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| » » » 18.03.05 |
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| Malásia: a hora da verdade? |
18.03.05 |
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Ridículo, idiota, tsunami, estapafúrdio, uma m... (não esperem ler palavrões aqui, posto que sou moça de fino trato). Essas foram algumas das expressões usadas e repetidas por nossos colunistas e leitores nas últimas semanas para qualificar o regulamento de 2005 da Fórmula 1. Nessas teses, defendeu-se com ardor a desvalorização do piloto aguerrido. "Vai ganhar quem poupar mais equipamento." Esculhambou-se a matemática das novas regras. "Um motor para cada duas corridas, e um número ímpar de provas. Idiotas!" Blasfemou-se contra a soma de tempos dos treinos oficias. "Parece corrida de bicicletas."
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| Zonta e o melhor tempo no treino de sexta da Malásia. Graças ao regulamento... |
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Ao fim e ao cabo, começamos a colocar o rabinho entre as pernas. Fisichella ganhou a corrida da Austrália deste ano quase com o mesmo tempo de Schumacher em 2004, mostrando que as equipes têm competência para driblar limitações técnicas e normas esportivas de qualquer regulamento, ano após ano. Como diria o personagem de Jeff "A Mosca" Goldblum, em Parque dos Dinossauros, "life finds a way", ou seja, a vida acha um caminho, a Fórmula 1, também.
Faz mais de vinte anos que me sento à frente da TV, mais ou menos a cada quinze dias, para ficar uma hora e meia, no mínimo, vendo esses malucos desafiarem a morte. Mais antigo do que esse meu hábito é a prática do esporte oficial de quem só assiste corrida e não está lá dentro: meter o pau nos dirigentes da categoria. Quando morre um, os dirigentes são omissos e têm que fazer regras que protejam a vida dos pilotos. Se só uma equipe vence, os cartolas que dêem um jeito de tornar a categoria competitiva. Recolocam abastecimento e troca de pneus, onde já se viu, querem inventar. Tiram um dos dois, que palhaçada, virou gincana!
Não pensem que vou defender a cartolagem da Fórmula 1, primeiro porque eles não precisam de minha frágil voz feminina ecoando nesse mar de homens e idéias. Segundo, porque, por mim, poderiam enforcar um com as tripas do outro, mas não porque eles mexem demais nas regras, e sim porque são donos de um esporte que, costumeiramente, me faz passar nervoso, rouba tempo dos meus treinos de corrida a pé e ainda assim, não consigo largar dele, mesmo sabendo que eles ficam às gargalhadas com a nossa cara, abanando-se com suas notas de euros, fumando charutos com os pés displicentemente em cima da mesa!
Simplesmente acho uma perda de tempo ficar vociferando contra cada nova regra que eles criam. Nesses vinte e tantos anos, ouvi diversas vezes que "essa não é a Fórmula 1 pela qual me apaixonei" e, no entanto, ela não deixou de existir. E nós não deixamos de assisti-la. Vamos voltar um pouco no tempo: quando a Williams usou com perfeição soluções como o controle de tração e a suspensão ativa, em 1992, muita gente reclamou. Houve quem dissesse que Mansell jamais seria campeão sem a ajudinha das engenhocas. Ayrton Senna, em uma coletiva naquele ano, não foi exatamente contra o aparato da Williams, porque morria de vontade de pilotar aquele carro, mas disse que a eletrônica tirava a "finesse" do piloto.
Naquele tempo, a Williams fez toda a concorrência comer poeira por dois anos seguidos, e baniram a eletrônica no começo de 1994, quando Senna juntou-se ao time de Grove. Ficamos, os brasileiros, meio bravinhos porque tiraram o bolo da festa bem quando nós que iríamos apagar as velinhas. A mudança, naquele ano, foi radical: tiraram os brinquedinhos eletrônicos de Frank Williams e Patrick Head, introduziram o reabastecimento e, em primeira e última instância, conseguiram o intento de equilibrar o campeonato.
Em primeira instância, porque Senna e sua equipe, digamos a verdade, ficaram perdidinhos nas primeiras corridas. Claro! Em uma mudança profunda, quem está na frente sempre sofre o maior baque. Em última instância, porque o campeonato não foi abocanhado mais uma vez pela Williams, consagrando o primeiro título de Schumacher, a bordo da Benetton. No entanto, e sabendo que o "se" não joga, é possível que a história daquela temporada de 94 fosse outra não tivesse Senna morrido, já que seu companheiro Damon Hill lutou bravamente até a última prova, perdendo o título em uma manobra do alemão para toda a eternidade bastante discutível.
