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Neste passado mês de agosto tive o privilégio de fazer duas coisas que certamente a maioria de vocês, tipo 99,9%, adoraria fazer. Apesar de ser vaidoso, vou logo avisando que o objetivo do relato que segue é o de dividir com vocês minhas emoções, e não um exibicionismo previsível de quem conseguiu fazer algo que não está exatamente ao alcance de todos.
O que fiz?
Pilotei o Fiat Linea preparado para o Trofeo Linea, competição monomarca inserida no Racing Festival, evento chancelado por Felipe Massa e com apoio de potentes empresas tais quais a… Fiat, que me convidou para o giro no carrão.
E a outra coisa, qual foi? Na semana seguinte, andar (desta vez do lado, não pilotando, infelizmente) no Porsche 911 GT3 (codinome 997) usado na Porsche Cup Challenge, outro torneio monomarca muito interessante promovido pelo importador oficial dos Porsche no Brasil. Tal convite partiu do assessor de imprensa (e amigo) Luiz Alberto Pandini.
Carros legais não? Claro, mas totalmente diferentes entre si. Um, o Linea, é um sedã de quatro portas que recebeu um banho de preparação para se tornar um carro de corrida, seguindo uma receita clássica que é redução de peso via “depenação” e o aumento de desempenho via preparação. Mesmíssima coisa ocorreu com o Porsche 911 GT3, mas com uma importante diferença: tal carro já nasceu pensado para alta performance, pois é um esportivo puro sangue.
Não vou cair ao nível do detalhe de como é cada um desses carros tecnicamente, mesmo porque minhas voltas com o Linea serão objeto de reportagem a ser publicada em breve no site www.bestcars.com.br e, lá sim, será o local certo para discorrer sobre os aspectos mais técnicos da aventura. Aqui o babado será outro, enfocando como dois carros tão diferentes em sua origem (na verdade três, como veremos mais adiante…) podem ser tão “a mesma coisa”.
Fiat Linea e Porsche 911 GT3 em versão de pista são ferramentas de diversão extasiante. Um tem perto de 215 cv, outro o dobro disso. Diferença de peso? Alguma, claro, mas nada muito significativo. Estar em Interlagos a bordo desses carros me fez muito feliz, mas é evidente que fiquei bem mais feliz por guiar o Linea do que ser passageiro do Porsche, mesmo se ao volante estivesse um profissional de currículo admirável, piloto em plena atividade, dos mais elogiados da atual safra: Nonô Figueiredo. De qualquer forma, mesmo não tendo a chance de tocar o Porsche, as duas voltas ao lado de Nonô foram totalmente ilustrativas, assim como as voltas com Juliano Moro tocando o Linea, que precederam meu turno ao volante.
Começo pelo Linea: ao que consta é o carro com o qual menos se gasta para andar muito rápido. Custa cerca de R$ 170 mil prontinho para correr e vira na casa do 1min51s em Interlagos. Usa pneus slicks, tem câmbio sequencial e as corridas são disputadíssimas, inclusive a ponto de dar aos mecânicos muito trabalho de funilaria entre uma bateria e outra, visto que o pessoal se esfrega com gosto disputando freadas e curvas lado a lado.
Na Porsche Cup, a ação toda é mais sofisticada: da tecnologia do carro ao naipe de pilotos em ação. Seria uma categoria para “gentleman drivers”, senhores muito bem fornidos de $$$ e ansiosos por alguma emoção com o glamour que confere a resposta “Eu corro de Porsche” à clássica questão “Ah, você corre de carro, né? Qual carro?”.
Disse que “seria” uma categoria para gentleman drivers pois o que vi me impede de chamar ao menos 50% deles de gentlemans: totós, toques, fechadas e o cardápio completo do Dick Vigarista corre à solta, e desclassificações por “conduta antiesportiva” estão na ordem do dia da categoria.
Mas vamos aos carros. No Linea, você entra se esgueirando pela gaiola de tubos de proteção, o chamado “santantônio”, para assumir uma posição insólita, muito mais para trás do que no carro normal, quase como se sentasse no banco do passageiro. Sendo um carro do motor e tração dianteira, é claro que isso é uma tentativa de compensar a distribuição das massas entre os eixos.
Nas intensas duas voltas em que fui passageiro de Juliano Moro, entendo que o Linea precisa de uma pilotagem enérgica pois ao menos câmbio e freios foram usados sem nenhuma delicadeza pelo piloto. E logo chega a minha vez de sentar ao volante e, sem nenhuma pretensão de ser mais rápido que o rapaz, tampouco passear em ritmo de procissão, vou para pista.
