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Mão à palmatória 20.04.05
Mão à palmatória

No final de 2004, aqui mesmo no GPTotal, escrevi uma coluna intitulada “Mulher ao volante”. Para quem não leu, o resumo é o seguinte: defendi a tese de que não fazia sentido colocar homens e mulheres disputando juntos uma corrida de carros, porque a força física é determinante e, sendo assim, os homens sempre vão levar a melhor.

Na ocasião, recebi algumas cartas de leitores – surpreendentemente, todos homens – contestando minha tese. O ponto defendido por eles, quase em unanimidade, versava sobre a questão da preparação física, apontando que se ela é, de fato, um aspecto observado por todos os pilotos, atualmente, não pode ser considerada determinante. A habilidade, a concentração, a dose certa de audácia, todas juntas, é que diferenciam um piloto de outro, e isso não tem nada a ver com sexo.

Bia Figueiredo no pódio. Vitória histórica na Fórmula Renault.
Eu, mesmo assim, discutiria esse argumento. Se o diferencial será dado por uma mistura de elementos que inclui a concentração, só por isso eu já esticaria a conversa, porque é praticamente senso comum que a concentração dos homens é bem diferente da das mulheres. Somos capazes de, ao mesmo tempo e sem bater, dirigir, retocar o batom e falar pelo celular (pelo viva-voz, evidentemente). Os homens dificilmente conjugariam três atividades tão díspares. Dirigindo, estão só dirigindo, o que inclui dizer que estão de olho no velocímetro, no mostrador do tanque de combustível, no conta-giros, provavelmente não vão errar uma troca de marchas, coisas que para a maioria das mulheres são detalhes irrelevantes do ato de dirigir.

Pois os deuses pareceram se reunir para que, em um único final de semana, um monte de mulheres saísse ganhando provas mundo afora, semana passada. No Brasil, o feito mais significativo foi a vitória da paulista Bia Figueiredo na Fórmula Renault, a primeira mulher a vencer uma prova da categoria em todo o mundo. Bia, aliás bastante citada pelos leitores que me escreveram naquela ocasião, tem feito uma carreira consistente desde o kart. Em uma entrevista ao programa Pole Position, da Rádio Bandeirantes, apresentado pelo jornalista Flavio Gomes, no sábado passado, Bia contou que essa vitória tem “batido na trave” desde sua estréia na categoria (esse ano, ela faz a terceira temporada de Fórmula Renault). 

Debora Rodrigues
O que mais me chamou a atenção na entrevista toda foi o fato e que Bia falou o tempo inteiro como piloto, não como mulher-piloto. Sua análise era da mesma linhagem daquelas que os pilotos mais experientes e bem articulados fazem após uma prova. Ela não se locupletou do fato de ter sido a primeira mulher em todo o planeta a vencer uma prova da categoria para ficar bradando contra as dificuldades de ser mulher em um meio tão machista. O discurso de Bia Figueiredo evidenciou-me uma impressão, a de que o feminismo acabou. Não porque tenha ficado anacrônico ou desgastado como retórica, mas porque algumas coisas tornaram-se naturais para o mundo: mulher trabalhando e decidindo a própria vida é uma coisa muito natural, mulher tomando a iniciativa em diversas circunstâncias é uma coisa muito natural, mulher ganhar corridas, cedo ou tarde, vai acabar se tornando uma coisa natural.

E se eu queria mais resultados para enterrar de vez minha tese da força bruta contra a fragilidade feminina, do Paraná me vem Débora Rodrigues, a ex-sem terra, subindo pela primeira vez ao pódio da Fórmula Truck. A mulher é piloto de caminhão! Vou argumentar? 

A inglesa Katherine Legge no pódio de Long Beach após vencer a primeira corrida da Fórmula Atlantic.
Nos Estados Unidos, uma mulher, Katherine Legge, derrotou os homens na primeira etapa da Fórmula Atlantic – que, nos Estados Unidos, tem mais ou menos o mesmo peso que a Fórmula 3 na Europa. E, em Interlagos, uma outra mulher, Fernanda Parra, terminou em segundo lugar na categoria Força Livre (força mecânica, bem entendido) depois de liderar por um bom tempo. 

Dou a mão à palmatória: elas podem correr junto com eles. É só uma questão de proporção – há mais homens que mulheres correndo – não de habilidade, daí a escassez de mais resultados positivos para as “meninas”. 




Na sua coluna da semana passada, o colunista convidado Castilho de Andrade lembrou nomes do nascente jornalismo automobilístico nas décadas de 60 e 70 e fez algo que eu pretendia fazer há algum tempo: falar de Luiz Carlos Secco. Quando eu estava no último ano da faculdade, empreendi um trabalho de conclusão de curso sobre a cobertura da Fórmula 1 no Brasil (para vocês terem certeza de que essa história de corrida é mesmo bem velha na minha vida).

Fernanda Parra
Naquela época, 1991, Secco era gerente de imprensa da Autolatina, a holding que reuniu as operações da Ford e da Volkswagen no Brasil entre o fim da década de 80 e o começo da seguinte. Cada entrevistado que eu contatava, para o meu trabalho, falava-me a mesma coisa: você precisa entrevistar o Secco, ele que começou tudo aqui. Fui atrás do Secco, que me recebeu muito gentilmente em um fim de tarde no prédio ocupado pelo alto escalão da Autolatina. Anos depois, tive a honra e a sorte de ser convidada por ele e por seu filho, José Carlos, para integrar a equipe de assessoria de imprensa da Ford, quando o casamento com a Volks terminou. Trabalhar com Secco foi uma escola, além de um manancial praticamente inesgotável de histórias.

Na juventude, Secco foi um respeitável ciclista, tendo transmitido o gosto pelas bicicletas aos filhos, além de ter disputado provas internacionais representando o Brasil. Certa vez, Secco foi a Portugal para uma dessas competições. Acostumado ao clima dos trópicos, surpreendeu-se com o calor sufocante das terras lusas. Em um trecho de subida, particularmente difícil, a organização da prova providenciou água e frutas aos competidores, para a reposição de fluidos e outros nutrientes. Em competições, normalmente, impera o coleguismo em certas circunstâncias e Secco foi alvo da gentileza de um oponente, que se serviu de um pedaço de melancia e ofereceu parte dela ao brasileiro. Secco aceitou, comeu o que restava da fruta, mas continuou com sede. Teve a idéia de morder a casca, para retirar-lhe um resto de água. O colega solícito, ao ver tal cena, desandou a gritar, com acentuadíssimo sotaque português: “A casca não se come, a casca não se come.”

Anos depois, nos tempos de Estadão, Secco saiu para almoçar com um jovem colega cabeludo, repórter do Jornal da Tarde. Na época, a redação dos dois jornais ficava no fervilhante centro de São Paulo. Em uma calçada movimentadíssima, o colega de Secco pára um transeunte e lhe cumprimenta efusivamente. “Puxa, há quanto tempo!”, diz o jornalista para o homem, e segue enfileirando frases como “E o pessoal, está todo mundo bem?”, “Preciso aparecer qualquer dia”, “Diz lá para eles que me encontrou”, enquanto o homem se mantinha com a expressão cada vez mais confusa e constrangida. Despediram-se. Logo depois, Secco perguntou quem era o conhecido. “Não sei, não conheço, mas já pensou como ele vai ficar a tarde inteira tentando lembrar quem eu sou?!”, e soltou uma gargalhada, o então cabeludo Castilho de Andrade.
Alessandra Alves
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