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Mr. Simpatia 04.05.05
Não vi praticamente ninguém dar bola para uma declaração de Bernie Ecclestone na semana passada, na qual o todo-poderoso da Fórmula 1 se queixava da pouca simpatia de Michael Schumacher. Mais do que se queixar, Bernie reputava à frieza do alemão com os espectadores o desinteresse crescente do público em relação à Fórmula 1.

Diante de notícias como essa, sinto-me sempre com duas alternativas díspares à frente: ou levamos a coisa como piada, e embarcamos no mote, ou argumentamos contra o impropério, abusamos da indignação e alimentamos com gosto nossa gastrite. Otimista que sou, prefiro sempre ser feliz, então vou levar como piada.

Schumacher, basta um sorriso
Claro, o desencanto com a Fórmula 1 vem da frieza de Schumacher, do fato de ele não estar acessível sempre para dar autógrafos (não estou inventando, Bernie falou isso também). Não vem da seqüência longuíssima de corridas e temporadas sem disputas na pista e ultrapassagens espetaculares.

Houve um tempo em que os campeonatos eram empolgantes por serem decididos entre pilotos simpaticíssimos, sempre afeitos a fotos e autógrafos, por nenhuma outra razão. Em 1986, por exemplo, o título foi decidido entre um brasileiro sempre muito bem-humorado, merecedor do significativo “Troféu Limão”, um francês habitualmente sorridente, fair-play total com adversários e companheiros de equipe, um inglês que freqüentemente parecia falar com mais entusiasmo de golfe que de carros e um outro brasileiro que só costumava mostrar os dentes quando a luz da câmera da TV brasileira se acendia.

Não precisamos retroceder quase duas décadas na história. Mudemos apenas de categoria. Na MotoGP, Valentino Rossi está marcando época como um dos mais completos e arrojados pilotos de todos os tempos porque pilota como um iluminado ou porque faz micagens após a corrida e se mostra “simpático” com o público? Nosso colunista Geraldo Tite Simões, do alto de décadas como espectador, piloto e jornalista seguindo Mundiais de Motovelocidade, evidenciou em sua última coluna, aqui no GPTotal, como têm sido históricos os últimos eventos dessa categoria.

Se fosse apenas pelas estripulias de Rossi, tenho certeza de que nem Tite nem o mundo estariam babando pela MotoGP. Rossi e suas micagens é apenas Harlem Globetrotters. Lembra deles? Ninguém daria por isso mais do que se dá por uma videocassetada. Rossi, seu gênio em duas rodas, suas disputas contra competidores de alto nível - e suas micagens – é o espetáculo completo.
Valentino Rossi, o segredo do sucesso

Bernie pode estar se referindo a isso, que falta calor humano à Fórmula 1 atual e o germânico heptacampeão não parece o ícone talhado para salvar a categoria desse mal. Mas, muito além da questão da personalidade dos pilotos, a Fórmula 1 se engessa em conceitos e procedimentos que por si só afastam o público – fisicamente – dos carros e dos pilotos. Vou relatar um episódio ridículo que vi no GP do Brasil de 1995. Damon Hill rodou e não conseguiu fazer sua Williams voltar a funcionar. Voltou a pé para os boxes. Como o incidente foi bem no miolo, subiu a rampa do estacionamento interno e alcançou a área de box pelo portão do paddock. A “otoridade” que tomava conta do local, no momento, relutou, e muito, em deixar o piloto entrar. De macacão e capacete, sim. Mas sem credencial! Sem credencial não entra, ordens são ordens. Que dirá para um simples torcedor.

É evidente que não se pode levantar a guarda, franquear portões a qualquer um, mas a Fórmula 1 é um espetáculo inacessível até mesmo a muitos convidados vips que se locupletam de camarotes dentro do autódromo. Entra-se no circuito, assiste-se à corrida com conforto e, eventualmente, regalias. Tête-à-tête com piloto, nenhum.

Voltando ao exemplo da MotoGP, a transmissão pela TV contribui para humanizar a categoria. Em todo evento da temporada, antes da largada, a transmissão mostra cenas do que aconteceu nos dias anteriores à corrida. Nelas, vemos provas preliminares, pilotos e equipes em jogos e eventos culturais. Não raro, mostram as estrelas da motovelocidade em ação junto a entidades de voluntariado, participando de alguma ação social local. Não tem exatamente a ver com a corrida, com o pega-pra-capar que vai acontecer minutos depois, quando a luz vermelha se apagar, mas funciona para aumentar a empatia do público junto àqueles pilotos. 

Vamos refletir rapidamente: o que nós ficamos sabendo sobre os pilotos da Fórmula 1 se dependermos apenas da transmissão da TV? Quantos de nós sequer conhecemos o rosto de pilotos novos, estreantes ou das equipes menos badaladas? Você seria capaz de apontar rapidamente, vendo uma foto ou imagem, “em trajes civis”, quem é Christian Klien, Tiago Monteiro ou Christjan Albers? Você já viu Coulthard, Villeneuve, Massa ou Heidfeld fazendo ou falando alguma coisa que não se relacionasse à corrida que vai correr ou acabou de correr?

Os pilotos da Fórmula 1, de fato, parecem não existir como seres humanos fora da pista, mas essa aparente “desumanização” da categoria não é a culpada pelo eventual desinteresse do público. O GP de San Marino, com a ascensão de Schumacher e a perspectiva de ultrapassagem sobre Alonso, mostrou que a Fórmula 1 pode encantar hoje como encantou no passado. E isso se fará na base da roda com roda, não de sorrisos mais abertos nem de autógrafos mais fáceis.
Flavio Gomes no Programa do Jô: vai ao ar essa semana!


GPTotal no Programa do Jô. O primeiro livro do selo GPTotal, “O Boto do Reno”, foi destaque na gravação de ontem do Programa do Jô, da TV Globo. O autor, Flavio Gomes, foi um dos entrevistados da noite. O programa deve ir ao ar na quinta, dia 5 de maio, ou na sexta, dia 6. Fique ligado e veja nosso “filhote” na TV.
 
Alessandra Alves
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