Dissociar essa minha experiência do meu arroz com feijão, ou seja, a pilotagem do meu velho (1979) Puma GTE 1600 (olha ele aí, o terceiro carro!) com o qual participo do Campeonato Paulista da Classic Cup, é impossível e assim, suportem a esdrúxula (em termos) comparação. O Linea tem uma direção muito mais precisa e leve, mas é bem menos arisco do que o Puma. Os pneus slicks são bem mais agarrados ao solo que os radiais do meu velhinho. Na freada, um susto: progressividade zero no Linea. É preciso pisar com fé no pedal para – e aí sim – fazer as pinças Brembo agirem como delas se espera, e isso ocorre com um guincho, um ganido, que não deixa a menor dúvida sobre o contato intenso da pastilha com o discão ventilado. No Puma? Bem, a potência de frenagem é bem menor, sem ganido, e qualquer exageradinha na pressão do pé trava (especialmente as rodas traseiras) enquanto a frente mexe para cá e lá…
Freada, contorno de curva (sim, claro, O Linea é mais rápido que o Puma, mas não muuuito mais) e reaceleração. Aí sim, a diferença é grande e o Fiatão pula feito gato para a curva seguinte. E entre uma curva e outra, troca de marchas. Como é? Na base do soco. Isso mesmo, porrada. Câmbio sequencial quer dizer uma alavanca que se movida num sentido (para trás), passa marchas, e no outro (para a frente) as reduz. Embreagem? Não precisa usar, só para sair. Mas nas reduções ajuda enquanto que para subir – 2ª, 3ª, 4ª… – nem precisa tirar o pé do acelerador. Moderninho, que só!
Meu amor às caixas de câmbio e anos e anos de cuidados com elas me impediu de seguir esse estilo ao pé da letra, tanto por não ter tido tempo de me adequar a isso (há um provérbio nos EUA que diz algo como “não se ensinam novos truques a um cachorro velho”), como por já me satisfazer com a necessária porrada a ser dada na alavanca para que a marcha entre.
Terminadas minhas voltas, o resumo é de que pilotar o Linea é demais mas… o velho Puma é uma cadeira elétrica que mesmo virando mais de dez segundos mais lento por volta diverte tanto quanto, ou até mais, pela necessidade de ficar toreando-o o tempo inteiro, e permanecer sempre no fio da navalha se quiser conseguir um tempo de volta decente para não se esfregar no guard rail ou sair rodando pelos verdes campos de Interlagos.
Ao Porsche: Nonô Figueiredo espeta a 1º marcha. Percebo que também é “na porrada”. Desce a saída do box numa velocidade que faz o café da manhã ingerido horas antes ser lembrado item por item. Na freada para a Curva do Lago, freia onde eu freio com o Puma. A diferença é que eu estou a 180 km/h e com o Porsche, chuto, estamos a uns 240 km/h… Quando o bico da carro aponta para a saída da curva, Nonô acelera, progressivamente. Eis outra diferença: eu afundo o pé sem dó no Puma. Claro! Mau motor tem 130-140 cv (se tem) enquanto o Porsche tem 450 cv…
No miolo de Interlagos, noto a “limpeza” da pilotagem, nada de briga com volante, tudo é muito composto, ensaiadinho, jamais uma escorregada. Acelerações brutais mas progressivas, e sempre com o carro alinhadinho, no meio da curva só um “cabelinho” de acelerador. Penso com meus botões: “essa é uma volta turística. Esse cara não está andando de verdade…”. Nonô dá mais uma volta, trocando de posição com o Max Wilson em outro 911 GT3 e a festa acaba.
Agradeço e vou para casa, feliz, mas … queria mesmo é ter pilotado!
Em casa, descarrego no computador o filminho que fiz de minhas voltas como passageiro de Nonô, aquelas em que achei que ele estava “passeando”. Na gaveta ao lado, meu velho cronômetro Seiko. Huuummm! Vamos ver quanto ele virou comigo à bordo? Senhores, conferi umas três vezes para ter certeza: 1min42s7.
Com esse tempo o Sr. Nonô Figueiredo (com o Sr. Agresti ao lado) largaria na metade do grid da etapa que estava sendo disputada naquele fim de semana. Não é incrível!
O quê exatamente?
Incrível é verificar como o Porsche 911 GT3 preparado para o torneio monomarca é uma arma letal, exata, precisa e que não demanda malabarismos para ser levada ao limite. Basta seguir o “protocolo”, descobrir o ponto certo de frear e acelerar, ser preciso e delicado (menos com o câmbio e freios) e pronto.
Linea? Um pouco menos, mas em essência isso.
Puma? Ora… bem ao contrário. E no fundo isso me conforta pois entendo que neste grande privilégio que é entrar num carro de corrida o que importa é alcançar o prazer, e o prazer é a volta rápida – o mais rápida possível – com a ferramenta que se tem às mãos. Linea, Puma ou Porsche, todos carros de corrida. Um extremamente caro, outro ridiculamente barato e outro ainda na “coluna do meio”.
E em todos o mesmo prazer, mas com sabor – e tocada – bem diferente.
Roberto Agresti
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