 |
 |
|
| Comente |
| 13.11.08 |
 |
|
 |
|
| Opiniões e Dúvidas dos Leitores |
| 21.11.08 |
 |
|
 |
|
| Friends |
| 21.11.2008 |
 |
|
 |
|
| Pergunte ao GPTotal |
| Julho |
 |
|
 |
|
|
|
 |
|
12.11.08 - Carlos Chiesa |
 |
|
 |
|
|
11.10.08 - Ernesto Rodrigues |
 |
|
 |
|
|
|
|
|
 |
| » » » 10.08.05 |
 |
 |
Aumente o tamanho das letras:
12 |
16 |
20
|
| O que você vai ser quando crescer? |
10.08.05 |
|
 |
|
O compositor Chico Buarque escreveu certa vez que os jogadores de futebol podem dar a medida do quanto estamos velhos. Ele recordava uma ocasião em que, ainda muito jovem, esteve com o meia Zizinho e ficou maravilhado diante daquele antigo ídolo de sua infância. Jogador de futebol de mesa, Chico olhava para aquele senhor distinto e pensava: “Esse era um dos meus melhores botões e agora estou aqui, na frente dele...”. Anos depois, mais velho e ainda mais célebre, esteve com o meia Tostão, a quem admirava como jogador, mas não lhe tinha o mesmo respeito reverencial. “Ele é mais novo que eu, nunca foi um dos meus botões”, pensava, vendo a inocência perdida entre uma Copa do Mundo e outra.
A transferência de Rubens Barrichello para a BAR acendeu-me esse sentimento, talvez porque a troca de equipe sinalize inequivocamente a fase final da carreira do brasileiro. Barrichello pode ganhar mais corridas no novo time, pode até ser campeão, mas nada o afasta da perspectiva da aposentadoria em mais dois ou três anos. Esse eu vi nascer para o automobilismo, vi sair do kart para a Fórmula Ford, galgar categorias de acesso no Brasil, sair para a Europa e lá empreender carreira vitoriosa quando ainda tinha a cabeça cheinha de cabelos e o rosto de bumbum de nenê.
E talvez porque neste ano a Fórmula 1 irá consagrar o primeiro campeão mundial nascido nos anos 80, quando eu já assistia às corridas, ou porque à exceção de Cafu não existe nenhum jogador da seleção mais velho que eu, fato é que estou me sentindo mais velha, e a aposentadoria de Rubens tem sua parcela nisso também.
Enquanto a cena principal da Fórmula 1, no Brasil, era protagonizada por Nelson Piquet e Ayrton Senna, em uma trama de rivalidade e provocações mútuas, Barrichello se pegava a tapa, na pista, com um oponente de talento e tradição de berço – Christian Fittipaldi. Era uma transferência lógica imaginar que aquela disputa de moleques reviveria, em algum lugar do futuro, o duelo entre Piquet e Senna. Isso eu nunca vi, mas há quem dê fé de uma cena esdrúxula, com os pais dos jovens pilotos discutindo em altos brados por algum enrosco na pista enquanto Rubens e Christian esperavam o fim da briga empinando pipas juntos no descampado de Interlagos.
 |
| Alonso, o primeiro campeão dos 80´s. |
|
 |
 |
 |
No começo dos anos 90, havia intermináveis discussões sobre quem era melhor entre os dois e quem, entre eles, seria campeão na Fórmula 1 primeiro. Pausa. Convido você, estimado leitor, a refletir brevemente sobre a sua própria vida. Tente se lembrar de suas aspirações na adolescência ou no início da vida adulta. O que você queria para você mesmo?
Não me furto a refletir junto. Com meus quinze, dezesseis anos (idade na qual Barrichello já era piloto de kart havia alguns anos), eu tinha certeza de que queria ser jornalista, de que me formaria com 21 anos na faculdade e então jogaria uma mochila nas costas para passar um ou dois anos viajando pelo mundo. Quando voltasse, eu me dedicaria a ser crítica de música, escreveria para o caderno cultural de um grande jornal e teria um programa de rádio.
