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Plagiar o orangotango 27.06.05
Indignação e consternação diante da presepada de Indianapolis.
“Ladies first”, ou seja, “as damas primeiro”, é uma máxima do cavalheirismo que nem sempre vale na vida cotidiana. Todos os colunistas do GPTotal escreveram sobre o GP dos Estados Unidos, mais de uma semana se passou e por razões diversas, só agora tenho a palavra, o que não é tão ruim. A poeira baixou, os cacos foram recolhidos e o tempo, afinal, pode ser bom conselheiro, dando-me argumentos mais sólidos e serenos para minhas assertivas.

Ficamos alguns dias tentando descobrir de quem tinha sido a culpa pela corrida esdrúxula de Indianápolis. A Michelin, as equipes equipadas com os pneus da fabricante francesa, a FIA, a Ferrari. A postura da Michelin não deixou dúvidas desde o início: ela errou e tentou de tudo para garantir a segurança dos pilotos por ela equipados. Quero tocar em dois pontos que me parecem, ainda e apesar do longo período transcorrido, pouco abordados.

Em primeiro lugar, recordo-me dos relatos do jornalista Fábio Seixas, Folha de S.Paulo e Rádio Bandeirantes. Pela rádio, ao longo do sábado e na manhã do domingo, acompanhei Seixas nas ondas do rádio transmitir notícias inconclusas sobre o que aconteceria nas horas seguintes. Entre os fatos relatados pelo repórter, a medida desesperada da Michelin de lotar com pneus novos um avião em Clermont Ferrand, sua sede na França, para tentar convencer a FIA a permitir a troca dos compostos para a corrida, sempre em nome da segurança.

Observação impertinente: as novas regras de pneus não tinham por objetivo, além do “aumento da competitividade”, a redução de custos? Deve ter ficado baratinho o fretamento desse avião, hein?

O outro ponto em relação à Michelin é a postura diante do erro. Vou contar uma breve historinha. Há dez anos, trabalhei na assessoria de imprensa de uma grande montadora. Eu era bem jovem e mais ingênua e não entendi quando meu chefe comentou, com visível satisfação, que a empresa faria um recall. Essa expressão, consagrada no meio automobilístico, é a troca de uma peça ou o conserto de um componente de um determinado lote de carros, custos por conta da montadora. Acontece sempre que a empresa descobre uma possibilidade de tal peça falhar e colocar em risco a segurança dos ocupantes do veículo. 

Diante da minha dúvida, meu chefe explicou que o recall era um momento positivo da empresa, pois evidenciava a responsabilidade da montadora, sua transparência e o respeito com seus consumidores. Anos depois, eu tive meu carro convocado para um recall e achei uma aporrinhação dos diabos. Ninguém quer perder tempo com uma coisa que não é de sua responsabilidade, como gastar algumas horas do seu dia levando o carro em uma concessionária. O fato de admitir que errou é, sem dúvida, muito melhor do que tirar o corpo fora. Mas melhor do que isso é não errar. Todos erramos, a Michelin errou e assumiu seu erro. Por que a Bridgestone, a Ferrari, a Jordan e a Minardi teriam de assumir parte dessa responsabilidade também?




Dupasquier, da Michelin: será que ele aceitaria uma chicane proposta pela Brigestone?
Nesse ponto, entro em outro aspecto bastante discutido na última semana: se a Ferrari deveria ou não ter aceitado a tal chicane na curva 13. Então é assim: vocês fazem, ano após ano, mudanças no regulamento para forjar uma suposta maior competitividade, sempre procurando me prejudicar e, agora, diante de um erro de vocês, sou eu quem deve limpar sua barra? Foi mais ou menos isso que esperaram da Ferrari. Isso me fez lembrar um filme, com música-tema de Chico Buarque – “Perdoa-me por me traíres.” Ora, ora... E se fosse o contrário, se o erro tivesse sido da Bridgestone e tirasse da prova Ferrari, Jordan e Minardi? As outras seis equipes mexeriam um de seus dedos para permitir a participação das três eventualmente excluídas?




