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| » » » 18.02.10 |
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Quando queremos dizer que alguém é bom piloto dizemos que é “bom de braço”. Já “bração” em vez de definir aquele que tem um grande braço, ou seja, um excelente piloto, é exatamente o oposto, um piloto ruim.
Braço, bração ou bracinho, os membros que movimentam o volante são apenas assistentes do verdadeiro chefe, o cérebro, a complexa máquina que comanda os movimentos que resultam num maior ou menor domínio dos veículos pelo homem, fundamento do esporte a motor de que tanto gostamos.
Sim, é o cérebro é que faz a diferença.
Começo esta minha coluneta quinzenal com esse intrincado (e chato pacas) discurso anatômico para dar sequência ao meu blablablá de uma quinzena atrás, a tão louvada quanto apredrejada coluna Como é e como deveria ser, na qual expus princípios não unânimes, tecendo louvores a uma época onde a pilotagem dos F1 era mais física, exigindo maior rotação do elemento mecânico principal de qualquer veículo, o volante.
Em tais jurássicos momentos do esporte, a F1 tinha comando de acelerador por cabo, três pedais, câmbio com alavanquinha e nem de longe havia a tão propalada eletrônica que hoje é responsável por comandar quase tudo.
A gênese da coluna de duas semanas atrás se deu num filminho do Youtube onde um sujeito “armado” como um Porsche 911 fuçado se esfregava para lá e para cá nas curvas daquele templo do esporte a motor mundial, o circuito de Nurburgring. Defendia o papai aqui que aquilo sim era pilotagem. Uma insana briga de um homem sem muito juízo com um carro com menos ainda, nitidamente arisco, possivelmente mal calçado de pneus e, como observaram alguns leitores, “jogando para a câmera”, não se preocupando muito com trajetórias impecáveis ou com a exata dosagem do pé direito sobre o acelerador (a cabo, certamente!) daquele fantástico brinquedo com 500 cavalos, e dos mais chucros.
E com bem pouca eletrônica...
Atire a primeira pedra neste que vos escreve quem nunca acelerou mais do que devia propositalmente, sabendo que o carro ia escorregar, só para ter o prazer de controlá-lo! Atire outra quem nunca “cantou pneu”, deu cavalo de pau ou girou o volante com raiva só para desequilibrar o carro e tentar salvar a situação na base do talento! Quem respondeu “nunca!” está no site errado...
Pois eu fiz tudo isso, e ainda faço. Mas noto, com certo desprazer, que quanto mais novo e mais caro é o carro, a diversão que ele oferece é relativa. E vamos a um exemplo prático: acabo de chegar de viagem onde tive a honra de usar por mais de 1000 km um carro bem cobiçado aqui no Brasil e acolá mundo afora, um novíssimo Audi A4 2.0 TFSI. Um belo “brinquedo” com 214 cavalos, câmbio com borboletas no volante com oito (sim, oito!!!) marchas, controle de tração, de estabilidade, freios ABS, pneus 245/40-18 e três modos de acerto de suspensões ajustáveis por botões no console. Ou seja, um “must” da tecnologia teutônica com um marcante viés esportivo e todos os confortos adequados a um carro cujo preço beira os 200 mil reais.
Acaso estejam interessados, escrevi sobre ele e seu irmãozinho A3 Sport no site
www2.uol.com.br/bestcars/testes3/audi-a3-sport-a4-sport-1.htm.
Sem muita vergonha, mas com certo constrangimento, confesso que talvez me divertisse mais pilotando um Uno Mille rodovia dos Tamoios abaixo (acima ele não passaria dos 60 km/h...) do que atrás do volante do Audi A4. A quantidade de letrinhas – ESP, ABS, ASR, IPVA e outras – torna derrapagens praticamente impossíveis e o prazer de colocar a respectiva progenitora no local de trabalho das meretrizes se torna algo impossível com o admirável conteúdo tecnológico do veículo.
Pano rápido, vamos à Fórmula 1.
Certo leitor do qual, me desculpo, não me recordo o nome, julga que o talento de um Renè Arnoux ou de um Gilles Villeneuve de outrora é equivalente ao de um Sebastièn Vettel ou um Lewis Hamilton de hoje. Sim, eu sei, concordo plenamente. Ambos são expoentes do que de melhor há ou houve em suas respectivas gerações. No céu, os cérebros destes citados e de todos os que chegam à F1 foram selecionados naquela prateleira dos pilotos “hors concours”, muito acima da prateleira onde estava o meu, certamente. Todavia, enquanto os pilotos dos F1 do passado exercitavam sexo animal a cada GP, dando “cinco sem tirar”, os atuais pilotos da categoria são forçados a um sexo tântrico, onde o orgasmo vem através de uma estratégia arquitetada muitas vezes nos boxes, cruzando variáveis em intrincados softwares de gestão que comandam direta e indiretamente a porra do carro.
E isso, amiguinhos, resulta num espetáculo mais mixo.
Que me perdoem a ranzinzice típica de quem já passou dos 50, mas assistir corrida domingo de manhã nos anos 70 e 80 era bem mais divertido. Mas eu sei que para quem não tem este parâmetro de comparação, para quem nasceu para a F1 quando Senna já tinha passado, fica complicado entender alguns aspectos.
Tão complicado quanto entender como alguém pode achar mais graça em descer uma serra de Uno (ou Fusca, que também é bem divertido) do que com um poderoso Audi, ou BMW...
Pois assim encerro este particular (e polêmico) ponto de vista, em que instado por saudosa e saudável overdose de tecnologia (afinal foram mais de 1.000 km no Audi...) me armo de outros exemplos, lembrando de alguns amigos de maneiras e pensamentos tão estranhos como estes.
Um deles declarava adorar ovo colorido de boteco, aqueles que ficam na vitrine de bar o dia inteiro esperando um incauto. Se justificava dizendo que comer bem, sempre, enjoa, e que de vez em quando um ovinho daqueles, uma pururuquinha de rodoviária ou um churrasquinho na porta do estádio é o máximo. Outro quando ia a bailinhos no tempo da faculdade procurava no salão a moça mais baranga de todas, pois certamente era aquela que iria dificultar menos o acesso “às partes”, e ia se empenhar para mostrar serviço. Era um ferrenho adepto da política de resultados (ruins, mas resultados).
A F1 assim como nossos carros do dia-a-dia talvez esteja num caminho sem volta, exigindo cada vez menos em alguns aspectos e cada vez mais em outros – lembrei do volante dos F1 atuais: o que é aquilo!!! Lembrei também de minha incompetência em qualquer videogame e de como me dava bem nas antigas máquinas de fliperama, aquelas barulhentas, com bolinhas prateadas. Lembrei que, de fato, diferentes gerações têm diferentes gostos e pontos de vista, e que a atual F1, sob o MEU ponto de vista, ainda é adorável, mas talvez esteja dando mais trabalho aos cérebros de técnicos em laboratórios do que aos cérebros – e braços – dos pilotos em pista.
Será?
Roberto Agresti
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