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| Vale, o cabelinho arrepiado nas orelhas, e o pai |
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Em fevereiro de 1996 eu estava em Jerez, nos testes pré-campeonato do Mundial de Motovelocidade, naquela época ainda disputado com as 500 além, é claro, das 250 e 125. Minha tarefa ali não era só a de cobrir os treinos para a Revista Moto!, mas também assessorar Wilson Yasuda, da Honda brasileira, nos derradeiros acertos com a nova equipe de Alexandre Barros, o Team Pileri.
Na verdade Yasuda quase não precisou dos meus serviços de tradutor-intérprete junto à equipe italiana, pois logo se mostrou um fenômeno no “portuliano”, parecendo um genuíno japonês do Bexiga, bairro onde antigamente se concentrava a colônia italiana de São Paulo.
Alexandre e a nova Honda NSR 500 fizeram bonito naqueles testes, rodando de maneira rápida e constante, enquanto a moto, pintada nas cores da bandeira do Brasil, chamava a atenção tanto pelo grafismo inédito como pela beleza.
Para mim, aqueles dias ficaram registrados como um ponto alto da longa carreira do brasileiro no motociclismo mundial, carreira que tive o prazer de seguir do início ao fim. Naquele ano, Alexandre liderou o Mundial da 500 – creio eu – pela única vez em sua vida, após obter dois 2º lugares consecutivos nos GPs da Malásia e Indonésia. Vi tudo isso de pertinho e não esquecerei jamais aqueles primeiros passos com a nova equipe numa gelada Jerez e, depois, o calor abafado das corridas na Ásia.
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| Vale comemora o seu 3o lugar em Mugello |
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Mas não é desse momento de Alexandre que quero falar, mas sim do que aconteceu de mais importante naquele treino em Jerez: a estréia de Valentino Rossi no Mundial.
Sim, o grande Rossi, então pequeno e franzino, dava seus primeiros passos no Mundial com uma Aprilia 125 justamente ali, e um fato chamou minha atenção para o rapaz: era um sujeito esquisito. Esquisito e feinho.
Nos fundos do paddock, perto do carro onde estavam minhas coisas, o garoto berrava num celular e se mexia sem parar. “Mamma, mamma” chamava ele, andado pra cá e pra lá, buscando o sinal, o ponto certo do maldito aparelhinho para poder ouvir e ser ouvido. Quando parou, parou na frente do meu carro. Contou todo seu dia, como fez, como isso, como aquilo e eu ali, prestando atenção no papo dele com a mamma, entendendo tudo, reconhecendo o sotaque “romagnolo”, dos oriundos da região da Emilia Romagna onde fica Tavullia, o “paesino” onde nasceu Rossi. “Que cabelinho de viado!” pensei. Repartidinho no meio, lambido em cima e arrepiado na altura do lóbulo das orelhas. Com uma cara daquelas não durava meia-hora na minha turma...
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| Vale e o pai em foto mais recente |
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Naquela conversa dele com a mãe soube que tinha ido bem no treino, e me interessou saber o quanto. Fui atrás dos tempos do dia da 125 e também de saber quem era aquele cara que eu não conhecia.
Primeira informação válida que catei: é filho do Graziano Rossi. Ah bom. Graziano eu conhecia, não de ver correr, mas de ler sobre ele pois só comecei a seguir o Mundial profissionalmente quando ele já havia se aposentado. Graziano era um piloto porra louca. Rápido mas chegado ao tombo, ao erro, e meio hipponga, com cabelão comprido. Totalmente anos 70. O moleque, pensei eu, teve uma escola e tanto em casa, e por isso é esquisitinho assim...
Daquela tarde fria de fevereiro em Jerez à primeira vitória do “esquisitinho” passou pouco tempo, seis meses. No ano seguinte venceu 11 das 15 corridas do calendário do Mundial 125 e faturou o primeiro de seus oito títulos mundiais.
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| Lorenzo à frente de Capirossi e Melandri em Mugello |
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Valentino, por conta do que fez e faz na pista e por conta dessa insólita maneira pela qual o conheci, ficou sendo mais do que um piloto especial para mim. Virou alguém da família, um priminho (esquisito e feinho...) fenômeno. O gênio.
Eu e o mundo assistimos, no decorrer desses anos a partir de 1996, a evolução do – em minha opinião - maior piloto de motocicletas que o mundo jamais viu. A tarefa de comparar pilotos fenomenais de gerações diferentes é sempre polêmica, causando discussões inglórias e zero possibilidade de mensuração prática, a não ser pela fria base de dados do que cada um conquistou em termos de pontos, títulos, vitórias ou qualquer outro parâmetro.
Tive a sorte de ver Kenny Roberts em ação, e Freddie Spencer, Eddie Lawson, Wayne Rainey, Kevin Schwantz, Wayne Gardner, Mick Doohan e muitos outros. Li muito a respeito de Tazio Nuvolari, Giacomo Agostini, Phil Read, Mike Hailwood... longa é a lista!
Tenho certeza que entre todos eles Rossi é o maior, o mais talentoso, inteligente, técnico e bem dotado piloto. Capaz de performances inigualáveis.
Porém, tudo que é bom acaba. Tudo que sobe desce e no derradeiro GP da Itália, na pista de Mugello, onde Rossi ganhou nada menos que sete vezes consecutivas, ele perdeu. Ter sido apenas (apenas!) terceiro colocado ali mostrou que o ocaso do campeão, do maior de todos os tempos começou.
Ele ainda vencerá muito, com certeza. Provavelmente ainda será campeão do mundo neste ou noutro ano, mas a curva de seu desempenho começou a descer. Inexorável.
Um certo Jorge Lorenzo, com moto idêntica à dele já o bateu duas vezes este ano e isso é o indício.
O feinho, o esquisito, está chegando ao fim dos seus melhores dias.
Aproveitemos o que resta.
Roberto Agresti
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