos conquistados. Isso teria feito Prost herdar a segunda colocação, marcando seis pontos e não quatro (nem os 4,5 que marcou de fato, com a interrupção da corrida e a meia-vitória). Com o segundo lugar em Mônaco, não teria meio ponto a menos que Lauda, mas um a mais, e seria ele o campeão.
O gesto do belga Jacky Ickx foi veementemente criticado por várias partes, logo após a corrida. No Brasil, pelo óbvio motivo de que ele impediu aquilo que parecia líqüido e certo como a primeira vitória de Ayrton Senna na Fórmula 1. Parecia, porque afinal o carro de Senna poderia quebrar antes do fim da prova, ele poderia enfiar o bico em um guard-rail, como aliás fez quatro anos depois, liderando e na pista seca. Chegou-se até a acusar Ickx de tentar favorecer a McLaren, que usava motores TAG-Porsche, sendo ele mesmo, o belga, piloto da Porsche no Mundial de Protótipos. A defesa de Ickx sempre pareceu muito bem fundamentada: manter a segurança dos pilotos. O eventual favorecimento a Prost desmanchou-se no ar com a aritmética acima demonstrada.
Pois voltemos a 2005. E a barbeiragem de Montoya, que reflexos há de ter no futuro próximo?
As últimas corridas têm demonstrado uma evidente superioridade técnica da McLaren em relação aos outros carros. Uma progressiva aproximação de Raikkonen a Alonso é algo possível e até provável, pois se a McLaren progride nitidamente, a Renault por sua vez não parece reagir além do limite de simplesmente administrar a vantagem alcançada no início do ano. O que significa que os dois pontos herdados por Alonso podem, sim, fazer a diferença. Mas onde foi, mesmo, que Raikkonen perdeu? Apenas da imperícia do companheiro de equipe?
Ou a McLaren teria perdido o título de pilotos nas duas vezes que o finlandês teve seu motor Mercedes estourado no treino e perdido dez posições no grid de largada? Ou teria Raikkonen dado adeus ao título de campeão quando teve o motor, novamente, estourado, agora durante a corrida, e na liderança, como aconteceu no GP de San Marino? Não teria ido para as cucuias durante o GP da Europa, em Nurburgring, quando o desgaste do pneu fez a suspensão ir para o espaço, mandando pelos ares também a chance do campeonato?
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| Raikkonen, o único inocente |
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Bonito, nessa história, por enquanto, só um: Raikkonen, que se perder o título terá vários culpados para apontar, menos o espelho. Se for honesto e transparente, consumada a derrota, Ron Dennis deveria ser clemente com Juan Pablo, reunir-se com Norbert Haug, da Mercedes, com Pierre Dupasquier, da Michelin, trocar o disco e, no lugar de Gardel, colocar para tocar um velho samba-canção de Ataulfo Alves, chamado “Errei, erramos”.
O erro de Juan Pablo pode passar para a posteridade como o redentor dos erros coletivos da McLaren em 2005. Quem manda ter uma cabeça tão notoriamente esquentada e sujeita a gestos intempestivos? Agora fica aí, sujeito a entrar para a história como o fiel da balança por um erro que pode custar um título. Por sua cabeça destrambelhada. Um título, por uma cabeça.
Alessandra Alves
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