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Home » Colunas » Roberto Agresti » 01.02.10
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Como é e como deveria ser 01.02.10


Às portas do início da temporada da F1, com os tremores devidos à síndrome de abstinência de assistir corridas ficando cada vez mais insuportáveis, reflito sobre o que nos espera nesse 2010 tão aparentemente curioso.

Alonso na Ferrari, Button na McLaren, Barrichello na Williams, as novas equipes, Lucas Di Grassi, Bruno Senna e ele, Michael Schumacher, de volta: por qual dos temas encaminho a meu blablablá de estréia do ano? Inspirado por este vídeozinho do Youtube



recomendado pelo ótimo blog Autoentusiastas, (http://autoentusiastas.blogspot.com/) , quero falar de como deveria ser, na minha humilde opinião, a F1.





Stewart Hill em Nurburgring 1966 - Clique para ampliar
Sou daqueles que acredita, mesmo, que as duas dúzias de pilotos que alinham a cada ano para a temporada de F1 são os melhores do planeta. OK, concedo uma margem de erro de 10%, como nos velocímetros, e assim teremos que, dos 24, 22 são os melhores, e dois estão ali roubando lugar de outros, menos sortudos ou apadrinhados do que eles. Mas paciência, a vida é assim mesmo.

E, o que tem a ver o videozinho com esse papo? Já assistiram? Pois então assistam, senão ficará difícil a nossa conversa.

Tem a ver com a habilidade, o dom natural de conduzir rapidamente um veículo de quatro rodas respeitando os estreitos limites daquela fita de asfalto chamada pista. O cara ao volante do Porsche sabe das coisas. O circuito é o lendário Nurburgring em sua versão longa, de cerca 22 km de extensão. Também chamado de Nordschleife. Quem andar bem ali merece um título de PhD em pilotagem, e andará bem em qualquer lugar.

O jeito que o sujeito atira o Porsche de uma curva para outra, a habilidade no controle de um carro que está nitidamente andando no limite sem que a pilotagem pareça nervosa demais ou suicida demais diz tudo: o cara sabe das coisas. Ao que consta o nome de rapaz é Stefan Roser, e é um piloto de teste de uma empresa alemã chamada RUF, preparadores da Porsche. Como se precisassem de preparação...

Depailler Peterson com Tyrrell em Interlagos - Clique para ampliar
Mas, onde entra a F1? Estaria eu tentando dizer que o tal do Roser é um injustiçado, talento nato que mereceria uma vaga na F1? Não, não é isso.

O cara sabe das coisas, já vimos, mas o que me impressiona é o quanto o Porsche escorrega, o quanto gritam seus pneus, o quanto Roser tem que trabalhar no volante para se manter na pista. Enfim, a tarefa exige um “braço” sem tamanho e certamente ao final de algumas voltas de 22 km o cara tem que parar para descansar, pois o desgaste físico deve ser grandioso.

É nítido que o Porsche é de uma época onde controles eletrônicos passavam ao largo. Do jeito que patina, é o pé do piloto que controla a tração. Controle de estabilidade? Só se for a bunda do piloto, sentindo que vai dar ou não para não sair catando cavaco e se enfronhar nas árvores levando o guard-rail junto. E freio ABS não passou nem perto desse demônio sobre quatro rodas que, pelo pouco que sei, é um modelo 911, talvez do fim dos anos 80, no qual a tal RUF meteu um turbo e conseguiu perto de 500cv de potência com 50 qulinhos de torque. Insano.





Fangio Maserati 1957
Estamos habituados a ver o trabalho dos pilotos de F1 através das câmeras on-board. O que vemos é bem diferente do que nos oferece o filminho desse Porsche em Nurburgring, com nosso amigo Roser ao volante (sem luva, sem capacete, sem macacão, sem... juízo nenhum!).

Como sabemos, os F1 de hoje são forrados de dispositivos que otimizam a performance. Ver um deles fazer uma curva de lado, no mais puro estilo drift, é cena raríssima e, quando se vê, o final é infeliz pois se um F1 ficou de lado quer dizer que a vaca – o rebanho inteiro, aliás – foi para o brejo, o piloto virou mero passageiro e não há nada que ele possa fazer para evitar a caca. Alguns pilotos mais bem servidos de anjos da guarda competentes se salvam dessas escorregadas, quando a eletrônica lava as mãos e deixa as leis da física sobrepujarem toda a ciência humana aplicada à porra do carro. Mas, repito, é raro.

Não me entendam mal, eu não sou contra o progresso, as novas tecnologias que ajudam a tornar os automóveis (e aviões, e trens, e motos e tudo aquilo que convencionamos chamar de meios de transporte) mais seguros. Não é isso. Sou um acirrado defensor dos freios ABS, dos airbags para todo lado e de tudo aquilo que permite ao usuário de veículos cumprir seus trajetos do ponto A ao ponto B de maneira mais segura e tranquila.

No entanto, se existe um esporte onde a arte de conduzir um carro em alta velocidade vai premiar os mais talentosos, deixar com que sensores limitem a possibilidade de exibir talento me parece paradoxal e, lamento, é isso o que ocorre hoje na F1.

Reafirmo que acho que os melhores 24 pilotos da atualidade são os que alinharão no grid do GP do Bahrain, dia 14 de março próximo, mas tenho certeza que o espetáculo que veremos é em muito condicionado – negativamente, bem entendido – pelos excessos tecnológicos presentes nos carros de hoje.

Sir Brabham
Sou cético quanto ao fato de ser a F1 um campo de provas para o desenvolvimento dessa parafernália que não deixa o carro desgarrar, que administra a forma com a qual a potência vai ser enviada ao solo. Os carrinhos nossos do dia-a-dia se beneficiam da evolução técnica oriunda das pistas, mas suponho que dar aos pilotos um pouco mais de chance de “segurar o touro pelo chifre” faria um bem danado ao espetáculo, e a tecnologia se desenvolveria em outra seara.

Defendo uma F1 com menos eletrônica, menos sensores, menos asas, menos firulas hi-tech, enfim.

Volto ao filminho do Porsche em Nurburgring: modestamente, seu eu fosse um Felipe Massa ou um Michael Schumacher, não teria dúvidas em escolher um carro que mais parece um cavalo chucro do que um míssil que mal exige que se esterce o volante para dobrar uma curva (será que a ida de Kimi Raikonnen para o WRC tem a ver com essa minha linha de pensamento?). Porém, eu não sou Massa nem Schummi e, de repente, eu não sei picas sobre o que é a finesse da pilotagem de um F1 atual, e quais as estupendas exigências que esses carros demandam de seus pilotos para se manterem na pista.

Porém, para quem está no sofá, vendo, que saudade dos F1 de lado nas curvas...

PS: assistam também um certo senhor chamado Walter Rohrl ao volante de um Porsche, na chuva, no mesmíssimo Nurburgring. Ave Maria...



Boa semana a todos

Roberto Agresti

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