Naquele 1994, a mexida na regra tinha como objetivo aumentar o equilíbrio da categoria, mas não seria suficiente para derrotar a Williams e não foi, visto que a equipe brigou até o fim pelo título. Neste 2005, o objetivo declarado é a redução de custos. Não tenho motivos para duvidar de quem gosta tanto de dinheiro e sabe tão bem lidar com ele e, nessa análise, promover um maior equilíbrio da categoria também é contribuir para suas finanças, à medida que ela se torna mais atraente, mais vista, mais valorizada. Hoje, como ontem, o líder vai superar as invencionices dos cartolas. Vai dar Ferrari na cabeça.
Ainda uma questão atacável do regulamento: a definição do grid pela soma de tempos dos dois treinos. De novo, não agüento vocês, rapazes! Quando o treino de sexta-feira deixou de ser dito "oficial", meu Deus, como escutei reclamação! Que a sexta agora não servia para nada, que legal era no tempo em que um piloto de equipe média ou pequena podia fazer a pole só porque fez o melhor tempo na sexta, depois choveu e todo mundo se ferrou (lembraram do Barrichello em Spa, 94? Pois é...). É estranho ver um tempo de pole com três minutos? É, concordo, mas pelo menos deu-se algum peso para o primeiro treino classificatório. Serão só duas voltas lançadas, uma em cada dia. Não vale a pena ir até o autódromo para ver o carro passar só uma vez na sua frente? Sabe o que você faz? Vai trabalhar na sexta, vai ao parque ou ao supermercado com a sua mulher no sábado e vê a corrida no domingo. Não tá bom?
Enfim, temos pela frente a Malásia com seu clima abafadíssimo e suas nuvens habitualmente carregadas no horizonte. Se chover o tempo todo, a superioridade da Ferrari deve prevalecer, como mostrou o treino de sábado, em Melbourne. Se não chover nada, novidade, deve dar a Ferrari também. Pelo que andou Barrichello na Austrália, a Vecchia Signora ainda dá um caldo saboroso. Se for mezzo chuva, mezzo seco, poderemos continuar na falsa ilusão de que o regulamento equilibrou as coisas. São Pedro, a partir de então, será chamado por seus colegas pela alcunha de "Regulamento".
Uma coisa me chama a atenção, nessa choradeira contra limitação de motores e pneus, e ninguém politicamente correto se levantou para defender. As empresas hoje associadas à Fórmula 1, sejam fornecedores ou patrocinadores, são grandes corporações que, ao redor do mundo, desenvolvem programas institucionais consistentes de preservação do meio-ambiente e conscientização. Nesses programas, a utilização racional de recursos é uma constante. A Fórmula 1, por uma via oblíqua, no mínimo, também dá seu exemplo.
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| Coulthard, à esquerda, e seu novo figurino rebelde - que, na verdade, é quase igual ao anterior. |
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David Coulthard está, para a Fórmula 1, como um idoso está para a sociedade. Doze temporadas de F-1 são uns oitenta anos de vida, na proporção. O idoso é visto com simpatia, pode falar e fazer umas bobagens que a gente releva. Pequenos feitos do idoso - "vai ao banco sozinho!" - são festejados como os primeiros gracejos de um bebê. Sabe viver esse Coulthard, e sabe pilotar. Não se discute sua belíssima performance na Austrália, mas o bom moço (ou bom velhinho, depende do ponto de vista) tem alcançado uma aura de neo-rebelde que me diverte pelo improvável. Damon Hill, na pele de irmão mais velho, disse que David deveria mostrar "dois dedos" para o mundo e se divertir na F-1 (na Inglaterra, em vez de mostrar só o dedo do meio em riste, eles mostram o fura-bolo e o pai-de-todos, mostrando as costas da mão, e assim mandam para aquele lugar). O dono da Red Bull, o combustível dos baladeiros, pediu ao escocês para soltar a franga, ficar mais radical, como a imagem da marca sugere. Sabe o que ele fez? Deixou a barba crescer! Rá-rá-rá! Ninguém nega a própria natureza, é como a história do escorpião. Coulthard é tão rebelde quanto eu fui, na adolescência. CDF juramentada, aluna de colégio de freira, resolvi soltar a franga no último dia do terceiro colegial e fazer uma coisa "bem louca". Adivinhem?! Roubei a plaquinha da porta da classe, na qual estava escrito exatamente "3° colegial". Fui eu, irmã Celeste, confesso! Droga, ninguém se lembra disso. Inesquecível foi o que fez naquela escola minha contemporânea Soninha Francine, vereadora em São Paulo, apresentadora de TV e amor-de-pessoa, mas isso é outra história. Eu e Coulthard, dois fracassos da rebeldia.
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