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O acabado e o interminável 30.03.05
Parecem favas contadas que Jacques Villeneuve não emplaca a temporada inteira de Fórmula 1. Há quem diga que sua sobrevida na Sauber não chega sequer a Imola, primeira corrida européia da temporada. E Jacques parece pouco preocupado com isso. Aliás, Jacques parece não estar nem aí para a Fórmula 1. Perguntado sobre o que sabia do Bahrein, saiu-se com essa: “Pelo que soube, é um lugar seco, com muito sol e bastante areia.” Não correu lá no ano passado, quando cumpria uma espécie de ano sabático. Para se familiarizar com a pista, jogou videogame. É tudo muito nonsense para ser só isso. A cabeça desse rapaz não deve ser (ou pelo menos estar) das melhores.
Villeneuve e o troféu da vitória na 500 Milhas de Indianapolis de 1995: imaginava-se um futuro glorioso pela frente
Jacques Villeneuve fez uma geração inteira suspirar, quando alçou rapidamente a condição de piloto campeão na América do Norte. Vi colunista do GPTotal ficar com os olhos cheios d´água ao presenciar o jovem Villeneuve desafiar o velho Emerson, e vencer lindamente em Elkart Lake, 94. Foi um foguete, o filho de Gilles: em 95, campeão da CART; 96, rumou para a Fórmula 1, a bordo de um potentíssimo Williams e não fez feio, ficando com o vice atrás do companheiro Damon Hill; 97, chamou Schumacher para o pau (não pensem besteiras) e conquistou seu único título na categoria.

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ultrapassagem de Piquet.

Os olhos marejados tinham raízes profundas. Não era nada menos que isso: ver Villeneuve campeão significava resgatar o pai morto que não teve título. Gilles Villeneuve encantava a muitos com suas manobras ousadas, enlouquecia outros pelos mesmos motivos. Gênio, louco, inconseqüente, indomável: achou a morte em uma curva do circuito de Zolder, no treino de sábado para o GP da Bélgica
de 1982.
Quinze anos depois, Jacques parecia lavar a honra da família, apresentando-se como um Villeneuve melhorado. Não era espetacular como o pai, mas sobrava em eficiência. É claro que a mítica em torno de seu nome ajudou a catapultar sua carreira. Nem todo mundo entra na Fórmula 1 pelas portas de uma equipe de ponta, como ele fez. Mas alguns entram – Juan-Pablo, por exemplo – e nem por isso são vice-campeões no ano de estréia e campeões na temporada seguinte.

Quando a British American Tobacco resolveu criar a BAR, no final de 1998, e convidou Jacques para o lugar de primeiro piloto, a perspectiva parecia encantadora. Tinha-se a impressão de que Jacques estava formando um time de amigos, ou pelo menos de gente competente em quem ele confiava. O jovem Villeneuve foi embora da lendária casa de Grove para um time estreante arrotando para o mundo que o que ele buscava no novo endereço era alegria de competir e pilotar. Capitaneando a empreitada, Craig Pollock, amigão de Jacques, sócio da BAR.

Confesso, fiquei comovida. Aquilo parecia discurso do Nelson Piquet no fim de feira da Brabham, quando ele tinha convites e cacife para pilotar carros eventualmente melhores, mas não largava os velhos companheiros. Dizia que seu barato era pôr para andar as engenhocas que o doidão Gordon Murray projetava. Poderia ter ganhado mais títulos – e mais dinheiro – mas o hedonismo é uma característica difícil de derrotar.

Cena que já faz parte do passado: os caracteres da TV apresentando Jacques como vencedor de um GP.
Mas a política e as negociações da Fórmula 1 representam golpes duros até para as amizades mais sólidas. Pollock caiu fora da sociedade, Jacques continuou na BAR e, dizem, o clima ficou péssimo na equipe. Depois da saída de Jacques, no final de 2003, tudo mudou para muito melhor no ano passado. Jenson Button não cansava de dizer que o clima tinha melhorado e que estava aí, nos bons ares, e não necessariamente no carro, a evolução no desempenho da equipe.

Há alguns dias, nosso colunista Luiz Fernando Ramos explicou por que Jacques ressuscitou na Fórmula 1. Bem simples: porque Bernie Ecclestone quis, porque Bernie Ecclestone acha que a presença do canadense faz bem para o show. O desempenho de Jacques em suas quatro corridas desde o exílio (duas pela Renault, em 2004, e duas pela Sauber, em 2005) foi o modelo bem acabado daquilo que se pode chamar latrinário, palavra introduzida no GPTotal pelo colunista Eduardo Correa, hit absoluto entre os leitores. Assim, Jacques, nem Bernie te segura, meu bem.
Em 1999, primeiro ano na BAR: início da fase negativa. O acidente acima aconteceu nos treinos para o GP da Bélgica e terminou com uma capotagem.
Mas não dá para deixar barato. Como é que um piloto, cuja carreira meteórica levou-o a conquistar dois títulos mundiais em duas categorias diferentes no intervalo de dois anos, consegue ter um fim de história tão vexatório? Aqueles que gostam de desfazer das conquistas alheias, dizendo por exemplo que Keke Rosberg só ganhou uma corrida no ano em que foi campeão, por acaso o mesmo 1982 da morte de Gilles, poderiam dizer que Jacques foi campeão: a) por acaso, b) porque a equipe o favoreceu, c) porque interessava para Bernie, d) todas as anteriores. No entanto, esse campeonato de 1997 eu vi: não era esse insolente quem guiava, esse mau piadista, era um Jacques guerreiro, bonito de se ver pilotar. O que, será, então, que aconteceu?

Partindo da lógica que ninguém desaprende uma habilidade, não é falta de braço que acomete Jacques, mas falta de cabeça. Não é louco como foi o pai, mas parece padecer de falta de equilíbrio emocional. Existe uma teoria que versa sobre a inteligência emocional, sobre a qual li vagamente: às vezes, o sujeito é um gênio para determinada função, mas a desempenha de maneira ruim porque não dosa a capacidade funcional com suas próprias emoções, embaralha razão e sentimento e prejudica o resultado final. Melancólico, Jacques, mas parece que você está mesmo acabado.

Mas, afinal, se está clara minha tese sobre o “acabado”, quem seria o interminável do título?

Na Sauber, em 2005: o fim está próximo?
Há alguns dias, circulou uma notícia sobre Michael Schumacher na qual ele dizia que o segredo de seu sucesso era não se permitir ter emoções. Radical, germânico puro, mas uma grande explicação. Talvez, nem seja tão radical como no discurso. Nas vitórias mais significativas, ele vibra. Nos dias de hoje, duelando com uma cadeira elétrica pintada de vermelho, ele certamente se exaspera. Mas parece evidente que Schumacher tem a capacidade de traçar e executar bem um projeto e esse foco constante surge como o oposto dos gestos apaixonados que marcaram a família Villeneuve.

Eu tenho, cá com meus botões, que o desenvolvimento da F2005 era um desejo de Schumacher de alguns meses atrás. Por ele, talvez, a Ferrari teria começado a temporada de carro novo e é por pressão dele que a equipe o fará, atrasada, na próxima corrida. Parece que o alemão está descontente com o rumo escolhido, na base da soberba, pela Ferrari, mas ninguém o viu até agora xingando a equipe em público ou tendo chiliques no padock. Ele não se permite emoções, lembremos. E continuo apostando que ele e a Ferrari dão a volta por cima no campeonato. Se virá o oitavo título, quem sabe? Mas tenho convicção de que ninguém terminará 2005 dizendo que Schumacher está acabado. Ele é o interminável.
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