Desse quadro, restou só a primeira pincelada: realmente concluí minha faculdade com 21 anos. Não joguei a mochila nas costas com o canudo dentro, pois já trabalhava em um grande jornal, mas não em Cultura, e sim em Esporte.
 |
| Ayrton Senna, um competente engenheiro-mecânico. |
|
 |
 |
 |
Não viajei pelo mundo e nunca falei pelas ondas do rádio. No retrovisor da memória, chego a achar engraçado e ingênuo o plano da minha adolescência e acho que tive muita, muita sorte na condução da minha vida profissional. Faça o mesmo, pense na sua e veja quantos dos seus sonhos do passado hoje parecem sem sentido.
Voltemos a Barrichello. É claro que ele chegou à Fórmula 1 querendo ser campeão. O esportista, pela própria personalidade, é alguém que quer vencer. Os caminhos que afastaram Barrichello dos títulos foram traçados pelas oportunidades que ele teve e, sobretudo, pelas escolhas que ele fez. Recusar um convite da Williams, em um tempo em que esta era uma equipe verdadeiramente de ponta, pode ter sido a pá de cal na concretização do velho plano de ser campeão. Barrichello foi para a Ferrari em uma condição evidente de segundo piloto, mas tentou driblar a evidência, alardeando-se não como o número 2, mas como “piloto 1B”. Não era, nunca foi. Mas foi, nesses cinco anos, duas vezes vice-campeão do mundo, ganhou nove corridas, ganhou muito dinheiro. Não era o plano inicial, é por isso um fracassado?
 |
| Michael e Ralf Schumacher: que o queixo não o atrapalhe. |
|
 |
 |
 |
Vamos retroceder um pouco mais na vida desse moço. Barrichello não é filho da aristocracia, nem ao menos da alta burguesia. Veio de uma família classe média, gente comum. Pai e mãe, quando criam um filho, enxergam nesse ser humano uma pessoa eventualmente diferente do adulto que ele irá se tornar. A mãe de Ayrton Senna deve ter achado engraçadinha sua predileção por carrinhos de corrida desde a mais tenra infância. Pode tê-lo imaginado como um compenetrado engenheiro mecânico e ficado muito feliz com a perspectiva de vê-lo no comando de uma multinacional do setor automotivo, quando virasse gente grande.
Os pais de Michael e Ralf Schumacher podem ter suspirado aliviados quando o caçula nasceu. Mais bem acabado que o primogênito, Ralf poderia inspirar no pai e na mãe uma chance maior de sucesso na vida. “Sei lá, querida, Michael parece um bom menino, mas ele tem um queixo tão feio, será que vai conseguir um bom emprego, será que vai se casar algum dia?”
 |
| Barrichello, na pista por influência do tio. |
|
 |
 |
 |
Rubão e Ideli, os pais de Barrichello, não tiveram muito como afastar Rubens da pista logo em seus primeiros anos de vida. Sob a influência do tio Dárcio dos Santos, piloto nas décadas de 1970 e 1980, o talento de Rubinho manifestou-se muito cedo. Mas eles podem ter achado que aquilo, simplesmente, era um entusiasmo infantil. Marcados pela incomensurável tragédia de perder um filho (para quem não sabe, Barrichello teve um irmão mais velho, Robson, morto com poucos meses de vida), a maior esperança de seus pais pode ter sido a de que ele se tornasse adulto e tivesse saúde sempre. Ver o filho na Fórmula 1, pilotando na equipe mais tradicional de todos os tempos, duas vezes vice-campeão mundial, rico, pai de família pode ter sido muito mais do que eles imaginaram quando o menino alinhou para sua primeira corrida, mais de vinte anos atrás.
Sair da Ferrari e ir para a BAR não me parece a libertação dos grilhões para Barrichello, nem uma atitude estabanada. Soa-me apenas como o último capítulo de uma carreira que eu vi começar e se desenrolar. Quando estive algumas vezes frente a frente com Ayrton Senna e Nelson Piquet, senti o mesmo que Chico diante de Zizinho – uma admiração reverencial. Diante de Barrichello, não me sinto assim encantada: ele é mais novo que eu, nunca colecionei fotos suas, ele não foi “um dos meus botões”. No entanto, considero-o um vencedor. Torço para que ele tenha esse sentimento, também, embora acredite que ele carrega consigo pelo menos uma semente de mágoa. Para seus pais, tenho certeza, ele fez muito mais do que poderiam imaginar.
Alessandra Alves
|
|
 |
| | |
|
|
 |