O episódio parece ter dado força à idéia de um fornecedor único de pneus. Sem concorrência, a borracheira escolhida não arriscaria seus compostos ao nível da insegurança, ficando menos sujeita a erros como esse. Não se espere, apesar disso, mais competitividade. Em 1988, só a Goodyear fornecia pneus para todas as equipes. Resultado do campeonato: McLaren 15 x Ferrari 1.




“Sou apenas um brasileirinho lutando contra esse mundo todo.” Frase de Rubens Barrichello depois de mais um passa/não passa, segura/deixa passar com Michael Schumacher. Olha, Rubinho, você pode parar com essa vocação para fazer frases de efeito, tá?!. Você pilota, nós criamos as frases, OK? Essa sua pérola, por pouco, não consegue fazer a síntese entre duas correntes filosóficas do pensamento brasileiro contemporâneo. Ela oscila entre o ufanismo da esquerda e o viralatismo de Nelson Rodrigues. Pára com isso, viu, menino?! Ou você vai acabar intelectual.




Indianápolis 2005 foi uma corrida tão significativa que praticamente sepultou um assunto que teria dado muito pano pra manga – as propostas para o novo regulamento, a partir de 2008. Esse morto-vivo vai sair da tumba qualquer hora dessas e nós teremos ocasião de debater. De cara, gostei de algumas idéias. Torço para que a FIA não tente reinventar a roda e permita à Fórmula 1 manter-se como um palco para inovações tecnológicas. Sinto-me habitualmente desconfortável com mudanças radicais que prometem começar tudo do zero ou retomar situações do passado. Essas rupturas, ao fim e ao cabo, mostram que o homem só tem como alternativa evoluir.

Ortega: sem saber, definiu perfeitamente o tipo de inteligência que criou os atuais regulamentos
Refletindo sobre isso, lembrei-me de uma referência ao filósofo espanhol Ortega y Gasset, no divertido blog puragoiaba (www.puragoiaba.wunderblogs.com). O dono desse blog, meu amigo Ruy Goiaba, postou há algum tempo o seguinte trecho do espanhol, do “Prólogo para franceses”: "As revoluções, tão incontinentes na sua pressa, hipocritamente generosa, de proclamar direitos têm sempre violado, pisado e rasgado o direito fundamental do homem, que é a própria definição de sua substância: o direito à continuidade. A única diferença radical entre a história humana e a 'história natural' é que aquela nunca pode começar de novo. Kohler e outros demonstraram como o chimpanzé e o orangotango não se diferenciam do homem por aquilo que, a rigor, chamamos de inteligência, mas porque têm muito menos memória do que nós. Os animais se defrontam a cada manhã com o fato de terem esquecido quase tudo o que viveram no dia anterior, e seu intelecto tem que trabalhar sobre um material mínimo de experiências. Da mesma forma, o tigre de hoje é idêntico ao de seis mil anos atrás, porque cada tigre tem que começar de novo a ser tigre, como se nunca tivesse existido outro. O homem, ao contrário, devido a seu poder de lembrar, acumula seu próprio passado, toma posse dele e o aproveita. Nunca é um primeiro homem: desde o início, já existe a partir de um certo nível de passado acumulado. Este é o tesouro único do homem, seu privilégio e sua marca. E, de todo esse tesouro, a maior riqueza não consiste no que parece certo e digno de ser conservado: o mais importante é a memória dos erros, que nos permite não cometer os mesmos. O verdadeiro tesouro do homem é o tesouro de seus erros, a longa experiência de vida decantada gota a gota durante milênios; Nietzsche define o homem superior como o ser 'da mais longa memória'. Romper a continuidade com o passado, querer começar de novo, é aspirar a plagiar o orangotango."

Max Mosley, o "cientista" dos regulamentos: lógica de orangotango.
Max Mosley, não aspire a plagiar o orangotango. Lembre-se do vexame de Indianápolis, recorde-se dos polegares para baixo. Ali, você fez o que tinha de fazer – cumprir o regulamento. Seu erro foi fazer esse regulamento de m...
Alessandra Alves
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