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| » » » 03.06.05 |
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| Mad Max x Charles Darwin |
03.06.05 |
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Charles Darwin era um cientista inglês que, em 1835, saiu pelo mundo em uma excursão científica e elaborou a teoria definitiva sobre a evolução das espécies em nosso planeta. Darwin foi parar no arquipélago de Galápagos, no Oceano Pacífico. Juntou as observações da viagem com seu já sólido conhecimento e escreveu o livro “A origem das espécies”. O que havia de revolucionário na teoria de Darwin? O conceito de que a vida evolui por meio da seleção natural. Mais ou menos isso: os mais fortes, ou mais rápidos, ou mais bem preparados sobrevivem aos mais fracos, mais lentos, mais desajeitados.
Isso todo mundo aprendeu na escola e hoje, à luz do conhecimento mais amplo, é uma idéia quase óbvia. Existe, é certo, uma corrente chamada criacionista, encampada por algumas alas de algumas religiões, que quer ver o diabo e não quer ver Darwin nem pintado de ouro. Acham que a teoria da evolução das espécies contraria o dogma de que foi Deus quem criou o mundo e tudo o mais que tem no planeta, incluindo as amebas, as cobras, os jumentos e os presidentes de Federações Mundiais de Automobilismo.
Max Mosley, presidente da FIA – a entidade máxima do automobilismo esportivo mundial – tem tudo para ser eleito o maior totem do criacionismo, pois ele foi além de rechaçar a teoria darwiniana como uma explicação para a evolução das espécies. Mosley pode mais e simplesmente revogou a seleção natural na Fórmula 1. Agora, não tem mais essa de “os mais fortes, ou mais rápidos, ou mais bem preparados sobrevivem às mulas mancas”.
Mosley deu um jeito de legitimar a teoria do caos, talvez a mais primitiva das explicações para o começo de tudo. Agora, na Fórmula 1, é assim: os mais fortes ou mais rápidos podem ter um pneu estourado na última volta e o acaso dá a vitória ao segundo colocado. Polivalente esse acaso, que também garantiu que a quebra da suspensão de Raikkonen não terminasse com um pneu a sei-lá-quantos quilômetros por hora caindo em cima da cabeça do piloto. Em sua coluna de segunda-feira, relatando o GP da Europa, nosso colunista Luis Fernando Ramos chamou o acaso de dedo de Deus. Seja quem for, essa entidade atabalhoada e sem escrúpulos – acaso, caos, dedo de Deus – é quem está definindo os resultados da Fórmula 1.
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| Raikkonen e a suspensão partida no GP da Europa. |
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Tenho consciência que, ao defender essa teoria, estou batendo de frente com a opinião de muita gente, a começar com a de um dos meus mentores e queridos amigos. No site Grande Prêmio, parceiro do GPTotal, o jornalista Flavio Gomes defendeu nessa semana que a responsabilidade pelo incidente que custou a vitória a Raikkonen é da McLaren, por ter mantido o piloto na pista mesmo com o desgaste evidente dos pneus, notadamente o dianteiro direito. A posição do meu ex-editor acabou, de alguma forma, sendo defendida também pelo próprio Max Mosley, ao cobrar das equipes e dos fabricantes mais responsabilidade nas condutas durante as provas e no desenvolvimento dos compostos de borracha.
Cabe, aqui, mais uma análise. Vamos supor que a McLaren decidisse reduzir o risco a que seu piloto, os outros e eventualmente os espectadores estavam expostos diante de um mais que provável incidente, como o que acabou acontecendo com a quebra da suspensão dianteira direita. Ela teria duas alternativas: comunicar à direção da prova o risco iminente e pedir a autorização para a troca do pneu ou simplesmente mandar Kimi estacionar seu carro.
Na primeira alternativa, a equipe ficaria à mercê da direção da prova, ou seja, da própria FIA. Primeiro, a equipe faria a solicitação. Depois, a direção analisaria. Finalmente, decidiria. O diretor da prova ou qualquer de seus imediatos poderia dizer que não. Se o fulano em questão achasse que o braço da suspensão, àquela altura transmutado em algo mais parecido com uma batedeira de bolo, não oferecia risco de segurança, poderia negar a tal autorização. É possível, é subjetivo. Trocar pneus, àquela altura, custaria a vitória a Kimi e isso pode nem ter sido cogitado pela McLaren. Mas, se cogitasse, ficaria sujeita a uma autorização – da FIA.
Mas vamos supor que a McLaren apenas colocasse a mão na consciência e mandasse Kimi parar. Mas, naquela altura? Liderando a prova? Com Alonso, também de pneu quadrado, chegando e, por que não dizer, também correndo o risco de ter seu pneu estourado? Quem mandaria o piloto encostar? Os pneus têm dado mostras de desgaste seguidamente, nas últimas corridas. Alguém, nas equipes, cogitou que esse desgaste poderia acarretar um problema de segurança e mandou algum piloto parar?
Não, porque corrida é assim. O objetivo é chegar na frente e, como na evolução das espécies, a seleção natural da Fórmula 1 sempre coroou os mais fortes, mais rápidos, mais bem preparados. Uma das maiores belezas da teoria descrita por Darwin é o conceito do equilíbrio. Por mais que pareça chocante o fato de haver relações como a do predador e da presa, o comportamento animal guiado pelo instinto leva ao equilíbrio do ecossistema. É a mão do homem, sua ação desregrada e ambiciosa na natureza, quem habitualmente perturba esse equilíbrio.
Agora, vejamos. Ao abandonar a prova na última volta, vítima da regra que proíbe a troca de pneus, Kimi jogou a vitória no colo de Alonso. Alonso, o espanhol que já liderava o campeonato e se distanciou ainda mais na tabela. Ou seja, a evolução da McLaren levaria a um equilíbrio de forças e o campeonato poderia ficar ainda mais competitivo. Mas a mão do homem, a mão da FIA, como o ser humano na natureza, perturbou o equilíbrio do ecossistema da Fórmula 1.
Agora, depois da polêmica, a FIA aventa a possibilidade de obrigar a equipe a trocar pneu se julgar necessário, por questão de segurança. Isso me parece a democracia brasileira. Aqui, ou se é proibido de votar ou se é obrigado. Na Fórmula 1, pode ser assim: ou a equipe é proibida de trocar pneus, ou obrigada. E nós continuamos acordando cedo no domingo, para vociferar na segunda e continuar perplexos na sexta. Sei lá, nesse mundo animal que me meti, acho que somos umas antas...
Do vasto arquivo em papel do GPTotal. Essa saiu da revista Grid, edição de 1995, criando expectativa pela ida de Schumacher para a Ferrari, no ano seguinte: “De bem com a vida, milionário, com a vida sentimental resolvida e, aos 26 anos, com uma carreira de recordes pela frente. O que mais poderia querer Michael Schumacher? A resposta é muito simples: conquistar o tricampeonato, o tetra, o penta... Será a hora da verdade: Schumacher terá a dura missão de encerrar o jejum de títulos da Ferrari para finalmente quebrar os recordes da Fórmula 1. É atrás deles que Michael Schumacher começa a correr a partir da próxima temporada”.
O texto é de Luiz Alberto Pandini, que só errou ao parar no penta. Mas, não podemos culpá-lo, porque ninguém poderia supor que o alemão iria para o hexa e para o hepta a bordo da Ferrari, que custou para decolar. E, além do mais, Panda sempre foi fã demais de Juan Manuel Fangio para aceitar, assim, de mão beijada, que alguém iria soterrar o recorde de títulos do argentino.
Alessandra Alves
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