Domingo é dia de festa em Interlagos. Na derradeira etapa do ano de uma das mais interessantes temporadas dos últimos tempos será decidido o novo campeão.
Decisões na última corrida são sempre especiais, e ainda mais quando um dos candidatos ao título é “local”. Mas não é do brasileiro Felipe ou do inglês Lewis que vou falar. E nem mesmo da vermelha Ferrari ou do insidioso McLaren.
Eu vou é falar de Interlagos. O meu, o seu, o nosso Interlagos.
Para mim e para muitos, brasileiros ou não, Interlagos já está no panteão das grande pistas do planeta. Certemante entre as dez, e talvez entre as cinco mais mais...
Vejamos: Monza, Indianápolis, Silverstone, Le Mans... e Interlagos!
É claro que você deve ter lembrado de alguma outra pista bem legal que não citei, e certamente há circuitos que são especiais seja por terem sediado uma corrida espetacular, seja por causa de uma curva ou duas “daquelas”, pelo traçado, paisagem, entorno, o conjunto da obra e sei lá mais o quê...
Enquanto escrevia o parágrafo acima passaram pela minha mente Spa-Fracorchamps, Suzuka, Mugello, Monaco, Assen, Brands Hatch, Laguna Seca... Toda lindas! Mas volto a Interlagos.
O meu, o seu, o nosso Interlagos.
Domingo, aos 68 anos de idade, Interlagos atingirá seu apogeu e isso não se dá apenas porque o campeonato mais importante do esporte a motor mundial será decidido ali, ou por que um brasileiro poderá pela primera vez na história se sagrar campeão em solo pátrio, ou porque ali o mais promissor piloto surgido na última década – e quiçá candidato a maior de todos os tempos – Lewis Hamilton, faturará seu primeiro título.
Interlagos chegará ao seu apogeu por conta da impecável forma com a qual atinge seus 68 anos, como um velhote saradão e viagrado no auge de sua condição física.
Seja para o público, seja para os que vão ali trabalhar e especialmente para os que vão praticar o esporte para o qual ele foi pensado e construído, Interlagos tem melhorias e caprichos.
Nunca o asfalto de Interlagos esteve em tão bom estado como desde o último trabalho de recapeamento realizado para o GP do ano passado e – pasmem – ninguém o estragou!
E agora, ao belo asfalto se juntou uma bela obra nos boxes – a cobertura em lona tensionada – que deu ao circulto paulistano uma cara, uma característica marcante, um ar de modernidade que somente circuitos bem mais novos que ele podem ostentar. E paralelamente a essa que pode ser considerada uma perfumaria, veio também um novo hospital, uma readequação do espaço no paddock e uma arquibancada nova, que não deixaram Interlagos lindo e pronto apenas para o GP Brasil de domingo, mas para um ano interinho de atividades, seja elas quais forem.
Das óbvias corridas de carros, motos e bicicletas a shows de rock, missas do padre Marcelo, Skol Beats, Brahma Hits ou Quero-quero shits a pista paulistana estará nos trinques.
Quando o Edu Correa me sugeriu o “tema Interlagos” para a minha coluna quinzenal, imaginei falar do passado, dos fantasmas que certamente estarão lá, domingo, empoleirados nos guard-rails já que fantasma não precisa de credencial, e nem corre o risco de morrer por simplesmente já estar morto.
Pensei naqueles que conquistaram glórias, choraram derrotas, vibraram da arquibancada ou suaram na pista. Pensei em quantos milhares – milhões? – de pessoas se arrepiaram pelo simples fato de pisar naquele terreno sagrado, templo dos motores de um país que gosta mesmo de motores. E pensei naqueles que, como eu, um dia conseguiram realizar o sonho máximo de dar uma volta em Interlagos pilotando alguma coisa com motor.
Emocionante!
Pensei no traçado velho, cujo asfalto ainda está ali, arruinado como os muros do coliseu de Roma, carregado de história a ponto de dever ser vendido como souvenir, como fizeram com o muro de Berlim.
E porfim pensei em qual parte do traçado mais gosto, aquela onde nas vezes em que pilotei por ali me diverti mais. E, não à tôa, é o trecho que vai do “S” ao Mergulho, exatamente intocado como quando foi concebido salvo grosseiro engano meu.
OK, talvez agora esteja um pouco mais largo e certamente as áreas de escape não eram tão extensas, mas em termos de traçado, trajetória, o trecho que leva do “S” até a junção é o que sempre foi, há 68 anos.
Então é ali mesmo que a fantasmaiada toda vai estar.
É ali mesmo que o futuro campeão do mundo da F1 vai viver seus derradeiros momentos de solidão pois, uma vez chegada a junção, a enorme pulsação do público nas arquibancadas acabará com a privacidade que todo o piloto sente ao cumprir o trecho citado, escondidinho atrás do barranco, longe do box e dos olhos da maioria... Menos dos fantasmas!
Do “S” ao Mergulho, com Pinheirinho e Bico do Pato no meio.
E falando de fantasmas, lembrando do passado, descobri que Interlagos em 2008 está no apogeu, mais vivo do que nunca, tinindo de novo e capaz de sediar grandes festas por longos e longos anos.
Fiquemos felizes por isso. E que no domingo ganhe o melhor!